Planilhas e treinos diferenciados
Quando temos um objetivo a médio prazo como uma competição ou uma grande montanha a ser escalada, torna-se parte essencial do processo seguir uma planilha de treinos estrategicamente preparada. A sensação de cumprir a lição de casa a cada dia, seja na rua, na academia, na piscina ou em outros lugares nos dá confiança e ânimo para alcançar a meta desejada.
Encontro-me atualmente nessa fase, treinando seis vezes por semana e conciliando essa rotina quase espartana com o trabalho e a família – o consumo de álcool, por exemplo, ficou restrito aos finais de semana. Tudo para estar o mais resistente e forte possível em janeiro quando partirei para o Chile para tentar subir o mais alto pico daquele país. E assim, diariamente, depois de terminar o treino, assinalo um OK na planilha deixando o corpo quite com a consciência.
Mas, ao longo do período de preparação, acabamos saindo da rotina, como numa viagem ou num feriado. Para não sair da planilha, resta improvisar e ser criativo, mas o importante é fazer o treino desafiando a preguiça e vencendo a vontade de apenas descansar ou tomar uma cervejinha, atividades tão propícias ao lazer, à praia e ao final de semana prolongado em companhia de amigos e parentes.
Pois bem, estava eu no litoral em Ilhabela, de sexta-feira a domingo últimos, na belíssima casa do Dudu e da minha prima Celina, um simpático e divertido casal. A vista para o canal de São Sebastião, do quarto ou da sala, contagiava o ambiente e convidava para a inércia e para a conversa, e não para o movimento e o suor, ainda mais porque o tempo fechou e a chuva caiu de vez, primeiramente fininha e depois vistosa. E junto com ela, um friozinho, a vontade de ficar quentinho, de tomar um vinho e acumular energias.
Mas que nada! A planilha exigia dedicação naquela sexta-feira ao entardecer. Mas ao invés de musculação ou de uma corrida, que tal uma coisa diferente, para sair da rotina? O condomínio onde estávamos fica numa ribanceira, uma subida bem íngreme, e a casa se localiza quase 80 metros verticais acima da portaria. E continuando a pirambeira, lá encima, atinge-se praticamente 160 metros de desnível. Ótimo para treinar simulando uma montanha. E lá fui eu, para espanto do porteiro do condomínio, que não entendia porque um insano insistia em descer e subir como se estivesse pagando uma promessa.
Foram quatro tiros, trote regular, passos curtos, olhar quase fixo no chão de pedra que ziguezagueava, mas sem andar, inclinação assustadora. No cronômetro, marquei os tempos de cada subida: 9:40min, 8:35min, 8:22min e 8:35min. Depois de cada ascensão, descia caminhado por cerca de 10 minutos e recuperando a respiração e preparando o próximo tiro. No total, quase 1h20min de treino ... significava quase um Corcovado no Rio de Janeiro, e fiquei com a consciência tranqüila para assinalar mais um legítimo OK na planilha.
Sábado, a chuva e o frio se intensificaram, a névoa impedia que enxergássemos o continente, crianças gritavam na sala. De repente, o Dudu determinou: “Vamos nadar!”. Eu, ele, meu irmão Pedro e o amigo Sergio entramos no jipe, descemos o condomínio e rumamos em direção ao norte da ilha. Depois de uns 3 quilômetros em estrada de terra, paramos o carro e com muito frio tiramos a camisa e descemos apenas de sunga e oclinhos uns 300 metros de trilha até a praia. Agora já era tarde para desistir. Pulamos na água, vencemos as primeiras ondulações, passamos pelas pedras e, nadando em paralelo com a costa, rumamos para o norte.
Planejamos seguir meia hora para depois retornar. Aos poucos, fomos nos afastando, cada um por si, em meio àquela imensidão marítima. Braçadas longas e cadenciadas. O pensamento boiando ora aqui, ora acolá, mas sempre atento e respeitoso, afinal o mar não é uma piscina. Tem corrente, ondas, pedras, bichos e medos, nossos medos. A chuva caia, a água balançava muito, o verde úmido da vegetação na costa saltava aos olhos. A “meia hora” às vezes passava rápido, em outras, devagar. Depois de 30 minutos, viramos e nadamos de volta, silenciosos, o corpo não sentia frio, apenas desfrutava uma incrível sensação de liberdade, mobilidade e prazer na companhia de golfinhos.
Depois de 1h06min, algo como 3 km percorridos, cheguei à praia, e minutos depois os outros foram aparecendo. Um belo treino, um cansaço saudável pela proximidade com a natureza , com o elemento aquático, e sem a necessidade de contar ladrilhos. E mais uma vez a planilha havia sido cumprida de maneira diferenciada, ousada, os músculos havia trabalhado fora de seu habitat natural.
Domingo foi dia de descanso, em termos, já que acumulei mais duas horas de fila de espera na balsa e mais seis horas dirigindo até Ribeirão Preto, mas feliz com o final de semana prolongado e regado com chuva, família, prazer, boa comida, conforto, natureza e treinos que deixaram a planilha devidamente orgulhosa.