Que meu país é esse?

Que meu país é esse?

Quinta-feira, dia 06, me dirijo ao RibeirãoShopping para assistir à pré-estréia do filme “Meu país”, do diretor André Ristun. Sessão concorrida e prestigiada em uma das salas da UCI Cinemas. O próprio diretor estava lá acompanhado por parte de sua equipe e pelo estrelar Rodrigo Santoro, o protagonista do drama. Sala lotada, gente sentada no chão. Ristun e Santoro discursaram e contaram os esforços realizados junto ao distribuidor do filme para convencê-lo a fazer uma pré-estréia em Ribeirão Preto, cidade onde ambos possuem familiares, amigos e passagens durante a vida. Foi bacana!

“Meu país” ganhou os principais prêmios no Festival de Brasília e é um bom filme, que recomendo ser assistido. Dois dias depois de tê-lo visto, concluo que gostei mais daquilo que ficou em mim como reflexão do que das sensações vivenciadas enquanto estava lá, sentado na poltrona, olhando para a telona. Cinema não é uma arte linear, algumas vezes temos um prazer suave, contaminante, de apenas ficar lá, assistindo, quase participando do roteiro, mas tão logo saímos da sala já nem nos lembramos da trama. Em outras oportunidades, experimentamos um desconforto que quase nos leva a deixar o escurinho, mas depois ficamos semanas com os personagens e suas angústias na cabeça.

O filme, na minha opinião, ainda não consegue atingir a densidade e força do cinema argentino. Mas lá a realidade é outra, um povo muito mais afeito à leitura, ao consumo de produtos culturais de conteúdos e temáticas mais elevadas para a alma humana. São décadas de bagagem e experiência mais refinadas que podem ser constatadas em películas como o ótimo “Um conto chinês” ou “A janela”. Mas Ristun não deixou a desejar e acertou na mosca ao escancarar de forma crível e realista dramas que todos nós temos em família: um irmão que parte para o exterior e um dia precisa voltar e reconstruir relações, um ente querido viciado no jogo e devendo dinheiro, a descoberta de uma meia-irmã com necessidades especiais, fruto de um relacionamento extraconjugal do pai que acaba de morrer.

Quem nunca viu esse filme em sua própria casa ou na de um parente ou amigo? E essas questões nunca têm uma solução, por isso as levamos do jeito que dá, assim como nossas próprias existências, assim como o final aberto de “Meu país”. Por isso o drama apresentado por Ristun é atual e permeia a imaginação por algum tempo depois de visto – lidamos consciente ou inconscientemente, todos os dias, com as decisões, atitudes, exemplos e aflições trazidas pelos personagens da obra.

Tecnicamente, “Meu país” prova ser uma película de qualidade, com uma fotografia bem feita, uma direção inteligente e boas atuações de Rodrigo Santoro, Cauã Reymond e Débora Falabela. Quem também integra o elenco é um antigo camarada, o Luti, irmão do ex-ponta da seleção brasileira de vôlei dos anos 80, o Xandó. Naqueles idos, o Luti  morava no CRUSP, o conjunto residencial da USP, e eu estudava na ECA, e nos víamos em algumas andanças pela  universidade.

Conhecer as pessoas que trabalharam no filme também influencia a maneira como o enxergamos e a maneira como o avaliamos. No meu caso, já vou disposto a gostar, a torcer pelo sucesso, buscando até sentir uma espécie de orgulho por ao menos significar alguma coisa para algum dos responsáveis pela obra. Algo como uma tietagem solidária, uma torcida comprometida para que tudo dê certo, embora “Meu país” não precise do engajamento febril ou de uma crítica míope desse escriba para ser considerado um bom filme e trilhar um caminho de sucesso nas bilheterias.

E sempre que vejo ou tenho notícia do André Ristun sou tomado por sentimentos semelhantes ao que o personagem de Rodrigo Santoro vivencia em seu filme. O passado, sempre ele, volta a nos guiar pensamentos e sensações quando nos deparamos com uma fotografia antiga, uma porta de armário aberta, uma imagem da infância ou da adolescência. Pois bem, Ristun e meu irmão caçula, o Paulinho, foram amigos em 1989, aos 17 anos, quando se preparavam para entrar na faculdade. Comungavam a mesma paixão: o cinema e sua magia.

A amizade durou pouco, mas não por desavenças. Um trágico acidente no final daquele ano, uma semana antes do vestibular que certamente colocaria meu irmão no curso de cinema da ECA-USP, ceifou precocemente a vida do Paulinho. Tenho a convicção de que a sétima arte no Brasil perdeu naquele fatídico dia um talento que não teve tempo para desabrochar. Por isso, quando vejo o Ristun “mandando bem” na telona, mostrando sensibilidade e tarimba na linguagem cinematográfica, enxergo um pouco do que poderia ter feito meu saudoso irmão se a ele tivesse sido dada a graça de apenas ter continuado existindo.

Espero que o André não se incomode com essa visão tão particular que tenho de sua carreira desde que filmou cenas do curta “Homem voa?” na fazenda de minha família, e ouso sempre vislumbrar em suas realizações um pouco do dedo do Paulinho. Digamos, uma transgressão autoral, poética e afetuosa, que me alivia a saudade, me permite achar mais sentido nas coisas sem sentido da vida, e me faz gostar cada vez mais de cinema.


 

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