Reencontro
Não nos víamos há uns 10 anos. Nas últimas 20 primaveras, houve apenas duas ou três trombadas fortuitas. Mas descubro que ele tinha voltado de Londres e mora a menos de 100 quilômetros de casa. Acho o telefone na Internet, ligo, ele atende, reconhece a voz na hora. Lembramos fatos engraçados, comentamos sobre as rotinas da vida. Agendamos um reencontro para dali a duas semanas, uma subida noturna ao morro do Camelo. Entre 7 bilhões, somos pessoas únicas, já chegamos aos 45, dobramos o Cabo da Boa Esperança, merecemos rituais distintos, à altura de nossas expectativas.
Quinta-feira, nove da noite, depois de uma breve viagem, chego em sua casa para apanhá-lo. Não sem antes confabular por alguns momentos, em inglês e português, com seus pais: falamos de montanhas, de jornalismo, da Amazônia. Ele prepara o estofo, um delicioso suco de açaí e uma legítima tapioca trazida recentemente do Norte. Sua irmã chega quando já estamos de saída, na rua. Eu a tinha visto em 1986, em viagem ao litoral, de muletas, pinos na perna. Havia tomado um fenomenal tombo no destemido e gigantesco Illimani, sentinela de La Paz, na Bolívia, perto dos 6 mil metros de altitude. Sobrevivera em função dos desígnios do acaso, agora está ali, firme e forte.
Eu e meu amigo partimos lá pelas 10 horas, atravessamos a cidade, entramos na rodovia. Logo depois viramos na estrada de terra por onde seguimos alguns quilômetros. Como teria dito Proust em “Em busca do tempo perdido”, a melhor viagem é aquela que fazemos na memória. Recordamos dos tempos na faculdade, das repúblicas, dos amigos, das festas, da atração entre os sexos opostos, dos vídeos. Ele, músico, cantava nos anos 80 o refrão “Estive mal, estive em coma, estou legal”. Eu ouvia e me divertia, e também apreciava as histórias que ele inventava do Bandido dos Três Tiros, num fictício programa de rádio chamado “Atualidades Policiais”, no qual, ao final, o facínora sempre liquidava suas vítimas com três disparos fatais quando as mesmas, inadvertidamente, pronunciavam o numeral proibido.
Londres
Ele vai para Londres em 1990 para um longo e não planejado exílio voluntário. Na mesma época, o Iraque de Saddam Hussein invade o Kwait e Margareth Thatcher deixa o poder. No início do ano seguinte, três dias depois do início da Operação “Tempestade no Deserto”, a primeira guerra do Iraque, desembarco em Londres
para meu exílio voluntário e planejado de 12 meses. Lá, nos encontramos em várias e memoráveis ocasiões. Numa delas, na companhia de um filho de um famoso político brasileiro, “quebramos tudo” na noite entre pubs enfumaçados, estações de metrô envelhecidas, ruas vazias, festas animadas e muita risada.
Ele trabalha na construção civil, acrescentando diferentes ferramentas a seu cinto à medida que galga posições na hierarquia, de instalador de telhados a colocador de painéis. Como profissional de comunicação, se diverte com o linguajar próprio daquela tribo, um inglês rude, gírias próprias e um sotaque quase incompreensível. Um novo mundo no velho continente, homens toscos e sarcásticos, pequenas piadas, grandes ensinamentos.
Chegamos à base do Camelo em meio à escuridão. Lá em cima, um céu majestoso, cravejado de estrelas. Estaciono o carro, acendemos as lanternas, imediatamente cercadas por insetos, cruzamos a cerca, localizamos a trilha e começamos a subida. É um trajeto curto e não tão íngreme. Nem sinal de frio, tempo quase abafado, o esforço nos faz até mesmo suar um pouco. Em poucos minutos vencemos o breu e atingimos o topo, procuramos por uma clareira que nos dê uma ampla visão 360 graus, mas a vegetação de arbustos e pequenas árvores encobre parte da paisagem ao redor. Desligamos as lanternas, o brilho das estrelas se sobressai, aquela imensidão é só nossa.
O céu é o limite
Ficamos em silêncio um longo período, em estado de observação profunda, os pensamentos passando pela cabeça como estrelas cadentes. De repente, as ideias ganham voz. Ele comenta sobre um livro que aborda a evolução dos sapatos na Idade Média. Pisando em terreno fértil, saltamos para as navegações dos polinésios e como este povo conseguia se guiar através da estrelas e sentidos apurados conquistando ilhas cada vez mais longínquas. E daí passamos para a discussão sobre o impacto das inovações tecnológicas na evolução do ser humano.
A pedra lascada, o domínio do fogo, a agricultura, as navegações. Tudo o que o homem inventava e que, como um vírus, se espalhava entre os povos, fazendo a humanidade avançar em diferentes pontos do planeta. Discutimos a cultura ocidental, como ela ficou para trás em comparação a outras, como a oriental, em campos como o conhecimento espiritual e transcendental. Apontamos para o infinito e ele me ajuda a identificar as estrelas e constelações, o Cruzeiro do Sul e Escorpião. Não localizamos as Pleiâdes e nem as Três Marias, provavelmente escondidas no horizonte, mas acreditamos ver Marte e outros corpos celestes cujos estranhos nomes não me recordo mais.
Ele deixou de beber há tempos embora fosse, no passado, um excelente companheiro de copo. Assim, nossos espíritos não estão ali lubrificados pelo agradável efeito do álcool no organismo, mas se encontram alegremente bêbados com a situação: dois amigos que não se veem há uma década filosofando besteiras no topo de um morro remoto numa madrugada tão agradável quanto ordinária. Recordamos filmes marcantes, ele fala que andou assistindo a Akira Kurosawa, cito que havia visto recentemente “O sétimo selo”, sobre um jogo de xadrez com a morte, e que a primeira vez que havia ouvido falar deste clássico de Bergman fora através de um comentário dele, 25 anos atrás, na faculdade.
Vida e morte
Pergunto-lhe quantos por cento de chance haveria de, após passarmos desta para melhor, termos algum tipo de consciência. Ele não responde. Ofereço então o melhor de Millor sobre o assunto: “Sobre a imortalidade da alma, está para ressuscitar quem me fará acreditar nela”. Ele então diz quem vem meditando e que planeja ficar sete dias somente nesta função. E que encontrou no ciclismo uma atividade incomparável na busca de novos patamares de plenitude existencial. Já pedalou no Himalaia, nas praias da Normandia e agora quer percorrer o Brasil de Norte a Sul, do Oiapoque ao Chuí, e viajar de Londres a Istambul em sua bike.
A hora avança, o amanhã já é hoje, sexta-feira, dia de trabalho, obrigações diversas. Resolvemos descer, a trilha desaparece no escuro, nos embrenhamos no mato denso. Procura dali e daqui, encontramos o caminho naquele vazio. Comentamos sobre o grau de incertezas a respeito de qualquer iniciativa, o que nos espera no futuro, logo adiante. Um touro muge ameaçadoramente no meio do nada, nos assusta. O foco da lanterna mostra que o pouco amistoso bovino está bem no caminho para ultrapassarmos a cerca e chegarmos ao carro. Titubeamos. Seguimos ou desviamos? Resolvemos aumentar as incertezas e vamos direto ao touro. O animal se afasta lentamente, impondo respeito, causando medo.
Regressamos por uma estrada diferente. No caminho, ele ainda conta que, depois da fase na construção civil, virou músico, cover dos Smiths - aumento o volume da música no carro, toca Blue Monday, do New Order, obrigatório nas festas dos anos 80. O dinheiro dele foi acabando e resolveu apostar na informática e virar programador. Escrevera recentemente um livro sobre o ambiente nas nuvens. E voltara ao Brasil para trabalhar num projeto de medição de gases do efeito estufa na região das grandes hidrelétricas. Um ofício prazeroso enquanto planeja o segundo livro e as novas jornadas ciclísticas.
Conto que fiz um curso de apnéia e ele se interessa pela técnica. Chegamos de volta a sua casa e, na calçada, mostro-lhe como respirar aumentando a capacidade de inundar os pulmões com mais oxigênio e assim ficar mais de três minutos debaixo d´água. Ele fica de testar na piscina. Nos despedimos, planejando algum encontro que aconteça em menos de 10 anos, nesta vida, quem sabe em alguma montanha, mas certamente uma escalada de boas lembranças ou dilemas de almas suavemente atormentadas.