Reflexões subterrâneas
Com uma passagem de avião em aberto para Brasília e três dias de aparente folga na agenda na primeira quinzena de julho, decidi em plena quarta-feira me mandar para o Planalto Central. Antes, convidei um primo que mora em Goiás e possui uma camionete, o Chico, para me acompanhar na empreitada que exigiria um veículo resistente e uma companhia divertida, e combinamos de nos encontrar na capital do país.
Primeiramente, almocei com o Gustavo Valadão, amigo da época da faculdade e hoje editor da TV Câmara, que me apresentou algumas das dependências do Congresso. À tarde, a convite da amiga e competente jornalista Claudia Lacerda, hoje assessora do senador Aloysio Nunes Ferreira, visitei aquela casa legislativa e acompanhei de perto uma sessão observando de perto figuras como Martha Suplicy, Jose Sarney, Pedro Simon, Álvaro Dias e tantas outras figuras proeminentes da República! Cívico e, no mínimo, bastante curioso para um jornalista que se interessa por política.
Mas esse não era o prato principal da viagem. Troquei o terno e a gravata do Senado pela bermuda e o boné e, de camionete, seguimos para o Parque Estadual de Terra Ronca, quase 400 km ao norte de Brasília e sede de algumas das maiores cavernas do Brasil. Lá chegando depois de singrar majestosamente o Cerrado já nos enfurnamos como tatus na “Terra Ronca I”, conduzidos pelo mais famoso guia da região, o Ramiro.
Durante três dias, na companhia do Ramiro ou de um de seus filhos, conhecemos cinco das principais cavernas locais, consideradas entre as maiores, mais bem preservadas e mais bonitas do Brasil, algumas com mais de 15 quilômetros de túneis e salões de inacreditável beleza. São verdadeiros monumentos da estética divina, um espetáculo de estalactites e estalagnites que afloram através do tempo – milhares e milhões de anos. Os detalhes, as figuras e os ambientes nos impressionam e nos fazem viajar para dentro de nós mesmos, esquecendo tudo aquilo que convencionamos chamar de “problemas” do cotidiano.
Nos embrenhamos na Terra Ronca I e II, São Mateus, Angélica e São Bernardo. Estradas precárias de terra interligam cada uma delas, mas a valente camionete do Chico não encontrou maiores problemas para superar os buracos e ribanceiras. Preocupação mesmo somente com as pegadas de onça que víamos pelo caminho entre o local onde deixávamos o carro e a boca das cavernas, trechos que levam até 40 minutos a pé. Quando deixamos a São Bernardo já no escuro da noite, achei mais prudente andar com duas pedras na mão, como se aquelas amedrontadoras armas pudessem me salvar de um felino faminto.
Os personagens que cruzamos nesses poucos dias no Cerrado também foram marcantes. Um casal hippie – ele, colombiano; ela, uma fisioterapeuta argentina – já estava há quase um mês morando no camping do Ramiro, pagando as contas apenas com o artesanato. A viagem tivera início fazia alguns anos, sem pressa, conhecendo diferentes lugares da América do Sul, mostrando haver vida, sentido e possibilidades fora do nosso padrão urbano-capitalista-selvagem.
E o Ramiro, peça rara, um misto de explorador, índio e humorista. Seguindo a tradição da região, casou na boca da caverna Terra Ronca I e lá também “fez” seus filhos. Debaixo da terra, o homem se sente em seu habitat natural, percorrendo trilhas e indicando espeleotemas que só sua vista treinada enxerga à luz de lanternas e carbureteiras. Também realiza nas cavernas performances de luzes e imagens aos turistas hipnotizados, ou descontrai o clima com brincadeiras e trocadilhos alusivos às formações fálicas de diferentes dimensões que decoram os salões subterrâneos.
Emocionado, contou que foi recentemente convidado e levado para conhecer as famosas cavernas do Petar, no Vale do Ribeirão, em São Paulo. Lá, espeleólogos e afins o trataram como um verdadeiro herói e o homenagearam, e logo depois o puseram em cavernas para farejar saídas e passagens que só seu radar poderia encontrar.
Os quatro dias de férias estavam então chegando ao fim. Saímos literalmente da toca e pegamos a rota de volta rumo à civilização não sem antes passar por Formosa, 300 km ao sul, e conhecer o Santo de Itiquira, uma pequena cachoeira de 168 metros de águas nervosas e vaporosas. Horas depois, domingo à noite, já estava no aeroporto de Brasília e logo depois de volta a Ribeirão Preto. Afinal, de vez em quando, é bom cavar, em nosso lapso de tempo, um buraco que nos leve ao desconhecido, ao interior de nossos próprios planetas.