Relembrando o Aconcágua
Como a última parte do videoviagem ao Atacama deu um pequeno pau – chatices da Internet -, resolvi deixá-lo para a próxima semana e trazer no lugar o velho e bom Aconcágua, a maior montanha das Américas e do hemisfério ocidental. Essa colossal formação de 6.960 metros de altura nos Andes argentinos, quase na fronteira com o Chile, é hoje destino obrigatório para aventureiros de todo o mundo – milhares deles aparecem por lá todos os anos na temporada de dezembro a fevereiro.
Eu estive no Aconcágua duas vezes – no reveilon de 95 para 96 e no de 2001 para 2002. Na primeira tvez, cheguei a 300 metros do cume de voltei pra casa com dois dedos do pé congelados. Na segunda, atingi o topo depois de duas tentativas. No vídeoviagem que carrego logo abaixo nesse post, trago imagens dessas duas expedições, sendo que em 96 evei uma câmera filmadora e em 2002 apenas uma máquina fotográfica.
Quando assisto ao vídeo, fico ainda um pouco encabulado. Foi produzido, se não me falha a memória, em 2003, por uma empresa de treinamento de São Paulo interessada em palestras motivacionais nas quais eu discorreria sobre metas, sonhos, planejamento e ousadia, entre outros temas, tendo como pano de fundo minha conquista do topo das Américas. Sendo assim, possui efeitos gráficos, desenhos e meu testemunho em forma de palestra. Acho que ficou bom, mas, por uma série de fatores, nem eu nem a empresa de treinamento se empenhou no projeto e na divulgação, no entanto, guardo o material com carinho para um dia meus netos acreditarem que o avô subiu o Aconcágua ...
A experiência nessa montanha realmente teve intensidade. Conheci gente muito bacana nas duas vezes que lá estive, entre eles o Pauleto, recordista de ascensão mais rápida em 1996 com 5h29min de Plaza de Mulas ao cume; o Topan, que veio a se tornar um triatleta prodígio e bateu inclusive o recorde do Pauletto; o Cleiton Conservani, repórter de aventura da TV Globo; o Alexandre Portela, grande escalador de rocha; e o Rodrigo Ranieri, que acaba de lançar seu livro sobre as ascensões ao Everest, entre tantos outros.
E também me encontrei com gente que se deparou logo depois com destinos trágicos. Um deles foi o Othon Leonardos, que morreu vagarosamente na Parede Sul do Aconcágua em 1998 , dependurado e ferido numa corda após uma avalanche. Em 96, jogamos ping-pong no Refúgio de Plaza de Mulas e demos risada juntos. Dois anos depois ele se foi mas conseguiu se despedir do companheiro no acampamento-base, e fazer uma espécie de testamento, pelo rádio, enquanto agonizava.
Outro que também cruzei foi o Vitor Negrete, em 2002, após ele ter heroicamente subido a Parede Sul com o Rodrigo Ranieri. Naquele ano, ele congelou alguns dedos da mão na aventura e saiu do acampamento de Plaza de Mulas de helicóptero. Anos depois morreu no Everest, descendo do topo após atingir o cume sem o uso de oxigênio suplementar. A lição é que a montanha fascina, mas também sabe ser implacável e mata ao menor descuido.
Divagações à parte, quem sabe um dia ainda retorno ao Aconcágua para sentir sua opulenta energia. Quem se interessar mais sobre o tema ou sonha um dia em conhecer esse verdadeiro Sentinela de Pedra, ou ao menos planeja uma caminhada até sua base, disponibilizo também abaixo uma matéria que escrevi para um jornal de Ribeirão Preto em 2002 detalhando a epopéia logo que voltei da expedição. Boa leitura!
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A sensação da Cordilheira
Jornalista de Ribeirão Preto escala o Aconcágua, na Argentina, a montanha mais alta das Américas, com 6.960 metros de altitude. Veja nesta matéria exclusiva os detalhes desta conquista obtida às 14:30 horas do último sábado, dia 12 de janeiro de 2002
Eram 3 horas da manhã de uma terça-feira, um 8 de janeiro bastante estrelado, mas sem luar. A temperatura esbarrava na marca dos menos 5 graus centígrados. Saí da barraca todo equipado, vestindo cinco camadas de roupa, sendo a última um abrigo e um a calça de gore-tex, uma membrana sintética que prende o calor, permite a transpiração e protege contra o vento. Além disso, usava botas duplas, luvas de lã grossa, lanterna de testa, dois bastões de caminhada, um rádio comunicador e uma pequena mochila de ataque com os grampons (espécie de ferraduras pontiagudas a serem encaixadas nas botas), água e barras de carboidrato e gels energéticos.
Estava a uma altitude de 4.300 metros, no acampamento-base de Plaza de Mulas. Destino: o cume do Aconcágua, mais de 2.600 metros acima, a uma altura de 6.960 metros além do nível do mar, o mais alto ponto do hemisfério ocidental ou de toda a América. Contava com disposição, coragem, treinamento e a torcida de amigos e parentes. Comecei a caminhada montanha acima e em menos de três horas alcancei o acampamento avançado de Nido de Condores, a 5.300 metros de altitude. Lá, o primeiro grande problema. Ventos gelados e repentinos pré-congelaram os dedos das mãos antes que pudesse tirar da mochila as luvas de gore-tex.
Massagens ferozes, que esfregavam as mãos umas contra as outras, devolveram a circulação sanguínea a esta extremidade do corpo. Em pouco mais de 1h30min, ultrapassei o acampamento superior de Berlim, a 5.800 metros de altura, já em plena luz do dia. Neste momento, o vento piorou e a neve de uma recente nevasca se fez presente. A progressão foi lenta e custosa, ao sabor dos elementos da Cordilheira. Com cerca de 8 horas de jornada, ultrapassei o derradeiro refúgio, chamado Independência, e rumei para as últimas e mais agonizantes partes de percurso: a Travessia e a Canaleta.
A primeira, sobrepujei sob o açoite do vento inclemente. Em seguida, a temida rampa de 300 metros da Canaleta. Quase arrastando-me, atingi a marca de 6. 700 metros. Exausto, sem ar, com dores de cabeça e o raciocínio já afetado pela falta de oxigênio, ainda tive o discernimento de abortar a ataque. Talvez, com o resto de energia que ainda me restava, conseguisse atingir o cume do Aconcágua. Mas, provavelmente, não estaria hoje aqui para contar o restante da história. Comuniquei, via rádio, para a base, a minha desistência. Após 11 horas de esforços, terminava ali minha tentativa solo de conquistar a montanha desde Plaza de Mulas e, aumentava-se naquele momento uma grande frustração.
Preparação
Cinco anos antes, no mesmo Aconcágua e pela mesma via, eu fracassara de atingir o cume no mesmo ponto da Canaleta. Naquela oportunidade, problemas com os grampons e com as botas duplas fizeram-me recuar com dois dedos dos pés congelados. Isto custou-me dois meses de tratamento em Ribeirão Preto, onde os médicos especialistas só conheciam o chopp gelado.
O sonho de subir o ponto culminante das Américas, no entanto, reacendeu-se. Em 1998 e 2000, os projetos de retornar à Cordilheira não saíram do papel, seja por falta de patrocínio, seja por questões familiares. Em 2001, todavia, realizei uma preparação mais completa. O treinamento físico foi intensificado, incluindo a participação na Maratona de São Paulo e no Triatlo de Santos. Aos finais de semana, longas caminhadas e excursões em Delfinópolis, Poços de Caldas e Campos do Jordão. Durante a semana, corridas, natação e muita musculação na academia sob a orientação de um personal trainer.
Resolvi a questão financeira fazendo uma poupança específica para o projeto desde o início do ano – ao todo, a expedição custou-me algo em torno de R$ 8 mil, isto porque eu já possuía boa parte do equipamentos e ainda peguei emprestado alguns itens essenciais. O fato é que em dezembro passado encontrava-me preparado para o maior desafio físico e psicológico da minha vida: a ascensão do Aconcágua desde Plaza de Mulas. Viajei de São Paulo, de avião, em 26 de dezembro, para Mendoza, aos pés da Cordilheira, onde tive que pagar uma taxa de US 200 para ter acesso ao Parque do Aconcágua.
No dia seguinte, segui 170 km de ônibus até Puente del Inca, a 2.700 metros de altitude, início da jornada a pé rumo ao acampamento-base. Após dois dias de pré-aclimatação, caminhei até Confluência, a 3.200 metros acima do nível do mar. No dia 31 de dezembro, prossegui até os 4.300 metros de Plaza de Mulas, onde tive um singular reveillon. Lá fiquei hospedado no refúgio por mais de uma semana, realizando diversos testes de aclimatação, incluindo duas idas para Nido de Condores e a conquista do Pico do Bonete, a 5 mil metros.
Quando retornei do meu ataque frustrado do dia 8 de janeiro, decidi abandonar a montanha e voltar para casa. Desanimado e cansado, almejava a tranquilidade do lar. Mas uma boa noite de sono e um nutritivo café da manhã, além da insistência dos brasileiros presentes no acampamento-base, fizeram-me optar por arriscar mais uma vez. Ingressei-me na expedição composta pelos alpinistas Dário do Nascimento, Guilherme Rocha e Wally, do Rio de Janeiro, e pelo repórter da TV Globo Cleiton Conservani. Com um dia de descanso, subimos todos para Nido de Condores para tentar o cume daquele acampamento.
Terceiro Round
No sábado, 12 de janeiro, pressenti que as coisas poderiam ser diferentes em relação às duas tentativas anteriores. Partimos das barracas às 6:30 horas em meio a fortes ventos, que me acompanhariam durante todo o dia. Em pouco mais de uma hora, eu e Dário nos distanciamos dos demais e avançamos montanha acima, passando pelos refúgios de Berlim e Independência. Na Travessia, o maior obstáculo: os ventos intensificaram-se, chicoteando-nos a uma velocidade de até 100km/h, criando uma sensação térmica de – 30o centígrados e levantando uma poeira simétrica de neve para entupir nossos pulmões. Acuados, no sufoco e na raça, desafiamos a fúria da altitude e penetramos insolentes na Canaleta.
Desta vez, já escolado, guardei a dose certa de energia para persuadir aquela rampa. Passo a passo, movimento a movimento, deslizei contra a gravidade e a exaustão morro acima. De repente, o cume estava próximo. Mais um árduo deslocamento e lá estava, no topo das Américas, mas com a sensação de ter o mundo aos meu pés, ao lado do companheiro Dário. Desta vez, após 8 memoráveis horas, eu triunfara na montanha. Levitei orgulhoso, respirei o vento frio dos vitoriosos, alma e corpo fundiram-se num só suspiro de emoção plena, regada com lágrimas infantis de felicidade. Finalmente, o Aconcágua era meu, ou, quem sabe, apenas um pouquinho meu, às 14:30 horas daquele inesquecível sábado de céu azul.
Fotos, abraços, poses, assinaturas, contemplação, frio, tosse, congelamento dos dedos e rajadas fustigadoras. Hora de descer. Mais esforço e muita atenção. Subitamente, uma queda afoita que lesionou parcialmente o joelho. Sem muita opção, continuei teimoso em busca de abrigo. Em Nido de Condores, reuni meus pertences, vesti a mochila cargueira e marchei montanha a abaixo. Por volta das 22:30 horas, ou após 17 horas de contínuo movimento, cheguei ao Refúgio de Plaza de Mulas abatido, machucado e cinco quilos mais magro do que no Natal, mas em total paz de espírito e em estado de graça.
No dia seguinte, domingo, usei a gravidade, a boa vontade divina e as pernas doloridas para transpor os 40 km que me separavam da civilização em Puente del Inca. De lá, uma providencial carona para Mendoza, onde embarquei num vôo da Varig na segunda-feira, dia 14, para a capital paulista. Desde terça, recupero-me em Ribeirão Preto, onde já voltei a trabalhar, e aproveito para colher um pouco dos louros da minha modesta aventura particular. Afinal, realizar um sonho sempre deixa um gostinho adocicado na boca e na memória.
O Aconcágua
A palavra Aconcágua significa “Sentinela de Pedra” na linguagem indígena. Com 6.960 metros de altitude, localizado na Cordilheira dos Andes em território Argentino, quase na fronteira com o Chile, a montanha foi escalada pela primeira vez em 1897 pelo guia suíço Matias Zurbriggen. Há três rotas principais para se atingir o ponto mais alto das Américas e do hemisfério ocidental:
Rota Normal: a mais fácil do ponto de vista técnico já que não exige o uso de cordas, atrai anualmente milhares de turistas de todo o mundo (utilizada por Gustavo Junqueira);
Rota dos Polacos: realizada pela primeira vez em 1934, pela vertente leste, tendo como base Plaza Argentina, exige alguns conhecimentos de alpinismo;
Parede ou Face Sul: um grande desafio de alpinismo, com 3 km de altura, conquistada pela primeira vez em 1954 e vencida no início deste mês pelos brasileiros Rodrigo e Vitor.
A conquista brasileira
Quando cheguei ao Aconcágua, fiquei surpreso com a visibilidade e a importância que a montanha adquirira no Brasil naqueles dias. Dois alpinistas verde e amarelos -
Rodrigo e Vitor, de Campinas -, tentavam pela segunda vez escalar a temível Parede Sul. O feito invadiu diariamente a telinha dos lares de mais de 100 milhões de brasileiros através do Jornal Nacional da TV Globo. O repórter Cleiton Conservani, da emissora, sediado no acampamento-base da face sul, em Plaza Francia, enviava boletins diários sobre a evolução da escalada.
Estive em Plaza Francia no dia 30 de dezembro conhecendo a equipe de apoio e observando os alpinistas através de binóculos. No dia 2 de janeiro, já em Plaza de Mulas, acampamento-base da Rota Normal, acompanhei a chegada dramática de Rodrigo e Vitor, o primeiro com congelamento dos dedos dos pés e o segundo dos dedos das mãos. Alcançaram o cume pela Parede Sul, a mais perigosa, mas tiveram sérias dificuldades para descer à noite pelo caminho normal em função do mal tempo.
Já no Refúgio Plaza de Mulas, descreveram a epopéia que entra na história do alpinismo brasileiro. Um dos pontos culminantes da narrativa foi o encontro dos corpos congelados de Othon Leonardos e Alexandre Oliveira, dois escaladores mortos numa avalanche em 1998. Este caso ganhou repercussão nacional pela sua dramaticidade, já que os corpos encontram-se em perfeito estado de conservação e em posição de contemplação da montanha.
Vitor confessou-me que não teve coragem de vê-los. Rodrigo, que os achou primeiro, disse ser possível resgatá-los. Trata-se de uma discussão delicada e dolorosa. A família das vítimas precisa tomar a decisão. No meu entender, Othon (a quem eu conheci e me relacionei na minha primeira tentativa ao Aconcágua) e Alexandre sabiam dos riscos que corriam. Talvez a montanha deva ser a morada eterna destes destemidos aventureiros.
Qual a razão de subir?
Desde os tempos mais remotos, o homem desejou subir os degraus da evolução. As montanhas ganhavam na antiguidade o status de deuses. Escalá-las, enfim, representava a aproximação com o divino, o incompreensível. Ao mesmo temo, o ser humano sempre utilizou o instinto para consolidar a sabedoria do racional.
Para que arriscar o próprio pescoço, sofrer, passar frio e esgotar-se fisicamente para atingir o topo de um monte de pedras, gelo e neve? Por que trocar as férias de verão na praia por risco e complicação na altitude? Boas perguntas. A maioria desconhece a resposta. No entanto, quem chega lá sente uma sensação que os parques de diversão ainda não conseguem proporcionar.
Plenitude, gosto da vitória, alegria, emoção pra valer e muito mais. Ou, como simplesmente respondeu George Mallory, o lendário alpinista inglês desaparecido no Everest em 1924, quando indagado por um repórter por qual razão queria tentar, pela terceira vez, escalar aquela montanha. “Ora, porque ela está lá!”, sentenciou ele sem muito pensar.