Reminiscências da São Silvestre
Fim de ano, malas prontas para viajar ao Chile e subir montanhas. Como precisaria estar em Cumbica às 5:30h do dia 01 de janeiro de 2012 para pegar o vôo até Santiago, não me restou opção senão passar o reveillon em São Paulo e arriscar a passagem de ano na Avenida Paulista. Na véspera, ao chegar na capital, meu primo que viajaria comigo ligou e disse que tinha uma inscrição para a São Silvestre sobrando – o cunhado, corredor do interior de Minas, havia desistido de viajar em função das chuvas. Era o que me faltava para dar mais glamour às comemorações de ano novo.
No dia 31 à tarde, com chip nos pés e número de prova na cintura, subi a Alameda Campinas em companhia do Haroldo, o primo que oferecera a inscrição, do casal Marco e da Ana, também primos, estes sim regularmente inscritos na corrida, e do meu sogro, seo José, que estava ali apenas como acompanhante e curioso. Lembrei-me então de minha primeira participação na prova, em 1988, quando eu somava apenas 22 primaveras. Eu acabara de me casar com a Sonia e não queria deixar meu sogro, corredor de longa data, então com 49 anos, me vencer naquela saudável disputa familiar.
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A edição naquele ano tinha seus aspectos históricos: seria a última a ser realizada no período da noite, uma tradição da São Silvestre que estava prestes a ser quebrada. Uma outra novidade marcou a prova: foi o ano em que foi invertido o sentido do percurso, ou seja, ao invés de subirmos a Consolação ao final do trajeto, optou-se por fazer dessa via a descida logo após a largada na Paulista, deixando para a Brigadeiro Luis Antonio a fama de rampa tinhosa de final de trajeto.
Cheio de juventude e energia, posicionei-me ao lado do seo José na largada em meio à turba de cerca de 10 mil corredores. Dada a largada, após os cautelosos minutos iniciais nos quais se é impossível correr pela falta de espaço, imprimi um ritmo mais forte deixando meu sogro para trás. Na descida da Consolação, avistei assistindo à prova o Gil Topete, colega da ECA-USP hoje radicado há mais de 20 anos em Barcelona. Depois disso, tenho poucas recordações, a não ser a emoção e o prazer de correr pelas ruas centrais de São Paulo à noite e quase na virada do ano.
Como de costume, fui me cansando e diminuindo o ritmo, principalmente na subida da Brigadeiro, mas permaneci atento, olhando constantemente para os lados com o objetivo de não ser surpreendido pelo meu sogro na parte final da prova. Entrei na Paulista motivado e corri os metros finais observando as dezenas de pessoas que chegavam juntas passando pelos diversos funis, dispostos para dispersar a multidão de corredores e nos quais se realizava a entrega da medalha de participação. Eu completara a prova, então com 12,6 km, vencida pela terceira vez pelo equatoriano com nome de personagem da Escola do Professor Raimundo – Rolando Vera, em menos de 1 hora.
Faltava saber do seo José. Nos encontramos num apartamento próximo, de minha madrinha Gogoia, eu com a certeza da vitória, com todo o respeito que tinha por ele e pela filha. Mas não é que, dias depois, a Gazeta Esportiva publicou o resultado oficial da prova, colocando-o na posição final de 1940 e eu, segundos atrás, na de 2020. A informação foi imediatamente colocada em dúvida por mim. Naquela época não havia chips, o controle era no olho de fiscais que assinalavam em folhas de papel e na ordem o número dos corredores que chegavam.
Qualquer um que verificasse a o sistema de anotação da chegada da prova, com dezenas de atletas atravessando ao mesmo tempo os diferentes funis, perceberia que o resultado final da prova era, no mínimo, suscetível a toda sorte de erros e aproximações. Na realidade, eu confiava mais no meu próprio sistema, ou seja, permaneci atento e não havia visto seo José passar por mim. Todas essas explicações de pouco valeram a meu sogro, que não disfarçava um sorriso maroto toda vez que esse assunto vinha à baila. Enfim, oficialmente, de acordo com a Gazeta Esportiva, a vitória era dele. Minhas dúvidas, reconheço, não podem tirar seus méritos.
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Nos anos 90, corri a São Silvestre mais duas vezes, agora já promovida no período da tarde. Na primeira delas, acho que em 97, eu havia disputado a Maratona de Nova York em outubro e cravado o melhor tempo feito por esse escriba num total de oito já disputadas: 3h07min. Mas voltando da Big Apple, como faço depois de todas as maratonas, resolvi dar um descanso, que se estendeu por quase dois meses. Assim, fui para São Paulo apenas no embalo. Se não me falha a memória, encontrei-me com o Nuti na prova, que havia treinado vôlei comigo lá nos idos de 84 na Recra sob o comando do técnico e saxofonista Roger Viana.
Pouco me recordo do desempenho dessa vez, muito menos o tempo que fiz. Não sei quanto tempo depois participei novamente da São Silvestre, dessa vez de pipoca e de novo na companhia do meu sogro. Nessa oportunidade, eu já era um corredor mais experiente e ele, alguns anos mais velho, já não era um adversário direto. O fato é que saímos de Ribeirão Pires, a 60 km de São Paulo, onde ele mora, numa van que se encarregou de levar corredores do ABC até a Avenida Paulista. Um deles, muito espirituoso, ficou a viagem inteira tripudiando de um outro, e não sei como não chegaram às vias de fato dentro da condução.
Também não tenho muitas recordações dessa edição da prova, apenas do seu final. Eu subia a Brigadeiro Luis Antonio num bom ritmo e já avistava a aproximação da Paulista. Como não estava inscrito, sabia que provavelmente não conseguiria cruzar a linha de chegada, só não esperava, digamos, uma agressividade da organização para afastar os penetras. Dito e feito. Ao chegar a Paulista, seguranças da prova a postos e atentos para corredores sem número me identificaram. Imediatamente, um deles correu em minha direção com os braços aberto “convidando” a me retirar a prova e me afastando para o lado contrário da avenida. Um final meio sem graça, no entanto, mais uma São Silvestre no currículo.
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Voltemos para 31 de dezembro de 2011. Encontro o casal Fabi e John Boy, da turma do biribol, na largada em meio a outros 25 mil corredores. A prova cresceu e, mais uma vez, eu participaria de uma nova mudança na história da São Silvestre. Pela primeira vez em décadas, a chegada não aconteceria na Paulista, já com sua capacidade saturada, de acordo com os organizadores, principalmente competindo com os preparativos da festa de Reveillon, que poderia atrair 2 milhões de pessoas. Ou seja, dessa vez não haveria descida da Consolação, e sim pelo estádio do Pacaembu. E a chegada se daria no Parque do Ibirapuera.
Minutos antes da largada, a prometida chuva começa a cair. O prova tem início lá na frente, mas 10 minutos se passam até que os corredores que estavam ao meu lado pudessem começar a se mover lentamente. Até o primeiro quilômetro eu e o Haroldo ainda conseguimos trotar próximos um dos outro. Como uma cobra rastejante e uniforme, a multidão se move quase sem espaços disponíveis, 50 mil pernas em passadas anacrônicas, cada um com seus motivos ingênuos, indumentária colorida e desejos cândidos, 25 mil corações batendo mais forte pelas ruas da metrópole.
Ao passarmos pelo Pacaembu, dezenas gritam o nome do Corinthians, meia dúzia berra o do São Paulo e do Palmeiras. Uma voz solitária e contundente, por sua vez, diz em alto e bom som: “Tolima”!!!! Engasgo ao dar risada e respirar ao mesmo tempo enquanto a chuva cai pra valer, nos transformando em 25 mil pintos molhados e alvoroçados atrás da galinha São Paulo, generosa, provedora e protetora de sua ninhada assanhada e encharcada.
Tento manter a média de 1 km a cada 5 minutos. Está difícil, pois não há rota reta pela frente. Centenas, milhares de corredores mais lentos insistem em permanecer como obstáculos. As ultrapassagens são sempre em ziguezague, aumentando o percurso, gerando esbarrões e risco de queda, ainda mais com o asfalto molhado. Mas não posso cair e me machucar, viajo no dia seguinte para escalar uma montanha de quase 7 mil metros de altitude, seria uma inconseqüência me contundir ali, correndo de gaiato, mesmo não conseguindo manter a média de 12 km/h.
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Atravessamos o centro e seus pontos históricos. A Rio Branco, a Ipiranga e a esquina com a São João - alguma coisa acontece no meu coração – o Municipal, o viaduto do chá, o Largo do São Francisco – por que cargas d´água fui abandonar o curso de Direito iniciado ali em 1986? – e por fim a Brigadeiro. São Paulo da garoa agora é de chuva da boa. Uma longa subida, o último treino para subir montanhas, hora de acelerar, de ultrapassar, são quase 10 corredores por segundo deixados pra trás, mas ainda há milhares pela frente.
Cruzamos a Paulista, uma melancolia invade a alma por não ser mais ali o fim da linha. E começamos a descer a Brigadeiro do outro lado, em direção ao Ibirapuera. E 600 metros abaixo, na calçada, fico emocionado ao encontrar, na calçada, a Sonia e meu filho caçula, o Luis Paulo, debaixo de guarda-chuva, ensopados, numa torcida quase solitária, gritando meu nome. Com esse precioso alento, percorri os últimos dois quilômetros de prova em estado de graça, aproveitando cada passada, cada gota de chuva que escorria na testa enquanto me aproximava do Obelisco, já sem risco.
Em 1h17min cruzei a linha de chegada, ciente que havia corrido os 15 km do percurso e mais uns 2 km ziguezagueando. Os canteiros de terra do Ibirapuera se transformaram num grande lamaçal para receber os corredores, mas tratei logo de pegar minha medalhinha e trotar mais 2 km de volta ao apartamento de minha família enquanto a chuva insistia em continuar a lavar a alma e o corpo dos milhares de corredores. A última grande barreira antes de atingir o conforto e a secura confortável do lar foi cruzar a Brigadeiro enquanto a massa ainda despencava compacta da Paulista, não deixando espaço para a travessia da avenida.
À noite, depois de tomar uma champanhe, na companhia da Sonia e do Luis Paulo, voltamos a pé e de guarda-chuvas a Paulista para ver os fogos. Mais um ano que se foi em grande estilo, mais um ano chegava em nossas vidas, debaixo de água mas carregado de esperança e boas energias.
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Minha relação com a São Silvestre não se restringe a essas quatro participações, mas também às inúmeras vezes em que permaneci em frente à televisão para assistir à prova e torcer por brasileiros. Estava lá quando José João da Silva e João da Mata, este último já conhecido de Belo Horizonte, onde comecei a carreira de corredor amador, venceram heroicamente a prova nos anos 80. E quando em 1997 o paranaense Emerson Iser Bem surpreendentemente ultrapassou, na Brigadeiro, o então imbatível multicampeão Paul Tergat. A Zeferina eu não vi ao vivo, mas sempre que a encontro em provas aqui na região de Ribeirão Preto sinto aquela admiração nata por uma campeã de São Silvestre, que já foi vencida até pelo lendário Zatopeck nos anos 50.
Encerro aqui as reminiscências com a certeza que esta prova ainda garantirá muitas emoções no futuro, seja na telinha, como pipoca ou inscrito, mas sempre no dia 31 de dezembro. Pelo que me lembro, nessa data naturalmente acreditamos que a vida, apesar de corrida, pode e deve ser sempre querida.