On the road
Assisti a “On the road”, de Walter Salles, baseado no clássico de Jack Kerouac. Não li o livro e fui ao cinema com uma grande expectativa em função da história que realmente me seduz: colocar o pé na estrada em busca de qualquer coisa e fazer desta experiência um sentido, ou falta dele, para a vida.
Certa vez escrevi uma matéria sobre viagens e o significado desta iniciativa para as pessoas. Fui lá atrás, nos primórdios, quando o homem nômade se deslocava tão somente para encontrar algo para preencher o vazio do estômago e sobreviver. Depois, há 8 mil anos, dominou a agricultura e gostou da idéia de se fixar em algum lugar, formando mais tarde as cidades.
De lá para cá, a maior parte da humanidade viveu e morreu sempre sem ultrapassar o raio de 50 km de casa, excetuando-se grandes aventureiros ou conquistadores e seus exércitos, como Alexandre, Átila, Marco Polo e os cruzados e navegadores. O trem dos séculos XVIII e XiX ajudou a mudar este cenário, proporcionando o crescimento da indústria do turismo, uma das mais prósperas hoje.
Em relação a essa, tenho minhas diferenças. Desconfio um pouco das emoções já prontas, do luxo dos cinco estrelas, dos pacotes com programação completa, dos ônibus e das vans, da enxurrada de máquinas fotográficas e seus milhares de cliques fúteis, do pateta, do Mickey e das filas, das compras impulsivas de souvenires.
Obviamente, não chego aos extremos de Kerouac, mas admiro esta empreitada de fazer da viagem uma vivência transgressora, que leva ao limite da existência, para nos sentirmos, ao final e ao cabo, mais vivos do que nunca, sem barreiras e superficialidades, quebrando tabus e explorando os sentidos.
O que questiono no autor de “On the Road” e também em outro clássico das estradas, o “Easy Rider” de Peter Fonda, é a relação estabelecida com o próprio corpo e com a saúde. Claro que o mergulho nas drogas e no álcool soa fascinante para experimentar novas sensações e deixar claro que não estamos nem aí com a lei, a ordem e os costumes, mas preservar o fígado e o pulmão me parece fundamental para usufruir das viagens por mais tempo, e não morrer aos 47 anos de cirrose como Kerouac.
Assim, sempre utilizei a boa forma física para, de alguma forma, transgredir em minhas viagens. Ao invés de me esbaldar na cocaína ou na morfina, produzia eu mesmo a endorfina. Se alguém dizia que determinada trilha a pé levava 4 horas, eu fazia em duas. Se a passagem de um rio era realizada de balsa, eu optava pela natação. Se algum lugar havia sido declarado proibido de visitação, não sossegava enquanto não ludibriasse essas regras que não faziam sentido para mim.
A sensação de fazer o que poucos conseguem, de subir onde apenas uns gatos pingados logram colocar os pés, de estar onde os outros não estão, de sentir que a Terra é tridimensional, tudo isso representa um estranho combustível para me jogar no mundo e experimentar algo diferente. Casar esforço e alvoroço, brincar com os limites, da paciência e da ciência, questionar unanimidades, abusar das ironias e piadas, flertar com todo tipo de prazer, beber com exagero até a fronteira entre o acerto e o erro, conhecer gente diferente, interessante, seguir adiante.
Certa vez me lancei na estrada abandonando coisas preciosas e pessoas que amava. Sentia que precisava passar um período distante, no exterior, trocar o canal, aproveitando, aprendendo e ralando. Acabei voltando para o ninho, para a segurança do lar, e me conforta saber que Kerouac também precisava de seu porto seguro, uma casa na Flórida para viver com a mulher e a mãe.
Conciliar todas estas emoções e desejos é algo complicado, mas quem disse que viemos à vida a passeio? Creio poder garantir que, sempre que possível, ou ao menos três ou quatro vezes por ano, entro no meu carro, só ou um pouco insano, com a família ou com amigos, e saio dirigindo para onde os turistas convencionais e as tristezas caricaturais não dão as caras. E a sensação que isso me proporciona é algo muito próximo do que se convencionou chamar de felicidade. Uma válvula de escape, em qualquer idade, que lubrifica a alma embrutecida, às vezes preguiçosa, outras por demais responsável.
Enquanto tiver saúde e pernas, repetirei o ritual. Partirei – tudo começa com uma partida, para o sul ou para norte, leste ou oeste, a estrada apontando para o infinito, cometendo minhas pequenas transgressões, sejam elas ao volante ou diletantes, sejam elas à saúde, aos bons costumes, ao bom senso, ao juízo ou em homenagem ao riso. Se já disseram que bebemos para tornar as outras pessoas menos desagradáveis, viajo com voracidade para tornar a existência menos insustentável. On the road seguirei sonhando e vivendo ...