Sul
Embarcamos para o Sul, véspera de feriado, em família, na busca do acalorado frio que aquece a alma dos viajantes nas latitudes mais meridionais. Na bagagem, roupas mais grossas e casacos quase empoeirados e há muito guardados, e muita vontade de desfrutar do novo e do desconhecido: uma capital à beira de um rio, sua história e monumentos; o alento de uma gastronomia farta e apetitosa; paisagens européias e dos contos de fada; e epopéias em canyons formados por forças míticas e cataclíticas.
Na capital, nos entregamos primeiramente ao pecado da carne em galpão crioulo. Recusamos prudentemente o rodízio completo optando pelo simples e reto, mais apropriado para estômagos quase vegetarianos. De sobremesa, uma apresentação de música e dança típicos da região, adocicada por uma perfomance ninja de artista, que à vista utiliza uma espécie de ioiô para desenvolver incríveis e arriscados movimentos giratórios, entretendo a platéia outrora alheia e agora de barriga cheia, e cobaias chamadas ao palco, atônitas e de salto.
No dia seguinte, uma visita ao antigo gasômetro, transformado em centro cultural, e ao quarteirão da catedral, com médios e atraentes prédios de valor histórico. O passeio no ônibus turístico, aberto em cima nos moldes dos congêneres londrinos, é interrompido pela chuva. Mas não sem antes passar por alguns pontos interessantes, como um parque farroupilha, um monumento que homenageia as famílias açorianas que fundaram a cidade, e a ponte que hoje leva do nada ao lugar nenhum, construída à época do governo de Duque de Caxias, quando a estrutura possuía serventia.
Seguimos então para a serra, adentrando nas nuvens, na chuva fina e no frio. Por incrível que pareça, aquilo é mesmo o Brasil, ampliando aquela sensação e orgulho de morarmos num país de dimensões continentais, um verdadeiro caldeirão cultural que abriga, lado a lado, brancos e negros, índios e amarelos, analfabetos e letrados, ricos e pobres, religiosos e ateus, choupanas e chalés, mocinhos e bandidos, gremistas e colorados. Tudo isso dá fome e nos entregamos imperialmente ao famoso café colonial, comendo de modo republicano metade dos 80 itens servidos à mesa, dos salgados aos doces, dos bolos às tortas, das geléias aos chás.
Na próxima manhã, hora de zelar também pelo alimento da alma. Vamos ao templo budista, no topo do morro, uma envolvente visão da paisagem e outra de nós mesmos. Ingressamos na trajetória de Sidarta, despimos um pouco da ânsia consumista, tentamos alcançar outros sentidos e sentimentos otimistas, mais virtuosos e elevados. Um roliço e simpático candidato a monge diz calmamente que está ali como voluntário, passando uma temporada. O seu sustento vem de um trabalho solitário pela internet, mas ao final o conforto espiritual é o que prevalece no ambiente de preces.
Também vamos ao lago negro e, claro, caminhamos a sua volta. Não resistimos à tentação de visitar a fábrica de chocolate, dar um xeque-mate com arte em nossa gula. E, com requinte, ainda temos apetite à noite para um fondue, uma sublime combinação de queijo, carne e vinho tinto. A cidade ainda nos oferece com bom humor outros quiquitos, como um palácio da sétima arte, um mini-mundo de pequenas emoções e, escondida do sol, uma vizinha cachoeira em caracol. O tempo, no entanto, é curto, e partimos para mais longe, para os campos abertos, incertos e gélidos em busca de mais oferendas, as grandes fendas formadas à época da separação dos continentes.
O frio nos envolve, mas estamos quentes, excitados e distantes numa cidade com 7 mil habitantes, longe de casa, próximos do acaso. O termômetro marca quatro graus, e abaixando. Uma sopa e uma boa música num restaurante com lareira, pra lá de moderno e aconchegante, à beira da rua principal, nos dão a certeza de estar perto do lugar certo. Voltamos a pé para a pousada, uma estalagem amigável com um chalé de madeira. Amanhã é o dia dos canyons!
Uma incrível sensação de pequenez diante da grandeza captada pelos olhos. Um buraco de quase 1.000 metros de profundidade, milhares de anos de idade e dois quilômetros de pura largura. Dá vontade de sair voando, de escutar o silêncio e reverenciar a Terra. Os continentes se separaram e fizeram aquilo que apreciamos lá de cima, um enorme vazio com um rio miúdo correndo lá embaixo. Viramos o rosto para respirar e, a 40 quilômetros, enxergamos o mar! Testemunhamos a tridimensionalidade em grande escala, a natureza define a beleza. Caminhamos de volta, já não somos como ontem, agora aquelas imensas rachaduras na crosta já fazem parte de nossas pequenas glórias.
Queremos mais, aceleramos para presenciar outros visuais. Do parque da serra geral para os aparados da serra, uma outra história se encerra, um novo canyon, novas explorações agora com os raios solares do final da tarde. Eles iluminam as grandes paredes e indicam que na vida os desafios são tão belos quanto colossais. O olhar se perde na vastidão, mas temos plena certeza que aquele vão, para nós, não é em vão.
Hora de voltar para casa, seguir em frente, um caminho diferente, uma passagem-relâmpago pelo litoral para sentir também o gosto do sal. E logo depois, em trajeto nem sempre reto e quase sempre torto, chegamos ao aeroporto. A família fortalece seus laços, há despedidas, beijos e abraços. Sentiremos saudades, aquilo tudo foi um doce pedaço de felicidade. Com um pouquinho de sorte, nem que seja uma vez na vida e outra na morte, todos nós precisamos vivenciar uma experiência ao Sul apenas para não esquecer que há um Norte.