Torturismo Tour 1

Um homem brutalmente seviciado por 10 horas contínuas antes de ser finalmente morto. Um outro alvejado com mais de 10 tiros no portão de sua casa e em frente à mulher e filhos. Uma alameda onde foi emboscado o maior líder terrorista de uma geração. Uma praça que foi palco do seqüestro de um cônsul. Uma esquina que presenciou o maior assalto a um carro pagador e outra na qual um líder empresarial tombou justiçado e cravejado de balas. O espectro dos dois maiores centros de tortura de uma época ...
Um assunto indigesto mas apaixonante. A guerra obscura travada nos porões da ditadura entre os anos de 68 a 74 na capital paulista. De um lado, exército e polícia fazendo o serviço sujo de repressão, de outro, uma dúzia de grupelhos e agremiações de extrema esquerda apostando no terrorismo e em ações de puro banditismo para agredir o regime militar e fazer a “revolução”. O presidente era o general Médici e o Brasil vivia a época do milagre econômico, mas com censura e falta de liberdade de expressão e de manifestação.
Desde os anos 80 esse tema me interessa e por vários motivos. Gosto de história e de psicologia. Entender até onde um homem se arrisca por seus ideais. Compreender até que ponto chega o índice da maldade. Quando e se os fins justificam os meios ou os meios justificam os fins. Qual o limite do bom senso e a partir de quando os conceitos de Justiça se tornam flexíveis. O que existe de sadismo e masoquismo dentro da alma humana. Os malefícios de uma ditadura e a importância de instituições fortes para proteger o homem do ... homem.
Com todas estas questões na cabeça, elaborei o Torturismo Tour. A partir do conhecimento acumulado em 25 anos de leitura de livros, pesquisas, debates e consultas na internet e filmes, esbocei um roteiro a pé na cidade de São Paulo passando por alguns dos principais locais que sediaram acontecimentos ou fatos significativos na trajetória da guerrilha urbana: atentados, seqüestros, assassinatos, tortura, tocaias, justiçamentos, invasões, disputas e toda sorte de atos violentos e de protesto.

O nome Torturismo Tour tem uma explicação óbvia. Essa “pacata” caminhada começa no prédio do antigo DOPS, sede do reinado do delegado Fleury, uma espécie de “Pelé da Tortura”, e termina na rua Tutóia, onde funcionava o DOI-CODI, uma verdadeira sucursal do inferno nos anos 70. Como não sou de esquerda e nem pretendo glorificar os guerrilheiros de então, já que a maioria objetivava, além de derrubar a ditadura, implantar uma outra com inspiração cubana, soviética ou albanesa, também inclui no roteiro endereços de alguns atos não tão republicanos dessa turma.

Convidei alguns amigos jornalistas para fazer o roteiro a pé comigo, um misto de caminhada aeróbica, dada a distância de aproximadamente 18 km do percurso, com uma imersão na luta armada. Ao passar em cada lugar, a proposta seria visualizar os atos ali ocorridos há cerca de 40 anos. Dependendo da sensibilidade, o propósito era tentar sentir o que seria um guerrilheiro ou um agente da repressão. Uma aula de histórica prática, uma experiência de transcendência aos anos de chumbo. Um domingo diferente para cruzar passo a passo o centro e outros cinco bairros paulistanos.
O Roger Ferreira , por vários fatores (inclusive o F), mas principalmente por preguiça, pulou fora. O Fabío Maranhão disse que iria se fosse de carro. O Melk até confirmou presença, mas como fica de segunda a sexta em Brasília dirigindo a sucursal da Folha e reserva os finais de semana para a família que mora em São Paulo, também desistiu na última hora. O Eblak, editor da Folha Ribeirão e interessado no assunto, afirmou que não teria condições físicas para tanto. Sobrou o meu resistente sogro na parada, o bom seo José, aquele que foi meu oponente na prova da São Silvestre em 1988.
No dia 27 de fevereiro de 2011 nos encontramos à frente do Museu do DOPS, no Largo Gal Osório, quase ao lado da Estação da Luz. Como já conhecia o museu, apenas detive por alguns instantes um olhar no andar onde funcionava a sala do delegado Sergio Paranhos Fleury. Imaginei como aquele senhor, morto em circunstâncias suspeitas em 01 de maio de 79, afogado, em Ilhabela, se portava no seu dia a dia de trabalho no início dos anos 70. Suas ordens e ações pessoais determinavam quem viveria ou morreria, quem seria torturado e quem não seria, e qual era a hora de parar com o tormento. Foi bem interpretado por Cassio Gabus Mendes no filme “Batismo de Fogo”, de Helvécio Ratton.

De lá, seguimos pela Duque de Caxias até o prédio 312, endereço do apartamento onde foi preso em 29 de setembro de 1969 o “companheiro” Jonas, conhecido por ter sido o comandante militar do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio de Janeiro, quatro semanas antes. No livro do Gabeira e no filme “O que é isso, companheiro”, baseado na obra, é retratado como um sujeito impiedoso, quase desumano, versão contestada por outros que o conheceram. O fato é que foi preso e barbaramente torturado por 10 horas seguidas, quando sucumbiu. Dizem que não entregou ninguém e que em sua agonia não parou de xingar e cuspir nos torturadores, repetindo que era apenas um brasileiro.

Em seguida , o torturismo tour nos levou para o endereço da antiga Livraria Duas Cidades, na rua Bento Freitas, onde o delegado Fleury montou uma armadilha para levar o líder da ALN e homem mais procurado do país, Carlos Marighella, à morte. Depois de ferozmente torturado, um frade dominicano que trabalhava naquele endereço não agüentou o sofrimento e foi forçado, sob a mira de um revólver, a confirmar pelo telefone a senha – o Ernesto vai hoje na gráfica - para que o Marighela fosse a um “ponto”, os chamados encontros secretos entre subversivos, naquela mesma noite.

A atração seguinte do roteiro pode ser considerada tragicômica. A nossa atual mandatária Dilma Roussef havia sido presa no início de 1970 como ativa militante da VAR (ou da VPR, vindo do Colina)- até hoje ela não informou se participou diretamente ou não de ações armadas. Depois de alguns dias passando pelo pau de arara e entregando algumas informações, inclusive o paradeiro de um companheiro da organização, ela teria inventado um “ponto” na Praça da República. Com isso, ganhava tempo nos maus tratos. Foi levada então para o local e deixada sentada num banco, sob forte vigilância, à espera do encontro com um suposto terrorista.
Esse nunca apareceu, pois o ponto seria uma invenção de Dilma. Mas, ao contrário do que nossa presidente poderia imaginar, um argentino galanteador passou pela Praça naquele instante e a viu ali, dando sopa, sozinha no banco. Isso mostra que a tortura não havia desfigurado nossa líder máxima, pois seu estado inspirava os instintos e hormônios do hermano. Tão logo ele se sentou para puxar papo, foi agarrado pelos agentes da repressão e levado ao suplício do pau de arara na delegacia. Apanhou bastante antes de convencer seus algozes da infelicidade e da falta de sorte daquela cantada.
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Procurei o banco na Praça, mas não me convenci que aquele que havia encontrado fosse o mesmo que recebera as nádegas presidenciais depois de 40 anos. Mas a história, se realmente ocorrera, valia incluir a República no trajeto. E de lá seguimos para a Maria Antonia, palco dos combates entre os alunos da Filosofia da USP e os estudantes do Mackenzie nos dias 2 e 3 de outubro de 1968. O confronto resultou numa morte, vidros estilhaçados, carros queimados e passeatas com milhares de participantes. Hoje fica difícil imaginar que daqueles dois belos prédios, um de cada lado da via, saíram grupos armados e raivosos que transformaram a Maria Antonia numa verdadeira batalha campal.
O roteiro prosseguiu então pelos bairros de Higienópolis, Sumaré, Perdizes e Jardins, mas isso fica para um próximo texto.