Torturismo Tour 1

Torturismo Tour 1

Prédio da Filô na R. Maria Antonia, palco de combate em 1968

Um homem brutalmente seviciado por 10 horas contínuas antes de ser finalmente morto. Um outro alvejado com mais de 10 tiros no portão de sua casa e em frente à mulher e filhos. Uma alameda onde foi emboscado o maior líder terrorista de uma geração. Uma praça que foi palco do seqüestro de um cônsul. Uma esquina que presenciou o maior assalto a um carro pagador e outra na qual um líder empresarial tombou justiçado e cravejado de balas. O espectro dos dois maiores centros de tortura de uma época ...

Um assunto indigesto mas apaixonante. A guerra obscura travada nos porões da ditadura entre os anos de 68 a 74 na capital paulista. De um lado, exército e polícia fazendo o serviço sujo de repressão, de outro, uma dúzia de grupelhos e agremiações de extrema esquerda apostando no terrorismo e em ações de puro banditismo para agredir o regime militar e fazer a “revolução”. O presidente era o general Médici e o Brasil vivia a época do milagre econômico, mas com censura e falta de liberdade de expressão e de manifestação.

Desde os anos 80 esse tema me interessa e por vários motivos. Gosto de história e de psicologia. Entender até onde um homem se arrisca por seus ideais. Compreender até que ponto chega o índice da maldade. Quando e se os fins justificam os meios ou os meios justificam os fins. Qual o limite do bom senso e a partir de quando os conceitos de Justiça se tornam flexíveis. O que existe de sadismo e masoquismo dentro da alma humana. Os malefícios de uma ditadura e a importância de instituições fortes para proteger o homem do ... homem.

Com todas estas questões na cabeça, elaborei o Torturismo Tour. A partir do conhecimento acumulado em 25 anos de leitura de livros, pesquisas, debates e consultas na internet e filmes, esbocei um roteiro a pé na cidade de São Paulo passando por alguns dos principais locais que sediaram acontecimentos ou fatos significativos na trajetória da guerrilha urbana: atentados, seqüestros, assassinatos, tortura, tocaias, justiçamentos, invasões, disputas e toda sorte de atos violentos e de protesto.

Marighella morto

O nome Torturismo Tour tem uma explicação óbvia. Essa “pacata” caminhada começa no prédio do antigo DOPS, sede do reinado do delegado Fleury, uma espécie de “Pelé da Tortura”, e termina na rua Tutóia, onde funcionava o DOI-CODI, uma verdadeira sucursal do inferno nos anos 70. Como não sou de esquerda e nem pretendo glorificar os guerrilheiros de então, já que a maioria objetivava, além de derrubar a ditadura, implantar uma outra com inspiração cubana, soviética ou albanesa, também inclui no roteiro endereços de alguns atos não tão republicanos dessa turma.

Fleury

Convidei alguns amigos jornalistas para fazer o roteiro a pé comigo, um misto de caminhada aeróbica, dada a distância de aproximadamente 18 km do percurso, com uma imersão na luta armada. Ao passar em cada lugar, a proposta seria visualizar os atos ali ocorridos há cerca de 40 anos. Dependendo da sensibilidade, o propósito era tentar sentir o que seria um guerrilheiro ou um agente da repressão. Uma aula de histórica prática, uma experiência de transcendência aos anos de chumbo. Um domingo diferente para cruzar passo a passo o centro e outros cinco bairros paulistanos.

O Roger Ferreira , por vários fatores (inclusive o F), mas principalmente por preguiça, pulou fora. O Fabío Maranhão disse que iria se fosse de carro. O Melk até confirmou presença, mas como fica de segunda a sexta em Brasília dirigindo a sucursal da Folha e reserva os finais de semana para a família que mora em São Paulo, também desistiu na última hora. O Eblak, editor da Folha Ribeirão e interessado no assunto, afirmou que não teria condições físicas para tanto. Sobrou o meu resistente sogro na parada, o bom seo José, aquele que foi meu oponente na prova da São Silvestre em 1988.

No dia 27 de fevereiro de 2011 nos encontramos à frente do Museu do DOPS, no Largo Gal Osório, quase ao lado da Estação da Luz. Como já conhecia o museu, apenas detive por alguns instantes um olhar no andar onde funcionava a sala do delegado Sergio Paranhos Fleury. Imaginei como aquele senhor, morto em circunstâncias suspeitas em 01 de maio de 79, afogado, em Ilhabela, se portava no seu dia a dia de trabalho no início dos anos 70. Suas ordens e ações pessoais determinavam quem viveria ou morreria, quem seria torturado e quem não seria, e qual era a hora de parar com o tormento. Foi bem interpretado por Cassio Gabus Mendes no filme “Batismo de Fogo”, de Helvécio Ratton.

DOPS

De lá, seguimos pela Duque de Caxias até o prédio 312, endereço do apartamento onde foi preso em 29 de setembro de 1969 o “companheiro” Jonas, conhecido por ter sido o comandante militar do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio de Janeiro, quatro semanas antes. No livro do Gabeira e no filme “O que é isso, companheiro”, baseado na obra, é retratado como um sujeito impiedoso, quase desumano, versão contestada por outros que o conheceram. O fato é que foi preso e barbaramente torturado por 10 horas seguidas, quando sucumbiu. Dizem que não entregou ninguém e que em sua agonia não parou de xingar e cuspir nos torturadores, repetindo que era apenas um brasileiro.

Prédio onde Jonas foi capturado

Em seguida , o torturismo tour nos levou para o endereço da antiga Livraria Duas Cidades, na rua Bento Freitas, onde o delegado Fleury montou uma armadilha para levar o líder da ALN e homem mais procurado do país, Carlos Marighella, à morte. Depois de ferozmente torturado, um frade dominicano que trabalhava naquele endereço não agüentou o sofrimento e foi forçado, sob a mira de um revólver, a confirmar pelo telefone a senha – o Ernesto vai hoje na gráfica - para que o Marighela fosse a um “ponto”, os chamados encontros secretos entre subversivos, naquela mesma noite.

Local onde funcionava a Livaria Duas Cidades

A atração seguinte do roteiro pode ser considerada tragicômica. A nossa atual mandatária Dilma Roussef havia sido presa no início de 1970 como ativa militante da VAR (ou da VPR, vindo do Colina)- até hoje ela não informou se participou diretamente ou não de ações armadas. Depois de alguns dias passando pelo pau de arara e entregando algumas informações, inclusive o paradeiro de um companheiro da organização, ela teria inventado um “ponto” na Praça da República. Com isso, ganhava tempo nos maus tratos. Foi levada então para o local e deixada sentada num banco, sob forte vigilância, à espera do encontro com um suposto terrorista.

Esse nunca apareceu, pois o ponto seria uma invenção de Dilma. Mas, ao contrário do que nossa presidente poderia imaginar, um argentino galanteador passou pela Praça naquele instante e a viu ali, dando sopa, sozinha no banco. Isso mostra que a tortura não havia desfigurado nossa líder máxima, pois seu estado inspirava os instintos e hormônios do hermano. Tão logo ele se sentou para puxar papo, foi agarrado pelos agentes da repressão e levado ao suplício do pau de arara na delegacia. Apanhou bastante antes de convencer seus algozes da infelicidade e da falta de sorte daquela cantada.

Banco na Praça da República

Procurei o banco na Praça, mas não me convenci que aquele que havia encontrado fosse o mesmo que recebera as nádegas presidenciais depois de 40 anos. Mas a história, se realmente ocorrera, valia incluir a República no trajeto. E de lá seguimos para a Maria Antonia, palco dos combates entre os alunos da Filosofia da USP e os estudantes do Mackenzie nos dias 2 e 3 de outubro de 1968. O confronto resultou numa morte, vidros estilhaçados, carros queimados e passeatas com milhares de participantes. Hoje fica difícil imaginar que daqueles dois belos prédios, um de cada lado da via, saíram grupos armados e raivosos que transformaram a Maria Antonia numa verdadeira batalha campal.

O roteiro prosseguiu então pelos bairros de Higienópolis, Sumaré, Perdizes e Jardins, mas isso fica para um próximo texto.


 

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