Torturismo Tour II

Torturismo Tour II

Convento dos Dominicanos

O roteiro histórico-macabro teve continuidade algumas quadras adiante, no elitizado e agradável bairro de Higienópolis. Fomos direto para a vistosa Praça Buenos Aires e a atravessamos. Do outro lado, eu e meu sogro nos deparamos com a esquina das ruas Alagoas e Bahia. Bem ali, no dia 11 de março de 1970, um comando com a presença do lendário Bacuri sequestrou o pobre e assustando cônsul japonês Nobuo Okuchi. A operação foi meio a toque de caixa, pois os “revolucionários” queriam trocar o diplomata por um terrorista importante recém-capturado pela polícia.

Esta e outras ações do Bacuri, como ligar e ameaçar de morte alguns generais, atraíram para o mesmo a ira da repressão. Em setembro daquele ano foi capturado no Rio de Janeiro passando mais de 100 dias nas mãos de torturadores de diferentes órgãos de segurança. Em outras palavras, bateu o recorde mundial de sofrimento, sendo vagarosamente destruído física e psicologicamente até se transformar num trapo. Foi morto numa farsa montada (falso tiroteio quando teria fugido) antes que pudessem trocá-lo por mais um embaixador seqüestrado. Ao contrário do cônsul japonês, devolvido com vida em menos de uma semana.

Seguimos então pela Avenida Higienópolis em direção a Perdizes, destra vez a procura do antigo convento dos dominicanos, aqueles que foram presos e torturados pelo delegado Fleury. Chegamos lá, na Rua Caiubi, depois de meia hora caminhando. Parei na frente do prédio, envelhecido mas ainda imponente, onde hoje funciona uma escola, e fiquei imaginando os homens do DOPS invadindo o local na noite de 03 de novembro de 1969 para capturar, entre outros, frei Tito – religioso envolvido na organização do Congresso da UNE em Ibiúna no ano anterior e no apoio às atividades da ALN, de Marighella. Tito, de tanto apanhar, ficaria louco e se mataria na França, exilado, quase cinco depois, como mostram o livro de Frei Beto e o filme de Helvecio Ratton.

Convento dos Dominicanos

Com a censura à imprensa naquela época, Fleury podia invadir um convento sem que notícia alguma saísse na imprensa, evitando assim que Marighella descobrisse que seu dispositivo de contato com os dominicanos tivesse sido descoberto. Pior para ele, que na noite seguinte caminhou até a emboscada que o vitimou na Alameda Casa Branca, ponto que passaríamos mais adiante no Torturismo Tour. Mas antes disso pegamos a Cardoso de Almeida, uma longa subida, depois descemos e atravessamos a Avenida Sumaré.

Algumas quadras adiante, procurando daqui e ali, localizamos a Rua Petrópolis e logo depois seu número 375. Naquela casa, em 12 de outubro de 1968, a esquerda brasileira levou a cabo o que chamavam de “justiçamento”, na realidade, um assassinato covarde e a sangue frio. Morava temporariamente naquela casa com a mulher e três filhos o capitão do Exército dos EUA, Charles Rodney Chandler. Ele, segundo consta, fazia um curso no Brasil, mas segundo guerrilheiros não passava de um agente disfarçado atuando no apoio à ditadura. Quando saía de casa, na frente da família, foi metralhado sem perdão por um comando de três terroristas, morrendo instantaneamente.

Assassnato Chandler

Depois de ficar alguns minutos observando a casa hoje reformada e tentando visualizar o portão em que o pobre Chandler se transformou numa peneira, partimos para a último bairro de nosso périplo. A essa altura, com mais de 3 horas de caminhada, meu sogro, sempre mais interessado nos pássaros do que em tortura, exclamou: “Puxa vida, será que esses terroristas não poderiam ter feito os atentados mais próximos uns dos outros?”.

Alcançamos a ponte da Dr. Arnaldo, passamos por cima da Avenida Sumaré, pegamos a Oscar Freire, cruzamos a Rebouças e continuamos na Oscar Freire até a Alameda Casa Branca.. Primeiro passamos na esquina com a Barão de Capanema para ver o ponto onde um comando guerrilheiro cercou o Galaxy do empresário Hening Boilesen (quem puder, assista ao excelente filme “Cidadão Boilesen”) em 15 de abril de 1971. Ele ainda conseguiu deixar seu veículo e correr a pé em direção a uma feira livre, mas aí tomou uma saraivada final de tiros.

Emboscada Boilesen

Um dos autores do atentado, Carlos Eugenio Paz,  está vivo até hoje, dá aulas de música e escreve livros. Um deles, até interessante, chama-se “Viagem à luta armada”, no qual descreve a tensão e sua incrível luta pela sobrevivência sendo um dos homens mais procurados do Brasil. Na recente novela do SBT, o péssimo “Amor e Revolução”, Paz dá um depoimento de forma fria e calculista, fornecendo detalhes da execução. Boilesen era um líder empresarial acusado de recolher fundos entre empresas para financiar os órgãos de repressão aos comunistas e, segundo consta, também tinha prazer em assistir às sessões de tortura no DOI-CODI.

Subimos então a Casa Branca cerca de três quadras até chegar na altura do número 700. Ali se passou um dos mais expressivos, e também desastrados, episódios da luta armada. Depois de torturar os dominicanos e invadir seu convento, Fleury arrancou dos religiosos o “ponto” com Marighella. O líder máximo da ALN apareceu naquele endereço por volta das 20 horas do dia 04 de novembro, sozinho e de peruca. Aí não se sabe se ele chegou a entrar ou não no fusquinha dos dominicanos estacionado na penumbra. O fato é que mais de uma dezena de policiais, tendo Fleury à frente, saiu da toca – carros e obras ao redor –  e fuzilou sem perdão o atônito Marighella.

Emboscada a Marighella

No fogo cruzado e amigo que se sucedeu – fruto do temor que tinham pelo velho e valente comunista -, foram alvejados e mortos um pobre protético que passava de carro na rua naquele horário e também uma investigadora do DOPS. Deve ter sido um tiroteio e tanto! Marighella caiu como um patinho na cilada, e morreu levando junto as chances de sucesso da revolução comunista brasileira, já que representava a liderança máxima do movimento, respeitado no exterior e autor do mundialmente conhecido livreto “Mini-manual do guerrilheiro urbano”, no qual ensinava toda sorte de atentados e ações para minar o governo na luta armada nas cidades.

Ainda faltavam três pontos do Torturismo Tour para serem visitados e já estávamos há mais de 4 horas caminhando, cansados mas ainda com motivação para seguir até o final. Pegamos a Rua Estados Unidos e, na esquina com a Travessa Ouro Branco reconstituímos o assalto ao carro forte da Brinks por um consórcio de grupos terroristas – foi um dos maiores valores arrecadados pela extrema esquerda nas chamadas “ações expropriatórias”, quantia suficiente para sustentar os guerrilheiros por alguns meses. Mais de uma dezena de combatentes participaram da ação, cercando o carro-forte com outros veículos e disparando tiros com armas de grosso calibre até os vigilantes se renderem e entregarem a montanha de dinheiro. Coisa de cinema!

Asslato ao carro da Brinks

De lá, subimos em direção ao ginásio do Ibirapuera e ao quartel do II Exército, onde morreu em conseqüência de um atentado a bomba o sargento Mario Klozel em 26 de junho de 1968. A VPR lançou contra o portão do quartel um carro vazio carregado de explosivos que levaram pelos ares o incrédulo militar. Ainda tentei perguntar para o sentinela de plantão qual o ponto onde ocorreu o atentado, mas o jovem nem sabia do que se tratava. Assim, não consegui detectar o exato ponto da colisão e conseqüente explosão. Ou seja, as nascentes organizações terroristas estavam valentes naquele ano pois até quartel estavam atacando ...

Ou seja, não há como negar que o AI-5, empurrado goela abaixo da sociedade em 13 de dezembro de 1968, foi uma resposta dura e direta do regime contra o acirramento da subversão. A versão que a luta armada teria sido uma resposta ao recrudescimento da ditadura é uma falácia, já que as ações terroristas, como esse atentado, a explosão de uma bomba no consulado americano no Conjunto Nacional (local que ficou de fora dessa primeira versão do Torturismo Tour) e o assassinato do capitão americano Chandler ocorreram antes da imposição do ato institucional que transformou o Brasil numa legítima ditadura por uma década.

Deixamos a sede do atual Comando Militar do Sudeste e subimos, já com as pernas mais pesadas, em direção a Rua Tutóia. Já caminhávamos há mais de 4h30min e ainda faltava o ponto derradeiro do Torturismo Tour: as instalações do então DOI-CODI – Destacamento de Operações Internas/ Centro de Operações de Defesa Interna, filhote da OBAN, a Operação Bandeirantes. Chegamos finalmente no número 915 e lá estava ele, hoje uma delegacia de polícia, o 36º distrito. Suas paredes ainda devem emanar sofrimento, são centenas de acusações de tortura e maus tratos.

DOI-CODI

Quem comandou aquele aparato por vários anos foi o coronel Brilhante Ustra, hoje um senhor de idade ainda ousado com as palavras. Ainda se sente como alguém que cumpriu seu dever patriótico esmagando uma revolução que transformaria o Brasil numa ditadura comunista. Embora haja alguma coerência nos textos e argumentos de Brilhante Ustra, ele não apresenta sinais de arrependimento pelos sofrimentos que causou. E não foram poucos, e nem poucas as mortes. Um de seus liderados, o capitão Albernaz, era especialmente criativo e sádico nos interrogatórios. Dizem que o Jonas, aquele que liderou o seqüestro do embaixador Elbrik, morreu nas mãos da equipe de Albernaz depois de 10 horas de suplícios.

Sentado numa mureta em frente à delegacia, fiquei imaginando os carros e camburões do DOI chegando com prisioneiros recém-capturados. O que passava na cabeça deles momentos antes de chegar a câmara dos horrores? Iam direto para o fundo, para o pau de arara, pois as informações tinham que ser obtidas com rapidez antes que outros guerrilheiros soubessem da “queda” do companheiro. Havia uma política de Estado que promovia e incentivava a tortura e que depois evoluiu para o extermínio, ao menos daqueles que pegavam em armas e realizam ações de fogo.

Em 1975, a guerrilha urbana havia sido massacrada, mas a estrutura de combate à subversão estava ali, inchada e intocável. Essa gente já não tinha o que fazer e passou a perseguir quem apenas tinha opiniões de esquerda. O caso mais famoso é o do jornalista Wladimir Herzog, então na TV Cultura. Os homens do DOI foram em outubro à redação para interrogá-lo, mas ele não estava. Herzog então se dirigiu de táxi para o DOI-CODI – imaginei-o chegando logo ali e pagando o motorista. Entrou no prédio sozinho e só saiu de lá morto. Os agentes erraram a dose na tortura e forjaram um suicídio que ninguém acreditou.

O presidente-general Geisel não gostou e advertiu seu comando militar que não toleraria mais tortura. Mas meses depois um operário – Manoel Fiel Filho – também foi seviciado até a morte nas masmorras do DOI-CODI. O presidente então exonerou o comandante militar de plantão e depois ainda derrubou o ministro do Exército, Silvio Frota, que andou flertando com um golpe no golpe para impedir a tal distensão lenta, gradual e segura dos anos Geisel. O DOI-CODI deixou então de ser a sucursal do inferno mas entrou para a história como um dos principais símbolos da guerra suja.

Depois daquela amena caminhada de quase 18 km em quase 5 horas tendo como pano de fundo temas tão amenos e bucólicos, eu e meu sogro ainda subimos até a Av. Paulista para comer um bauru e tomar um chopp no Ponto Chic, já no Paraíso (o bairro, não os céus).

Estava finalizada a primeira versão do Torturismo Tour, quem sabe outras virão incluindo novos pontos, como o quartel de Quitaúna, de onde o Lamarca fugiu com as armas, ou o antigo restaurante Varela, onde três terroristas ligados a ALN foram mortos depois de um almoço – um ano depois, o dono do restaurante acabou justiçado pela organização acusado de ter feito a delação. E também outras cidades, como o Rio de Janeiro, Belo Horizonte e até mesmo Ribeirão Preto podem também ter roteiros baseados na luta armada.

*  *  *  *  *  *  *

E você leitor? Seria capaz de torturar um oponente até a morte e chegar em casa à noite, brincar com os filhos, colocar a cabeça no travesseiro e dormir? Ou pegar em armas e mergulhar na clandestinidade para defender seus ideais sabendo que a chance de acabar no pau de arara ou no cemitério era de mais de 50% no período de um ano? Ainda bem que vivemos hoje numa democracia, ou projeto de democracia, e os medos, angústias e dúvidas são outros. Mas que eu continuo fascinado com os dilemas e conflitos daqueles anos de chumbo ,,, ah, isso eu continuo sim!


 

Compartilhar: