A tragédia no Vila Rica

Toda vez que a montanha cobra a vida de um aventureiro ou turista, sou abordado por diferentes pessoas que me indagam uma opinião a respeito da tragédia, se não tenho medo de ser o próximo, etc. Assim, nos últimos dias, tenha sido parado e perguntado, no vestiário do clube, na entrada do escritório, na mesa do bar ou na academia a respeito do engenheiro brasileiro tragado pelo Vulcão Vila Rica, no Chile, na última quinta-feira.
Não me aprofundei nas ainda confusas explicações dadas pela imprensa em geral, sempre incompletas e carentes de conhecimento específico por parte do jornalista. Ora dizem que o rapaz estava encordado com outros montanhistas e que todos teriam caído juntos, ora afirmam que o engenheiro escorregou sozinho 600 metros até cair numa greta de sete metros de profundidade. Há suspeitas de que não teria morrido em função da queda, mas do frio intenso por passar uma ou duas noites preso a um verdadeiro congelador. Teremos que aguardar as conclusões dos legistas e peritos.
Estive em 1993 em Pucon, a cidade sinônimo de turismo e aventura no sul do Chile situada em frente ao Vila Rica e tentei subi-lo. Infelizmente, o tempo não colaborou nos dois dias que lá fiquei e a montanha permaneceu fechada pelas nuvens, vento e chuva para possíveis ascensões. Mas conheço várias pessoas que já o escalaram e afirmam tratar-se de um passeio turístico, acessível para todos que tenham alguma disposição física, de magros a obesos, atletas e meio sedentários, adlolescentes a avançados na idade, aventureiros e precavidos, para caminhar algumas horas para cima e para baixo.
Entre meus amigos montanhistas, o Vila Rica virou até motivo de chacota no que se refere à dificuldade para escalá-lo. Quando queremos dizer ironicamente que alguém possui grande experiência em alta montanha, falamos que tal pessoa já teria subido o Vila Rica e os sete cumes mais altos de Minas Gerais. Depois dessa morte ainda mal explicada, convém rever os comentários pejorativos.
Ontem assisti ao Fantástico esperando uma matéria mais completa, com o uso de recursos de computador, mas a notícia foi bem fraquinha. Claro que fiquei consternado com a entrevista dos pais do engenheiro, mas não houve explicações mais detalhadas sobre as possíveis causas do acidente. Hoje ouvi pela Band FM parte de uma entrevista de Manoel Morgado, alpinista e guia profissional que já escalou os picos mais altos de cada continente, inclusive o Everest. Ele, de certa forma, contestou a versão que teria sido apenas uma fatalidade o suposto tropeção do turista em sua própria calça, o que o teria levado a escorregar montanha abaixo. Para evitar essa possibilidade, disse Morgado, alpinistas utilizam polainas que ajustam a calça às botas.
Em mais de uma notícia, vi o responsável pela agência que vendeu o pacote para o engenheiro insistir na palavra “falalidade”. O curioso é que havia anos que não morria um turista no Vila Rica e, num prazo de 10 minutos, lá se foram dois, o brasileiro e um mexicano.
Associei o fato com o absurdo óbito da menina nipo-brasileira no Hopi Hari. Com a investigação em curso, surgem mais fatos apresentando a negligência do parque com a segurança dos usuários. Mas a conclusão é que, estatisticamente, com o representativo número de pessoas que frequenta o Hopi Hari ou sobe o Vila Rica, mais dia menos dia um acidente iria acontecer principalmente quando procedimentos de segurança são menosprezados.
Já tive problemas sérios em alta montanha por não seguir regras básicas. No Aconcágua (Argentina), em 1996, escorreguei várias vezes e tive dois dedos do pé congelados por não estar usando botas e grampons adequados no dia do ataque ao cume. Por sorte não me machuquei mais seriamente. Há três anos, no Chile, quando escalava o Parinacota, a 6.300 metros de altitude, sofri um acidente e me salvei quase sem nenhuma conseqüência porque estava seguindo as regras de segurança. Como a montanha possui gretas escondidas, pisei em uma delas e quase fui ao fundo quando estava a 6 mil metros. No entanto, devidamente encordado a um guia, consegui me segurar na boca daquele buraco sem fim.
Enfim, para morrer basta estar vivo. E para viver não podemos nos descuidar nem para tirar o carro da garagem ou atravessar a rua. Todo cuidado é pouco, seja no parque, seja na alta montanha. Não zombarei mais do Vila Rica, pois na maior parte das vezes o inesperado acontece justamente nos lugares onde sentimos mais segurança e, em conseqüência, baixamos a guarda.