Um duro teste para o Ojos

Um duro teste para o Ojos

A expedição para escalar os 6.891 metros de altitude do Ojos del Salado, no Chile, está chegando. Embarcaremos no início de janeiro e, faltando menos de quatro semanas para essa empreitada em alto estilo, a hora é de finalizar a preparação física de maneira adequada. Dentro do planejamento, incluímos uma longa caminhada pelas serras e trilhas de Delfinópolis (MG), a 180 km de Ribeirão Preto, no último domingo, dia 04 de dezembro.

Eu, Haroldo e Guapito, integrantes da expedição, na companhia do Dib, que também irá para o Ojos pelo lado argentino, e da Cassandra, partimos antes das 6h da manhã da Pousada Jardim da Serra, do Verri. Seguimos por 5 km no Troller do Dib até o início da Escada de Pedra, onde deixamos o carro estacionado. Com a mochila nas costas contendo nossa comida (sanduíches de presunto e queijo, maçãs, barras energéticas e bolachas água e sal), hidratação (água, gatorade, Red Bull) e suplementação (BCAA), partimos morro acima em direção à Casinha Branca.

Em meia hora chegamos lá e continuamos a subir a Serra Preta até se descortinar a imponente vista da Serra do Cemitério, com suas fissuras e ranhuras na montanha, grotas, diferentes tons de verde e uma beleza estonteante. Lá bem longe, no topo, podíamos avistar a casinha do Galeiro, nosso destino horas mais tarde. Isto é, meio destino, pois teríamos que fazer o mesmo percurso na volta até o carro estacionado.

Sem mais delongas, observando também a vista da Gurita e, logo abaixo de nossos pés, a íngreme trilha para a Cachoeira do Ouro, continuamos pela estrada de terra serpenteando a serra em direção à igrejinha do Itajuí. Mais abaixo, saímos da estrada através de uma trilha que nos levou a cruzar um riacho convidativo, onde reabastecemos as garrafas de água. Subimos pela trilha à esquerda até pegar novamente uma estrada de terra. Viramos outra vez à esquerda e tranquilamente descemos uma longa rampa que nos antecipou uma preocupação: na volta, enfrentar aquela subida não seria mole não!

Com a moral alta e em velocidade de cruzeiro – cerca de 4 km por hora, o grupo logo atingiu a simpática igrejinha do Itajuí e voltou a subir por uma estrada que segue à direita no vale. Em alguns minutos, onde há um poste de luz, viramos à esquerda descendo em direção à fazenda do Arnaldo e, um pouco mais adiante, depois de uma porteira, chegamos ao rio. Para não molhar as botas de caminhada, descalçamos os pés, arregaçamos a calça e atravessamos com cuidado para não escorregar ou machucar em alguma pedra mais pontiaguda.

Cruzamos então uma fazenda com os cachorros latindo a pouca distância e voltamos a subir, agora no sentido do cemitério, logo acima de um pequeno morro. Em cinco minutos, alcançamos o início da trilha pra valer da serra. Tínhamos então uma baita subida de quase 400 metros verticais pela frente, um excelente teste para o Ojos. Nesse ponto, zerei o cronômetro e apertei o passo me distanciando dos demais – o importante era ascender rápido e sem descanso até o topo. Depois de 25 minutos cheguei ao totem que demarca o final da trilha!

Em menos de cinco minutos os demais também atingiram esse ponto. Continuamos então, ao mesmo tempo felizes e aliviados, a caminhar, agora naquela vastidão de cerrado, com uma linda vista do vale à direita. Em 15 minutos finalmente chegamos à casinha do Galeiro somando pouco mais de 5 horas de caminhada até aquele momento. Lanchamos e descansamos alguns minutos, conversando sobre amenidades, tais como a origem da palavra “enfezado”.

Mas já era hora de voltar, o carro estava longe e o caminho de volta, em função do cansaço e do sol que ameaçava sair detrás das nuvens, seria bem mais penoso. Retornamos até o totem, onde a Cassandra havia ficado esperando, e descemos a Serra do Cemitério. Tudo foi muito bem até o Itajuí, quando o sol saiu “fritando” e minou nossa resistência na rampa que se seguiu. Mas passo a passo, pensando na melhor cerveja gelada de nossas vidas que nos aguardava, suada, em Delfinópolis, o grupo perseverou naquilo que passamos carinhosamente chamar de autoflagelo ...

Quando atingimos o riacho, sofregamente nos jogamos no poço de água e ali boiamos, nos refrescamos por alguns minutos e fizemos uma rápida hidroginástica regenerativa. Mas ainda faltava uma última e longa subida da Serra Preta, uma caminhada até a Casinha Branca e uma derradeira descida até o carro. Nesta parte final, a sola do meu pé doía bastante, mas a parte muscular e aeróbica estava tranqüila, mostrando que a preparação física para a expedição do Ojos encontra-se no caminho certo. Chegar ao carro, depois de 11h07min de jornada, sendo 9 horas de caminhada, representou uma grande conquista – afinal, não é todo dia que encaramos uma marcha de 40 km subindo e descendo serras!

Ainda havia esperança naquele momento que o Corinthians não fosse campeão, mas ao chegar em Delfinópolis, os foguetes já anunciavam o título. Ao menos o Cruzeiro havia goleado inesperadamente o Galo por 6x1 dando adeus a um aflitivo rebaixamento. Depois da merecida cerveja e do banho na pousada do Verri, ainda jantamos caldo de feijão e macarronada no BarCo, retornando já noite escura para Ribeirão Preto e sem pegar fila alguma na balsa, mas com a convicção de termos feito um duríssimo treino para nossa expedição às remotas montanhas do Chile, logo mais, quando 2011 se apagar ...

 

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