Um "senhor" triatleta
Engraçado como alguns personagens acabam cruzando nossas trajetórias e, de alguma forma, esses encontros influenciam despretensiosamente histórias de sucesso. No dia 26 de dezembro de 2001 estava eu no Aeroporto de Cumbica prestes a embarcar para a Argentina rumo a minha segunda tentativa de escalar do Aconcágua. Lá no saguão de espera, com roupas e equipamentos esportivos de montanha, encontrei o Topan.
Meio sem jeito, nos aproximamos e descobrimos que estávamos ambos viajando em carreira solo para subir a mais alta montanha das Américas. Naquele momento teve início uma amizade que nos anos seguintes desceu da altitude e encontrou no triatlo, ou triathlon, um território fértil em conquistas. Ainda no Aconcágua, fizemos toda a aproximação juntos - ascensões de aclimatação em Puente del Inca e a caminhada de três dias entre esse vilarejo, a 2.700 metros de altitude, quase na fronteira com o Chile, e Plaza de Mulas, a 4.300 metros, o grande acampamento-base.
Nesse caminho, demos uma pequena desviada até Plaza Francia, base para a temível parede sul do Aconcágua. Lá encontramos o Cleiton Conservani, hoje famosos repórter da TV Globo que acompanhava de longe a primeira escalada brasileira de sucesso por aquela via, empreendida por Rodrigo Rainieri, que nesse mês lança o primeiro livro sobre suas expedições ao Everest, e Vitor Negrete, que morreria no próprio Everest em maio de 2006. Eu e o Topan tivemos a oportunidade de cumprimentar os dois, dias mais tarde, em Plaza de Mulas, e em mais alguns dias conseguimos, em datas diferentes e pela rota normal, atingir o topo do continente.
De volta ao Brasil e animado com a conquista obtida nos Andes, comecei a treinar triatlo e participar de provas desse esporte. Em novembro de 2002, encarando como um treino diferente em minha terra natal, viajei para Belo Horizonte para participar da tradicional Volta da Pampulha e aproveitei para visitar o Topan, que já morava na capital mineira há alguns anos. Meu amigo do Aconcágua também participou da prova, para a qual tinha treinado superficialmente, chegando mais de 5 minutos atrás de mim com o tempo de 1h25min.
Nos encontramos depois para um choppinho, ocasião em que lhe contei mais sobre os desafios que teria pela frente no triatlo. Inspirado com meu exemplo, ele abandonou as montanhas e se animou, pois logo depois ingressou na modalidade para se transformar num dos melhores e mais vitoriosos triatletas amadores do Brasil. Como somos da mesma idade, ambos nascidos em 1966, chegamos até a disputar uma mesma prova em 2004 no Meio Iron Man de Pirassununga, mas já nessa época ele estava voando baixo, conquistando as primeiras posições e me deixando para trás na categoria por idade.
O fato é que eu parei de treinar e competir triatlo, mas ele, ao contrário, foi aos poucos se transformando em referência nesse esporte, chegando a dar canseira nos profissionais. Obteve resultados expressivos no Troféu Brasil na modalidade olímpica (1,5 km de natação; 40 km de bike e 10 km de corrida) e logo passou para as distâncias maiores, como o Iron Man (3,8 km de natação; 180 km de bike e 42 km de corrida), não só no Brasil como no exterior.
Para quem faz Iron Man, a consagração maior é participar do chamado campeonato mundial que acontece anualmente em Kona, no Hawai, onde tudo começou ainda nos anos 70. É para lá que vão os melhores, com vagas obtidas arduamente ao longo do ano em mais de 25 provas seletivas de Iron Man espalhadas por todo mundo – aqui no Brasil ela acontece em Florianópolis desde 2000 no mês de maio.
Esse ano Topan irá participar pela quarta vez do Iron Man de Kona, dessa vez na categoria 45-49 anos, na qual provavelmente tem excelentes possibilidades de pódio, isto é, chegar entre os cinco primeiros. Torço bastante por ele, um cara determinado para treinar, mentalmente focado, solidário com os companheiros e que sabe competir com estratégia. Guardo com carinho um presente que me deu há poucos anos: um boné com a assinatura que ele mesmo coletou do próprio Mark Allen, nada menos do que seis vezes campeão em Kona e um dos maiores ídolos do esporte de todos os tempos
Valeu, Luiz Renato Topan, e boa sorte no Hawai esse ano!