Uma Coca-Cola no Parinacota
Estamos em julho de 2009 no Atacama e a Expedição Influenza está em seus momentos derradeiros. Depois de subirmos quatro vulcões na região de São Pedro, atravessamos de camionete centenas de quilômetros de deserto até o norte, mais precisamente Arica, cidade portuária, e lá subimos novamente a Cordilheira em direção a pequena Putre. De lá sairíamos para nosso último grande desafio, o Parinacota, também na fronteira com a Bolívia, com uma altitude superior a 6.300 metros.
Essa montanha é mais casca-grossa, pois além de 300 metros mais alta do que nossa última ascensão – o Licancabur -, exigia o uso de cordas e grampons – para quem não conhece, aquelas ferraduras pontiagudas que permitem caminhar na neve ou no gelo com maior segurança e equilíbrio - e ainda oferecia o risco de quedas em gretas. E lá fomos nós, depois de contratar em Arica um guia que cuidaria de toda a logística e alimentação – eu disse, cuidaria ...
No primeiro dia, subimos até próximo do glaciar, montamos as barracas, jantamos modestamente e nos recolhemos às barracas para uma noite bem desconfortável. Na madrugada gelada e bem abaixo de zero, acordamos e tivemos novamente um café da manhã muito aquém do esforço que teríamos pela frente. Subimos com lanternas na cabeça mais uns 200 metros por trilha e rochas e chegamos à parte da montanha totalmente coberta por neve. Parada para acoplar os grampons às botas duplas, no meu caso, um sofrível par alugado.
Nesse momento, não se sentindo 100%, o Gera resolveu retornar para as barracas. O Dib e o Luiz se encordaram ao guia Justino e eu, ao guia assistente, o Frank. Começamos então uma longa e monótona ascensão em ziguezaque, ainda no escuro, ribanceira acima, utilizando a piqueta para ajudar no equilíbrio, cravando-a a cada passo na neve. Aos poucos, fomos ganhando altitude naquela gigantesca e íngreme rampa, mas o Dib e o Luiz, mais lentos, ficaram para trás. O sol nasceu e iluminou a montanha, trazendo um reconfortante calor e descortinando toda a beleza da paisagem ao redor – lagos, montanhas e a aridez magnética.da Cordilheira.
A coisa então pegou pra valer! No videoaventura que exibo acima, é bem perceptível o meu cansaço causado pelo esforço e pelo ar rarefeito. As palavras saem da boca já sonolentas e misturadas com a respiração pesada. E o creme branco espalhado pelo rosto ninguém merece! Pouco fashion, mas importante para evitar a queimadura dos raios inclementes na altitude. Chegar ao topo exigiu um último e lento esforço, intercalando 10 passos com uma parada para cinco longas respiradas, sucessivamente. Mas faltava mais um pouco, mas esse tal de “pouco” é cada vez mais “muito” lá em cima ...
Enfim, o topo do vulcão Parinacota! O outro grupo, que nem mais água tinha, acabou desistindo e retornando. Lá no cume, o guia Frank abriu sua jaqueta e dela sacou uma tentadora garrafa de Coca-cola semi-gelada do bolso, apesar de carregada envolta no calor corporal, abriu o refrigerante e um largo sorriso, exclamando: “Coca-Cola, la pasión de la montana!”. Gravei aquele slogan em alto estilo em vídeo e pensei com meus botões: preciso mostrá-la para o André, Aldo, Ana Maria, Carrer, Marquinhos e Katia, os clientes da Companhia de Bebidas Ipiranga. Será que algum deles já tinha visto alguém sorver com tanto gosto uma Coca-Cola a tal ponto de se sentir literalmente nas alturas?
Fiquei ali naquele cume, deslumbrado e ao mesmo tempo cansado, curtindo a minha paixão pela montanha e visualizando, logo ali ao lado, o gigante Nevado Sajama, que constava da programação inicial de meus companheiros e, a centenas de quilômetros no horizonte, as montanhas ao redor de La Paz. Mas logo chegou a hora de descer, sim, a brincadeira só havia chegado à metade, faltava ainda me soltar ribanceira abaixo.
O Frank então literalmente me deu corda e comecei deslizar montanha abaixo, veloz e confiante, quase em linha reta. Perdi o medo, o retorno progredia ligeiro quando, subitamente, pisei no chão e ele simplesmente – crash - foi abaixo! Como eu descia em velocidade, a queda não foi exatamente vertical. A greta de abriu, meu joelho se chocou com força contra a borda e minhas pernas ficaram balançando dentro daquele enorme buraco enquanto metade do meu corpo ainda se equilibrava fragilmente para fora. O Frank esticou e travou a corda, impedindo que eu descesse de vez naquela ratoeira.
Respirei fundo por alguns segundos para me recompor e consegui me arrastar para fora da greta sem não antes olhar desconfiado para o fundo dela. Assustado, não consegui enxergar a profundidade, ou seja, o buraco era muito mais embaixo. A perspectiva de ter caído me amedrontou – iria dar trabalho ao guia me tirar de lá, isso sem contar o risco de uma fratura ou coisa pior, como por exemplo, ter arrastado junto o guia. Acho que estaríamos lá até hoje ... hehehe ...
Sentei-me por três minutos na neve, a dor no joelho cedeu e recomeçamos a descida, agora de forma mais conservadora e cuidadosa. Em uma hora alcançamos o final do glaciar e, em mais 20 minutos, às barracas. O Gera ainda tentou negociar com o Justino um novo ataque na madrugada seguinte, mas o nosso econômico guia em nada facilitou. A temporada de adrenalina e suor nas montanhas chilenas estava chegando ao fim, mas ainda deu tempo de tomar algumas cervejas em Arica e produzir um final conceitual no videoviagem, com os quatro amigos caminhando de costas para câmera tendo ao fundo o instigante Oceano Pacífico.
Em breve, novos videoviagens e graventuras!