Uma pequena lembrança do Grande Irmão
Até a edição passada, o Big Brother nunca chamou minha atenção. Para falar a verdade, tinha certo desprezo e raiva do programa por considerar que milhões de pessoas perdiam seu tempo assistindo “àquilo”. Este ano foi diferente. Estava em janeiro no Chile escalando montanhas e quando tive acesso à internet fiquei sabendo que uma ribeirãopretana havia entrada na casa no último momento. Como conheço a Fabiana – contratada algumas vezes para cobrir socialmente eventos de clientes da agência em que trabalho -, resolvi dar aquela espiadinha.
De espiadinha em espiadinha, passei a me interessar pela dinâmica do jogo; quem é quem, como jogam, quais estratégias usam; como a Globo conduz o processo, a maneira como o público se comporta e vota, enfim, de que maneira o programa cativa a atenção de milhões de pessoas. Passei a assistir ao vivo a formação do paredão aos domingos; a eliminação na terça; a prova do líder na quinta. Nunca votei e nem tenho vontade para, e tão pouco assinei o canal exclusivo 24 horas, mas algumas vezes zapeei o controle remoto para o 42 com o objetivo de observar mais um pouco o comportamento e as conversas dos brothers e sisters no Multishow. Durante o dia, vejo algumas notícias na Internet e troco impressões com quem acompanha o programa, assim como discuto os jogos de futebol da rodada.
Lembrei que tive no passado um, digamos, namorico com o Big Brother. Explico: na segunda edição, em 2002, eu acabara de escalar o Aconcágua, na Argentina, a mais alta montanha das Américas. A notícia saiu em vários veículos de Ribeirão Preto. Paralelamente, a Globo havia pedido para a EPTV fazer uma peneira na região e escolher um dos participantes do programa. Uma produtora da EPTV, talvez pensando que meu desempenho na Cordilheira pudesse ter continuidade na casa, me ligou perguntando se aceitaria fazer um teste. Ressabiado, aceitei achando que ali poderia estar uma oportunidade para ganhar um dinheirinho ou saltar para o estrelato global.
Fui à emissora, respondi diversas perguntas , mas a Globo queria alguém com o perfil mais rural para representar o interior, o que decididamente não tenho. Escolheram o Rodrigo Cowboy, que veio a se transformar no vitorioso daquela edição. Posso então dizer que perdi a indicação para o campeão, que vim a conhecer anos depois e com quem andei jogando biribol na casa de outro amigo em comum, o Dr. Ronaldo Fenômeno, no ano passado.
Um pouco antes desse episódio fui contratado pelo professor Laércio, que à época era sócio de uma produtora de vídeo. Eu tinha que escrever um texto institucional para um vídeo de uma fabricante multinacional de equipamentos agrícolas e, adivinhem, quem daria voz às minhas palavras? Ele mesmo, Pedro Bial. Sua voz vale e valia muito, ao menos umas 40 vezes mais que meu texto naqueles dias. Bial veio do Rio de Janeiro para a gravação e almoçamos juntos no Pingüim do Santa Úrsula, eu, ele e o Laércio. O então apresentador do Fantástico estava ainda um pouco abatido com a recente separação com a atriz Giulia Gam e as discussões na Justiça em relação à guarda do filho Theo, mas o projeto do Big Brother provavelmente já se encontrava em andamento. Sua conversa, no entanto, era atraente e repleta de informações de quem vivia diariamente o centro do poder da Globo.
Os anos se passaram e hoje, assim como naquele almoço no Pingüim, voltei a observá-lo mais atentamente. Acho que conduz bem o programa, no qual consegue até mesmo encaixar seus discursos repletos de mensagens e citações literárias que dão um verniz mais humanista às escandalosas ações de merchandising da atração. O Big Brother sabe seduzir porque lida diretamente com instantaneidade, psicologia, sociologia, raiva, sexo, traição, sedução, dinheiro, desejo, poder, jogo, bebida, publicidade, caráter, ego, audiência, torcida e escolha, tudo num só caldeirão. Somos nós todos que ali estamos, de uma forma ou de outra, pois estes componentes da nossa existência se fazem presentes naquela casa de maneira evidenciada ou manipulada.
Às vezes me sinto incomodado diante dos olhar recriminador de minha mulher e de meu filho adolescente que, ao passar pela sala, me veem ali sentado no sofá teoricamente perdendo meu precioso tempo com aquela “bobagem sem valores”. Explico que sou um cara da área de comunicação, que gosto de analisar o todo, de perceber a reação do público, de entender como as pessoas votam, por quais razões morais esse ou aquele brother é defenestrado no paredão, por que o João Carvalho conseguiu eliminar no voto as duas moças mais bonitas do programa e agora também o Yuri. Bem, não sei se os convenço (minha família), ou se convenço a mim mesmo com essa argumentação, mas agora só restam duas semanas...
Se a vida é um grande jogo no qual nossa performance parece duvidosa, não custa de vez em quando assistir pela telinha, já compactado e formatado, às conquistas e frustrações de gente como a gente. Embora o bom amigo Daniel nadador tenha me dito que em sua existência prefire ser protagonista a mero expectador, quem não gosta de dar de vez em quando uma espiadinha de leve?