Visitando o Instituto Figueiredo Ferraz
O calor oprime Ribeirão Preto na tarde de sábado, dia 30 de setembro, mas é no ambiente cultural que a temperatura na cidade está mais aquecida. O Instituto Figueiredo Ferraz abre suas portas no Alto da Boa Vista e recebe convidados ilustres, das capitais e do interior, artistas e empresários, amigos e apreciadores da boa arte. Depois de muito sonho, planejamento e investimento, João Carlos de Figueiredo Ferraz já tem onde armazenar e expor adequadamente a sua importante coleção de arte contemporânea, com mais de 800 obras, principalmente de artistas brasileiros de safras dos anos 80 para cá.
Ganhamos todos nós que moramos aqui em Ribeirão Preto e agora podemos desfrutar de um espaço comparável a renomadas galerias e fundações européias, como por exemplo, a Fundação Serralves, no Porto, em Portugal, onde estive em janeiro e cujas imagens me vieram à cabeça enquanto visitava o Instituto Figueiredo Ferraz. A luminosidade, as paredes, o conforto térmico, o pé direito e os cantos foram feitos para abrigar e realçar as obras de arte, e certamente colaborarão para criar aqui na região um público mais numeroso disposto a consumir e a apreciar o contemporâneo.
Eu me incluo nesse grupo. Não é fácil mergulhar nas sensações e emoções proporcionadas por quadros, esculturas e instalações que à primeira vista podem não significar coisa alguma. Mas, nas palavras do próprio Figueiredo Ferraz, em entrevista dada ao jornal Valor em 2006, “a arte é um exercício do olhar, e nós temos que reinventar o cotidiano, olhar o que sempre vimos com olhos de como se fosse a primeira vez, descobrindo as coisas que estão por trás das coisas que olhamos”. Foi um pouco do que tentei sentir quando visitei Inhotim, próximo a BH, em abril. E é o que o Instituto Figueiredo Ferraz provavelmente me proporcionará daqui em diante.
Na qualidade de jornalista, não consigo dissociar a arte dos fatos, da história, de nossas histórias pessoais, do envolvimento com os personagens, com os protagonistas. Esse é um olhar que tenho, uma perspectiva que me absorve enquanto observo um óleo sobre tela, uma fotografia ou uma escultura. E assim foi enquanto caminhava no Instituto Figueiredo Ferraz, lembranças e sentimentos dispersos temperados pela visão e absorção da arte, fluidos positivos a cada passo, em cada espaço.
Olhei para o passado através de uma pintura monocromática. Vi o Ginásio do Ibirapuera sendo construído em 1956 e dentro dele, subindo uma longa escada, o renomado engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz, professor da Politécnica, dono do principal escritório paulista de engenharia, ex-campeão dos 100 metros rasos e futuro prefeito de São Paulo no início dos anos 70. De repente, a altura da estrutura causa uma crise de vertigem que paralisa momentaneamente o responsável pela grandiosa obra, deixando-o exposto a uma queda fatal.
Um jovem engenheiro que trabalhava em seu escritório, chamado Gustavo Afonso Junqueira, o alcança na escada, percebe a situação de risco e inicia um diálogo solidário. Aos poucos, lentamente, Figueiredo Ferraz começa a descer, com muito cuidado, na companhia do jovem engenheiro, até atingir a segurança do chão. Talvez, para retribuir a pequena ajuda, o convida para almoçar em casa. E lá chegando, os dois se encontram com um menino sorridente e brincalhão, aos quatro ou cinco anos de idade, que viria a se tornar um dos maiores colecionadores de arte do Brasil ...
Quase 55 anos depois, dessa vez sou eu, Gustavo Afonso Junqueira Júnior, quem sobe as escadas, mas o Ginásio do Ibirapuera da vez é o Instituto Figueiredo Ferraz. À esquerda, um salão onde um coquetel é servido. À direita, na passagem para mais uma área de exposição, está João Carlos. Ao contrário do pai, não se encontra paralisado, mas feliz, receptivo e entusiasmado como naquele almoço de 1956. Um sorriso aberto por estar realizando um sonho acalentado, expandindo as paredes de casa que não mais comportam as obras cuja coleção iniciara ainda no final dos anos 70, fruto de seu interesse pelas artes, da influência materna e do relacionamento com importantes artistas e galeristas.
Um novo quadro, uma nova lembrança. Estamos em 1990, João Carlos já é um colecionador conhecido. Eu acabara de me mudar de São Paulo, onde trabalhara como colaborador numa publicação do mercado de artes plásticas, para Ribeirão Preto. Naquela época, a Revista Veja tinha um suplemento chamado Veja Interior no qual passei a colaborar. A primeira pauta que emplaquei foi justamente sobre o ambiente de artes plásticas em Ribeirão Preto, e João Carlos acabou sendo o principal entrevistado da matéria, com foto de capa – tirada, diga-se de passagem, por minha irmã Lalau.
Já então um notório mecenas local, explicou-me na sala de sua casa como enxergava aquele incipiente mercado. Em muito, estimulado por ele mesmo, um farejador de talentos. Quase 10 anos depois o entrevistei novamente, dessa vez na Jardest, destilaria que ele dirigia e hoje pertencente à multinacional LDC. Naquela ocasião, não falamos nem de quadros nem de artistas, mas como a BrasilÁlcool, empresa criada pontualmente por usineiros, faria para enxugar o etanol que sobrava nos tempos pré-veiculos flex. Pois é, o mercado também faz arte com a realidade, imaginem, excesso de álcool hoje parece ficção ...
Fim da primeira visita, apressada, o calor ainda assusta lá fora. Sinto um orgulho quente no peito de morar numa cidade que conta com aquele equipamento de primeiro mundo. José Carlos, o pai, que fez os cálculos para erguer o MASP e projetar mundialmente seu vão livre, preocupado com a infraestrutura, dizia que a São Paulo dos anos 70 precisava parar de crescer. João Carlos, o filho, trabalha para que a arte não pare de crescer. Cabe então a nós, presenteados com o Instituto Figueiredo Ferraz, aprimorarmos nosso olhar para sempre querer enxergar as coisas por trás das coisas que enxergamos.