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A iletrada

Groningen, 25 de setembro de 2021

Foi engraçado que o primeiro poema a ser analisado no meu primeiro dia de aula na universidade tenha sido The Illiterate*, um poema do escritor norte-americano William Meredith. Illiterate significa iletrado, analfabeto. E o poema fala de uma pessoa que recebe uma carta, mas, por não saber ler ou escrever, e com vergonha de pedir para alguém ler, não sabe se ficou rico (quiçá o tio lhe deixou a fazenda de herança), se seus pais morreram ou se sua amada lhe correspondeu. Todo brasileiro sabe que há muitos analfabetos no Brasil, mas para qualquer um que saiba ler e escrever, iletrado não corresponde a nada exatamente pessoal. A não ser que, como eu, você esteja morando em um país cuja língua você desconhece completamente.

Eu me lembro de uma viagem que fiz para a Itália onde falei o tempo todo em francês. É claro que ninguém entendeu nada, mas foi automático. Eu morava em Londres e dividia o apartamento com uma italiana, lá nós só falávamos inglês, e um dia ela me convidou para passar as férias de verão na casa do pai dela em uma das ilhas de Napoli. Ela iria primeiro e me convidou para ir alguns dias depois. Eu nem lembrei que teria de falar italiano. A partir do momento em que saí do aeroporto, ninguém que encontrei falava inglês. Nem português. Então, eu tirei do bolso o meu francês de escola primária, porque eu sentia que pelo menos eu estava me esforçando. Moral da história: tive que pegar um taxi, e depois um barco, e depois, subir uma montanha a pé (porque já estava cansada de tentar entender como subir a montanha sem ser a pé).

Agora, morando nos Países Baixos, eu me sinto novamente como naquela viagem para a Itália, e me identifico plenamente com o poema de William Meredith. Em holandês, eu só sei dizer bom dia, morango, e obrigada: goedemorgen, aardbei e dank je wel. Fico me perguntando por que eu achava que islandês era mais difícil do que holandês. Concluindo, a minha aflição cada dia é maior. Toda a correspondência do governo (que aqui é levado muito a sério, inclusive pelos expatriados) é impressa e escrita somente em holandês. Escolhi um país e não quero ignorar a sua língua, pois morando aqui, falar holandês não é uma questão de necessidade, mas de respeito. Talvez na próxima crônica eu já saiba falar mais algumas palavras porque o meu curso de holandês já vai começar.

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