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A coisa na floresta

Groningen, 16 de outubro de 2021

 

Amigos fazem muita falta quando a gente deixa o nosso próprio país. Fazer novos amigos se torna prioridade, algo que se deseja fazer imediatamente. Mas fazer amigos não é algo mecânico como comprar um tênis ou escolher um sorvete. Há um mistério por trás das amizades, há ligações invisíveis, conexões que vão além das óbvias. Há quem diga que um milagre acontece em um encontro de amizade pois é também um encontro de almas.

Há pouco tempo atrás eu estava tão desesperada para fazer uma amiga que eu comecei a pegar o telefone das pessoas com quem eu conversava por um minuto, no corredor da faculdade ou no trem, e queria combinar de encontrar. É claro que um segundo encontro nunca acontecia. E eu continuava racionalizando: onde encontrar amigos? Como fazer amigos? Então eu li para a faculdade o conto “The Thing in the Forest” (A coisa na floresta) da autora britânica A.S. Byatt, que me trouxe de volta a lembrança de que um encontro de amizade acontece espontaneamente e que cada amigo exerce uma função na nossa vida. 

O conto explora as reverberações de um evento traumático na vida de Penny e Primrose, duas crianças inglesas que se conhecem e ficam amigas em um trem, ao serem evacuadas da cidade para um casarão no campo, junto à outras crianças, durante a Segunda Guerra Mundial. Sem informações sobre a guerra e o porquê de estarem sendo evacuadas, as duas amigas se deparam com uma coisa grande, terrível, fedida, desajeitada, feita de dejetos orgânicos e inorgânicos, com boca, olhos – um verdadeiro monstro – caminhando pela floresta atrás do casarão. Aterrorizadas, correm para dentro da casa e não conversam mais sobre o assunto, pois no dia seguinte são separadas e levadas para morarem com famílias diferentes. 

Quando a guerra termina, elas voltam para suas famílias na cidade; no entanto, a vida não é mais a mesma: ambas perderam o pai. A mãe de Penny se fecha atrás das cortinas e nunca supera a dor da perda, enquanto a mãe de Primrose se casa novamente e tem novos filhos. A guerra e a separação da família trouxeram para a vida das duas garotas uma fragmentação incapaz de ser corrigida ou remendada.

Quarenta anos depois, sem combinar, em uma excursão, elas se reencontram no casarão e conversam sobre as suas lembranças, especialmente sobre “a coisa na floresta”. Adultas e com dificuldade de superar os traumas psicológicos da guerra, não conseguem ainda discernir se o monstro que viram era fantasia ou realidade. Elas não continuam a amizade após o reencontro, mas também não esquecem nem um detalhe do que viveram juntas.

A história de Penny e Primrose me fez pensar sobre os amigos que já passaram pela minha vida. Tenho a sorte de ter amigos que sempre estiveram e espero que sempre continuem ao meu lado, mas tenho também amigos que agora ficam na memória e no coração – aqueles com os quais lutei monstros, vivi traumas, fantasias e festas – e que depois me separei para viver outras aventuras. Agora nesse novo país, espero pela próxima amizade, que seja para sempre ou para agora, tanto faz. Porque ter amigos vale sempre, para isso ou para aquilo.

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