Um olhar sobre o conto "Sonny’s Blues" de James Baldwin
Groningen, 19 de fevereiro de 2024 – 17 setembro 2025
Há meses venho tentando escrever sobre Sonny’s Blues, um conto escrito em 1957 pelo autor norte-americano James Baldwin.
Sonny é o irmão mais novo do narrador, que não tem nome. Ambos cresceram no Harlem, em Nova York, na década de 50.
O narrador, consciente do quanto era fácil para um negro se afundar nas drogas e no crime em seu bairro naquela época, faz questão de ficar longe de más companhias e da vida noturna. Assim, ele estuda, se casa, se torna um professor de álgebra de escola secundária e forma uma família.
Sonny, por sua vez, falha em se salvar das tentações do bairro e se perde na heroína e na música.
O conto começa com o irmão lendo no jornal que Sonny foi preso por portar heroína.
Sonny tinha 16 anos quando o pai morreu. Não tardou para a mãe também falecer. Sonny foi morar com os sogros do irmão até terminar os estudos, mas, ao invés de trilhar o caminho planejado pelo irmão mais velho, se apaixona definitivamente pela música e larga os estudos. Da música para as drogas foi um pulo.
O irmão de Sonny se sente culpado por não ter feito mais pelo irmão, mas a sua vida também não foi fácil e na época em que lê no jornal que seu irmão fora detido, está de luto por sua filha de 2 anos que faleceu por pólio.
Da prisão, Sonny escreve para o irmão, dando-lhe as condolências pela morte da filha, pedindo desculpas por desapontá-lo e refazendo o laço fraterno entre eles.
O irmão de Sonny se comove, e quando Sonny sai da cadeia, eles conversam. O narrador então decide ver Sonny tocar pela primeira vez.
Sonny é um grande pianista de jazz, admirado e querido por outros músicos. No palco, as drogas e a falta de estudo simplesmente são irrisórias perto da grandeza e generosidade de sua música.
Ao vê-lo tocar, o narrador sente uma profunda admiração e respeito por seu irmão.
Essa quebra de paradigma no final do conto faz com que o narrador perca sua rigidez moral. Por que ele se considerava melhor do que Sonny? Só por não ter sido tragado pela experiência das ruas? Até então o irmão não havia percebido que o que salvara Sonny de sua dor, o que dera a ele esperança quando tudo estava perdido, fora justamente a música.
A beleza do conto vai se construindo por meio da narrativa arrependida do irmão, e o ápice se dá quando ambos, fragilizados pelo sofrimento da vida, se escutam, e dissolvem os preconceitos de um e de outro.
Quando a lente preconcebida do narrador se estilhaça, ele enxerga no palco, não um irmão que falhara na vida, mas um homem profundamente talentoso, um gigante da música.