Escola. Educação e Inteligência (2)
Com o propósito de análise, podemos dividir o mundo educacional numa série de hierarquias, tais como: por país, por estado, por município, por escola, por classe, por professor e por estudante. Especificamente para a análise temática que estamos tratando, focaremos todas as variáveis possíveis associadas a estudantes, bem como, as que não envolvem estes últimos. Variáveis associadas a estudantes, em adição à inteligência, podem incluir as conectadas a status socioeconômico, motivação, valores e inúmeras outras neste contexto. De modo similar, muitas variáveis vinculadas à qualificação docente também podem estar associadas às escolas e escolaridade, incluindo dinheiro gasto com estudante, qualidade da direção (diretores e supervisores), tipos de intrução, período escolar, características da vizinhança da escola e tamanho das classes, entre outros.
De modo geral, essas variáveis são discutidas na literatura educacional como variáveis da escola e variáveis dos estudantes. Uma maneira fácil de pensar sobre esta divisão é entender que se um estudante se afasta da escola, aquelas variáveis que se vão com ele são as do estudante, ao passo que as que ficam na escola, são as da instituição. O que queremos analisar é a proporção da variância no desempenho acadêmico associada a escolas e aquela proporção associada a estudantes. Desde que os professores estejam dentro das escolas, eles serão limitados pela quantidade de variância no desempenho atribuído às escolas. Interessa, neste caso, que as variáveis que afetam o desempenho escolar, qualquer que seja o tipo de exame / prova aplicado, estudiosos omitem o papel da inteligência como uma variável que media os escores acadêmicos. Talvez pelo fato de não ser politicamente correto inseri-la no âmbito educacional. Apontemos algumas razões.
A primeira razão que os estudiosos parecem ignorar da pesquisa acerca da inteligência é que esta se concentra sobre coisas que as pessoas acreditam poder mudar facilmente e que ignoram por entenderem ser imutáveis. As características associadas às escolas parecem fáceis de mudar, ao passo que aquelas associadas aos estudantes parecem menos susceptíveis à modificação. Todavia, a falácia dessa forma de pensar é que, se apenas uma pequena proporção da variância é associada com as escolas e uma grande quantidade com os estudantes, mudanças nas escolas, não importando o quão eficazes sejam, produziriam apenas pequenos efeitos. Por outro lado, os estudiosos que advogam a importância da instrução têm ampliado sua concepção para sugerir que qualquer um pode aprender qualquer coisa com suficiente prática deliberada. Interessante é que essa afirmação é verdadeira apenas se a contribuição das características dos estudantes seja ignorada.
Outra razão para que as diferenças entre os estudantes sejam ignoradas é a forte tradição da igualdade que permeia a sociedade ocidental, aqui incluindo, em particular, o sistema educacional brasileiro. O que usualmente significamos é igualdade entre a lei, mas muitos interpretam igualdade identificando que todas as pessoas sejam iguais. Se há alguma coisa que, nos últimos cem anos das pesquisas em Ciências Sociais, nos tem sido ensinado é que cada pessoa é uma combinação individual de genes e experiências. Que cada pessoa é única e jamais igual a outra em sentido matemático.
Este problema de omitir variáveis importantes cria, em geral, dois outros grandes problemas correlatos: primeiro emerge a questão da credibilidade que todas as pesquisas educacionais e, segundo, de um ponto de vista aplicado, conduz à intervenções ou políticas públicas em programas educacionais que são improváveis de produzir os efeitos educacionais desejados.