Microcefalia, volume cerebral e diferenças de inteligência

Microcefalia, volume cerebral e diferenças de inteligência

        Ao longo dos últimos dias, tem sido divulgado na grande imprensa um impressionante número de casos suspeitos de microcefalia no Brasil. Em adição, discutem-se as implicações médico-psicológicas e sócio-econômicas destes casos. Sabe-se que crianças nascidas com o cérebro diminuído terão grandes prejuízos sensoriais, motores e cognitivos certamente. Dentre os cognitivos, é certo o prejuízo na inteligência geral dessas crianças, usualmente mensurada por testes de QI verbal e de desempenho. Isso torna relevante comentar aqui estudos recentes que têm investigado as associações entre inteligência humana e o volume do cérebro “in vivo”, usando as modernas técnicas não invasivas como, por exemplo, a ressonância magnética funcional. Estudos com esse propósito iniciaram-se há mais de 150 anos, quando, então, em 1836, o fisiologista e anatomista alemão Friedrich Tiedemann escreveu “Há, sem dúvida, uma íntima conexão entre  tamanho absoluto do cérebro e o poder e função intelectuais da mente”. Desde então, centenas de estudos têm sistematicamente analisado quão robustas são essas associações e o que elas significam.

          Numa dessas análises, recentemente publicada na revista Neuroscience and Biobehavioral Reviews (2015, 57: 411-432,) identificou-se 88 estudos que envolveram mais de 8000 indivíduos. Os resultados desses estudos mostraram uma associação positiva significativa entre volume cerebral e QI (r=0,24) que generaliza-se para idade, crianças versus adultos, domínio do QI (QI geral, de desempenho e verbal e sexo) e sexo. Esses resultados levantam vários pontos de interesse: 1º) volume cerebral, pois positivamente associado com qualquer domínio da inteligência investigada; 2º) padrão de resultado que não parece ser afetado pela idade e sexo dos participantes; 3º) tamanho do cérebro refletindo, provavelmente, o número de neurônios, sendo um dos fatores neuronais associados a diferenças individuais na inteligência, em adição às redes neuronais parieto-frontais, eficiência neuronal, integridade da substância branca, girificação cortical, estabilidade evolutiva global entre outros.

          Em conjunto, esses fatores parecem influenciar a inteligência intercambiavelmente, levando a uma heterogeneidade de quanto cada um desses fatores desempenham papéis no nível de QI de cada indivíduo. Retornando, então, à microcefalia, entendemos que, fruto das hipóteses levantadas nessas análises, a inteligência, mensurada por testes de QI, das crianças diagnosticadas com tal, provavelmente estará comprometida, motivo pelo qual é dever do governo constituir um grupo de acompanhamento em que diversas dimensões das funções sensoriais, motoras, comportamentais, afetivas e, principalmente, cognitivas, fossem monitoradas desde o nascimento. Caso contrário, as seqüelas cognitivas desses casos serão irreversíveis

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