QI é importante, mas não sinônimo de excelência humana
Postado em 16 de Abril de 2014 às 15:04 na categoria inteligência humana
Que a palavra inteligência descreve alguma coisa real, que varia de pessoa para pessoa, é tão universal e antigo quanto qualquer entendimento acerca da natureza do ser humano. Culturas variadas, em qualquer lugar, ao longo da história, têm tido palavras para dizer que algumas pessoas são mais brilhantes que outras. Dado o valor de sobrevivência da inteligência, tal conceito ainda deve ser mais velho do que isso.
Contudo, nos últimos quarenta anos, o conceito de inteligência tem sido um pária no mundo das ideias. A tentativa para medi-la com testes tem sido variadamente criticada como um artefato de racismo, ação política, manipulação estatística e até de fraude acadêmica. Não obstante, inteligência é um construto razoavelmente bem compreendido, mensurado com acurácia e confiabilidade por qualquer número de testes mentais padronizados. Como consequência, medidas de inteligência têm revelado confiáveis relações estatísticas com vários e importantes fenômenos sociais, mas, tais medidas são, ainda, uma ferramenta limitada para decidir o que fazer de qualquer indivíduo. Em outras palavras, um dos problemas de escrever sobre inteligência é lembrar às pessoas o quão pouco um escore de QI nos diz de um ser humano ao nosso lado, ou seja, se este é uma pessoa a quem você deve admirar ou acalentar.
Portanto, ainda que inteligência seja um conceito que ocupa um dos lugares mais elevados no panteão das ciências humanas, talvez muito mais do que ele, realmente, mereça, ele não é sinônimo de excelência humana. O problema com o QI é que, ao longo dos últimos anos, ele tem sido responsável pela emergência de uma elite cognitiva. Explico: o século XX amanheceu no mundo segregado de classes sociais definidas em termos de dinheiro, poder e status. As linhas de separação antigas, baseadas em categorias hereditárias, foram sendo apagadas e substituídas por um conjunto de linhas mais mistas e complicadas. A posição social ainda desempenhava um papel principal, a despeito de estar menos frequentemente acompanhada por uma espada ou tiara, sendo crescentemente substituída pelas credenciais educacionais e talento.
O século XX continuou a transformação, mas o século XXI está abrindo um mundo no qual a habilidade cognitiva é a força divisória decisiva. Um mundo em que a habilidade cognitiva é a força divisória decisiva. A classe social permanece o veículo da vida social, mas a inteligência, agora, é o que puxa o trem.
A estratificação cognitiva toma diferentes formas no topo e na base da escala da inteligência. As sociedades modernas identificam os jovens mais brilhantes e guia-os com crescente eficiência por canais educacionais e ocupacionais estreitos, os quais são progressivamente influentes e lucrativos, levando ao desenvolvimento de um segmento distinto na hierarquia social, que pode ser rotulada Elite Cognitiva. O isolamento dos mais brilhantes do restante da sociedade já é um extremo; as forças impulsionando este isolamento tornam-se cada vez mais fortes, com os governos podendo influenciar essas forças, mas não neutralizá-las. Isto não significa que um membro da elite cognitiva nunca cruze caminhos com pessoas de baixo QI, mas, sim, que, os encontros significativos com essas tendem a ser limitados.
Quanto mais íntimas e duradouras as relações humanas forem, mais provável destas ocorrerem em nível intelectual similar. A identificação dos mais brilhantes tem seus benefícios. Já o fato deles cada vez mais isolados tem seus custos. Alguns desses custos já são visíveis na sociedade, principalmente no ambiente escolástico e no de trabalho. Além disso, outros já começam a se divisar no horizonte. Cumpre lembrar, entretanto, que a estratificação social, bem como, a formação de uma elite cognitiva baseada na inteligência, baseadas em escores de inteligência nada nos diz sobre a excelência humana, aqui entendida pelo conjunto que reúne bondade, caráter, honra, respeito, integridade, honestidade e afins.