Chute no muro
Era o dia mais bonito daquele longo inverno. Dia que mostrava o início da primavera. Inverno de dias cinzentos, com árvores com as copas a mostra, e o chão marrom. O inverno mais longo. Foram seis anos.
Helmut Sparwasser havia recebido a notícia da rendição alemã no momento que acordou. O sentinela lhe gritou que o comandante cometera suicídio, para não depender da boa vontade dos vermelhos, que ele sabia, que passavam pelas cidades vencidas com o ódio do ser mais bárbaro da face da Terra.
O soldado alemão não se sentia um derrotado, pois não defendia o regime que acabará de terminar. Porém, ele também não era dos mais políticos. Até se sentia feliz, já que lembrava que poderia voltar para casa e ver sua frau Sparwasser.
Ingrid era uma mulher com estatura baixa, mas muito bonita, com seus cabelos dourados, puxados ao vermelho, olhos verdes, e lábios finos.
O casal não era muito velho. Ambos tinham 22 anos de idade. Moravam em Berlim, próximo a Pankow.
Enquanto as esperanças tomavam o rapaz, um barulho estoura atrás do muro que ele se refugiava. Helmut, despreocupado com o inimigo, afinal, ele não existe mais, vai espiar o que era.
Ele atravessa a batente, escuta alguém gritar “niet!”, e o estrondo de uma bala. De repente, um clarão, e Helmut caiu.
O soldado soviético atirou perto do olho esquerdo de Sparwasser, e só.
Sparwasser não morreu, voltou para os braços de Ingrid. Mas com sequelas, como a parda da audição do ouvido esquerdo e flashbacks que o atormentavam constantemente.
Entretanto, isso não impediu que três anos depois, frau Sparwasser engravidasse. Nasceu Jürgen.
Mas a situação de Helmut se agravava a cada ano. Ele era tomado de alucinações constantes, e só controladas com morfina, fornecida por um cidadão norte-americano chamado Jack Colvin.
Helmut se viciou com a droga. Não conseguia mais viver sem, já que quando não a tinha, ele delirava. A situação em casa se tornava insuportável, e Jürgen crescendo, chegando aos cinco anos de idade.
Antes que Ingrid tomasse alguma decisão, Helmut foi embora de casa, sem dar qualquer aviso a família.
Na hora de partir, durante a madrugada, ele passou a mão no cabelo da mulher e um beijo no filho. A criança acordou, e pediu um copo de água, que o pai logo serviu, pela última vez.
Sete anos se passaram. Um dia, Jürgen, depois da escola, foi para a biblioteca pegar alguns livros para estudar.
Enquanto assinava a ficha junto com a bibliotecária, saia do prédio um homem que lhe parecia familiar. O homem voltou, parecia ser o faxineiro, pois carregava uma vassoura, e ficou bem de frente dele, que continuou encarando.
Jürgen voltou na semana seguinte para devolver os livros e pegar novos. E novamente ficou observando o faxineiro.
O garoto se espantou. Pôs na cabeça que aquele era o seu pai.
Ao invés de voltar para casa, ele ficou a até o fim da tarde, quando acabou o expediente do faxineiro.
Assim que o homem saiu, Jürgen o parou.
Eles se encararam. Observaram-se. Choraram.
O faxineiro era Helmut. Jürgen sabia.
Durante aquele ano inteiro, Jürgen saia da escola e ia para a biblioteca para fazer companhia do pai, mesmo em silêncio, para não atrapalhar os outros leitores.
Até que chegou 13 de agosto de 1961.
Jürgen fez o caminho de sempre. Não. Quase. Parou a três quadras da biblioteca. Tinha um muro no meio do caminho, e ele estava do lado leste.
A revolta tomou o garoto. Mas ele continuava indo até lá todos os dias com a esperança de rever o pai.
Para passar o tempo ele levava os livros, que ele não podia mais devolver, mas quando ele já estava cansado de lê-los, levou uma bola de futebol, com a qual ele descarregava toda a raiva contra a parede.
A década passou. Jürgen virou jogador de futebol.
Os anos 1970 tiveram início. Jürgen recebeu a triste notícia de um câncer de sua mãe.
Ela lutou por quatro anos pela vida. Mas em 1974, não aguentou mais.
Era fevereiro, e horas depois do enterro de Ingrid, o rapaz recebe a ordem de se dirigir até o estádio do Dynamo, local que também funcionava o ministério dos esportes da Alemanha Oriental, e a federação de futebol do país.
O técnico Michael Schaffer, informou que Jürgen estava convocado para a Copa do Mundo, realizada na Alemanha, mas do lado ocidental.
E por força do destino e do sorteio da Fifa, eles enfrentariam os irmãos donos da casa.
Os meses passaram, a Copa chegou, mas a data esperada era 22 de junho. A cidade era Hamburgo.
Alemães, ocidentais e orientais, capitalistas e comunistas, alemães. Unidos, pelo menos naqueles 90 minutos, dentro do Estádio Volksparkstadium.
A pressão dos dirigentes comunistas era aquele jogo. Era questão de honra, para propagandear o regime, vencer a partida.
Do lado ocidental, de Maier, Vogts, Beckenbauer e Müller, que depois se sairiam campeões, aquele jogo poderia definir quem ficaria no grupo de Brasil, então campeão, e Holanda, que revolucionava o futebol.
No jogo, a força e talento dos craques do Bayern de Munique era notável. O goleiro oriental, Croy, ia se segurando do jeito que dava.
Até que em uma defesa, o arqueiro segura a bola. Lança com as mãos para o meia Lowe, que puxa contra-ataque pelo lado direito do campo.
O jogador decide fazer um lançamento na área. Lá, estava Sparwasser, marcado por perto por Vogts, que dias depois seria implacável para o gênio holandês Cruyff.
A bola viaja com força, Vogts se aproximava de Jürgen como coiote chega em Papa-Léguas. De forma surpreendente, Sparwasser mata a bola de cara. Sim, não foi de cabeça. Foi de cara.
Com esse movimento, consegue fazer o domínio dela, e aparecer de frente com Maier, menos tirar Vogts da cola. Sem tempo para nada, além do chute, fecha os olhos, levanta a perna direita e a projeta para a finalização.
Estrondo. Mas ao contrário do barulho da bala que o pai escutou 29 anos antes, era o som do barbante estufando. Gol.
Jürgen corre. Os companheiros vão junto. Ele chega próximo a linha lateral, olha para a arquibancada, por uma fração de segundo, ele pensa ter visto Helmut. Os outros jogadores do time pulam em cima. Jürgen cai de joelhos e chora.
Nos minutos finais do jogo, novamente os donos da casa fazem pressão, mas Croy consegue segurar.
O juiz apita. Jornalistas e fotógrafos invadem o campo. Todos para cima de Jürgen. Os companheiros também vão para cumprimentar ele.
Sparwasser levanta as mãos, pedindo licença. Corre para lateral que desabou instantes antes. Olha de novo. E realmente, Helmut estava lá. O jogador corre em direção ao pai, e pula o alambrado, da maneira que ele sempre sonhou em pular o muro que separava Berlim.