O quinto poder

O quinto poder

Neste ano derradeiro do curso de jornalismo, os professores voltaram a tocar em um assunto abordado na grade do terceiro semestre: a ética na profissão. Entre os temas mais discutidos está a publicação ou não de uma determinada notícia ou opinião, mais especificamente as charges, tomando como referência o atentado ao Charlie Hebdo.

Acredito que isso é um assunto ultrapassado. Quando se debate sobre o impacto da notícia no receptor, nós jornalistas, estudantes e professores, estamos sendo arrogantes e conservadores o suficiente para acreditar que as pessoas não tem capacidade de definir o certo e errado, o bonito e o feio e suas diversas variedades.

Há uma semana, dois militantes turcos invadiram o escritório de um promotor de justiça que cuidava do caso de um garoto assassinado em um protesto em Istambul, pelo simples fato de estar no lugar errado, e na hora errada.

A história toda se desenrolou ao longo do dia e tudo transmitido instantaneamente pela internet, inclusive a morte dos três principais envolvidos pela polícia local.

Ou seja, tudo está na internet, as pessoas têm o poder de ir lá buscar o que elas querem. A discussão de ter de publicar seja lá o que for é tão velha quanto discutir o salvamento do jornal. É como debater o sexo dos anjos.

E a trama de O quinto poder, de Bill Condon, toca nesse assunto: Até onde podemos ir?

Tanto que foi o motivo da discussão de Daniel Berg, interpretado pelo ótimo ator Daniel Bruhl, que embora tenha nome alemão é espanhol, mas desenrolou boa parte da carreira na Alemanha, e agora está nas produções internacionais, com Julian Assange, que ganha vida pelo também tão extraordinário Bennedict Cumberbatch.

A proposta do Wikileaks é justamente essa, dar a informação sem edição para as pessoas para elas próprias tomarem um partido e interpretarem da maneira que elas acreditam a mais correta, sem o filtro ideológico do jornalista, ou pior, da empresa jornalística.

Estamos apenas no décimo quinto ano deste século, que teve um baque logo no primeiro ano, ao contrário do século XX que acordou para a realidade apenas no início da Primeira Guerra Mundial. As coisas mudaram rápido, mas as pessoas (lê-se jornalistas) ainda mantém a mentalidade das décadas passadas.

O jornalismo de hoje não suporta mais o aparelhamento que tanto glamour deu a profissão na metade do século passado. Como o filme mostra, e outros exemplos que vemos, por exemplo, o comunicador está cada vez mais solitário e em contato com um mundo maior, podendo bater de frente com governos e grandes empresas.

A questão não é mais “publicar ou não publicar, eis a questão?”, é “Publicar? Mas já está lá”. O mundo passa por um processo de transmissão da vida real para a virtual, é uma hibridização. O papel do jornalista é fazer o próprio trabalho da maneira mais discreta para poder fazer o maior barulho.

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