Pondera, Pondé

Pondera, Pondé

A semana inicia com um artigo publicado pelo filósofo, professor e colunista da Folha de S. Paulo (FSP), Luiz Felipe Pondé cujo titulo “Bonecas de quatro” me chamou atenção.

Os textos de Pondé são provocativos, o autor parece seguir em um livre fluxo de pensamentos, erra, acerta, é radical, chulo, às vezes genial. Muitas vezes paga o preço (mas na verdade ele ganha muito!) de viver e pensar em um país em que as pessoas estão se sentindo magoadas e ofendidas com palavras, digo, com a interpretação que elas fazem de palavras. Talvez por acharem que as palavras fazem efeito, e há razão nisso. Quase toda crítica que vejo de Pondé passa por alguns “pacotes de ideias prontas” como o Pondé é machista, preconceituoso, prega a intolerância,  é um cara muito superficial para ser professor da PUC e filósofo... e por aí vai.

Os textos de Luiz Felipe na FSP como um todo não representam uma grande obra e sim um exercício de pensamento e provocação. Em conversa pessoal com o autor (um sujeito extremamente gentil) Luiz me dizia, e também falou isso algumas vezes publicamente, que é contratado da Folha para “aumentar a temperatura do jornal” e não em criar grandes obras sobre filosofia. Luiz Felipe estuda, e todas as obscenidades e loucuras que ele coloca no papel estão apoiadas sob ombros de gigantes como Freud, Nietsche e toda uma turma, que eu pouco conheço.

É quando Pondé fala de movimento feminista e caricaturiza as feministas é que a porca torce o rabo. Aliás, ele critica quase todo tipo de movimento para um mundo melhor.

Nesta semana (quarta feira, dia 12/6/13) Luiz Felipe Pondé veio a Ribeirão Preto falar na Semana Internacional do Livro. Alguns dias antes, a Frente Feminista de Ribeirão Preto organizou pelo Facebook um protesto chamado “Ato de repúdio à posição machista e intolerante do colunista Luiz Felipe Pondé!”. Logo abaixo da descrição do evento: “Vamos às ruas para nos manifestar pacificamente contra a postura irresponsável deste jornalista, que incentiva a discriminação e violência de gênero contra as mulheres. A concentração acontecerá na frente do Teatro Dom Pedro II, às 13horas!! Levem seus cartazes, de preferência com frases relacionadas aos absurdos mencionados no artigo. Levem também bonecas e brinquedos infantis considerados de gênero.”  

Eu tinha acabado de ler o texto de Pondé e recebi o convite para participar deste “ato de repúdio”. Logo pensei, acho que devo trocar meus óculos, pois não tinha visto nada que chegasse perto de machismo ou intolerância no texto do autor. Mas como já sabemos cada um lê o que quer, não é?

Resolvi então, sugerir aos participantes do “Ato” que, em vez de fazerem uma manifestação “para a mídia ver” com cartazes e bonecas, que tentassem deixar o Pondé de saia justa com argumentos e perguntas. O resultado deste meu comentário foi mais de 60 respostas e gente me chamando de ignorante. Eu morri de rir.  Mas também uma discussão interessante sobre a temática do mundo feminino. Fiz algumas novas amizades com algumas pessoas que estão mais a par deste movimento e que não gostam nada do Pondé e do que ele diz. Enfim, o “ato” aconteceu, saiu no jornal FSP e tudo bem!

O ponto que quero colocar para vocês é o seguinte: em todos estes movimentos, que Pondé critica, há pessoas muito inteligentes e cultas, mas que caem em um erro. Defender uma causa e pressupor que o mundo vai melhorar porque você quer assim e formarem uma espécie de instituição religiosa que, paradoxalmente, ao defender posições libertárias e emancipatórias, favorecem uma adesividade violenta à outros preconceitos igualmente restritivos e perigosos. E isso acontece de maneira inconsciente. Por mais que estes movimentos tenham pessoas sérias e inteligentes (e eu sei que tem!) que estão na verdade defendendo de maneira ampla uma maior liberdade e igualdade de direitos e condições, esta formação de grupos, movimentos de defesa de causas traz esse viés: de no final das contas criar exatamente o que se propôs a combater. Isso aconteceu por exemplo no movimento psicanalítico que historicamente enfrenta este problema, tanto em sua estrutura institucional quanto na sua estrutura de formação de novos profissionais.

Penso que o mundo mudou quando eu quis apenas quando tive entre dois dias e 3 meses de idades, e eu chorava e berrava. Mas não quero desmerecer quem se manifesta, aliás, vejo que são jovens fazendo o que devem fazer mesmo. 

Agora, pedir parcimônia para Luiz Felipe já é demais. O Pondé não pondera. Pelo menos não na Folha de São Paulo.        

 

 

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