62

Cheguei aos 62 anos, não vejo nada de novo, vi o que vi, o que sempre vi. Minhas retinas sedentas pelo novo nunca ocultam o meu senso crítico: os homens insistem em não mudar.

Sou da geração das grandes distopias; o homem de calças curtas, ideias curtas, fala mansa, espada longa, inteligência de dinssauro, postura de brontosauro. Homenzinho inho. Aquele capaz de ajoelhar-se sobre o pesçoco de um preto, sufocando-o até matá-lo; matar um gay por nada, a não ser que tenha inveja daquele que teve coragem de dizer o que é, o que sempre foi e sempre será. Ele, o assassino troglodita, sabe o que é e nunca admitirá.

Sou da época do despertador, criado para despertar a dor dos homens do sono eterno, porém eles insistem em nunca acordar. São os "idiotas da obviedade", diria Nelson Rodrigues.

Depois de respirarem inseticida, reclamarem sobre o preço da gasolina, brigarem pelo preço das passagens de ônibus, os de sono eterno voltaram para casa para tirar selfies ou mexerem burramente no controle da tevê. São os homens "streaming": coletivo de solidão.

A grande distopia do século XXI: a mesmice. Os homens insistem em não mudar; insistem em reclamar. Elegem o idiota, que a todo custo agora querem arrancar em que o puseram.

Pertencemos à era da reclamação, da culpa do outro que deveria fazer e não faz, do que bate com o peso da sua caneta, por quatro anos, na cabeça dos adversários e dos correligionários. Brutos ditadores não conhecem cabeças, alimentam-se dos facilmente enganáveis por palavras toscas.

Nasci brigando por gente que crê em gente. Odeio ditaduras sejam quais forem. Não sou de esquerda, nem direita, nem de centro. Sempre pense or minha conta e risco, detesto gurus.

As pessoas sabem da seca, vivem a seca, reclamam da seca, não se abraçam, secos; sabem de onde vem a secura, a coriza descendo, fungando. No dia do meu aniversário, pedi aos meus amigos que queriam me dar um presente, que plantassem uma árvore e me enviassem a foto: minha contribuição à vida. Tomara que nelas pousem abelhas, façam colmeias. Alguém precisa gerar e espalhar vida.

Aos 62 anos, sou capaz de criar, de não me desesperar e também de me indignar. Sei que sou muito maior do que o meu tamanho.

Não estou me vangloriando. Sei disso, porque sempre defendi que ninguém nasceu para ficar pequeno (depende de como crescer). Sou educador e também provocador. Poderia parar por aí. Ajudei a formar professores e alunos. Tenho poucos, mas sinceros amigos. Se tenho inimigos, isso é problema deles e não meu. Tenho uma família linda e, criando empregos, ajudo famílias a se sustenarem e prosperarem.

Cheguei aos 62 anos.

Sou feliz.

Cometi incontáveis erros, mas aprendi a aprender.

Estou irrequieto como sempre.

 

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Blog Homem das Letras

Luiz Cláudio Jubilato
Por Luiz Cláudio Jubilato Professor de Língua Portuguesa, Redação e empresário , e-mail:[email protected]
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