NEBLINA

NEBLINA

NEBLINA
(Autor desconhecido de um livro que nunca será publicado)
Vida é fumaça, você a toca; ela se esvai. E machuca. E sufoca. E se fixa ao alcançar dos olhos. A ardência não permite não comandar os dedos. Eterna frustração: poder ver sem poder possuir.
Vida é neblina, sufoca a visão, mata o passado, rouba o presente, não permite vislumbrar os contornos do futuro. Primeiro se vão os olhos, depois a boca, os traços viram garatujas até a borracha do tempo desmanchar o passado para o lápis escrever traços de presente e acender profecias evitar os erros que, para alguns, foram acertos no futuro. Dialética entranhada na carne.
A vida é constante eterno fugir: peixe no oceano; fuga do arpão; fuga da fome; fuga das mãos. A vida é um "eu". Nunca serei lembrado pelos meus feitos e sim pelos meus desfeitos. E também para que serve lembrança? Não aprendemos com o passado. Se a memória já se foi, ocupa espaço vazio: os que já almoção e jantam sem culpa a dispensam. Não serviremos como molde para o presente. Ainda bem! Muito menos como fornalha para o futuro: Camaleão. Lagarta, Larva. Raposa. Cobra. Escorpião. Luz. Escuridão.
Vida é eterno levar poeira ou mera transição. Não. Vida não é um viver atrás de uma mesa, assistindo aos segundos, aos minutos, aos dias, sos meses, aos anos transitarem em desabalada carreira. Talvez cultivar rugas, cabelos brancos, calvície, hortaliças, flores no jardim. Orgulhar-se dos movimentos contidos, enganar-se com a falta do não sei o que.
Vida é eterno risco de cair, de quebrar a perna, de não poder se levantar, não ter o poder de andar, de sofrer com a música, de virar contradições: chorar de felicidade, viver da morte, enriquecer com a guerra, perder a imaginação, não acabar o poema por falta de rima.
Coitados os que não sabem que não sabem. A ignorância não é bênção, nem privilégio. É projeto para fazer-nos dançar sobre cadáveres insepultos, de nos orgulharmos de não ser ninguém. O poder projeta fumaça, projeta neblina, é objeto, é dejeto. Dizem que temos a obrigação de viver, instinto de autopreservação da espécie. Que espécie de gente? Que espécie de demente? Que espécie de inconsequente? Que espécie de incompetente. E o que é a vitória? O que é a lucidez? O bolso do outro? O corpo do outro? A insignificância do outro?
Diz o pregador: "Todos somos filhos de Deus". Quanto vale o consolo? Deus tem humor ácido: testemunha a todo momento sua criação, o seu uso, a barganha para evitar a falência, a súplica para destruir um "não". Deus tem um humor ácido: há os que promovem guerras em seu nome; há os que promovem a ilusão; há os que creem traduzem a sua fala, o seu poder, o seu chantagear e o seu querer. Muitos de joelhos esfoladosm jurando ter fé.
A vida é um suceder de "hojes": Deus disse. Alguém viu e traduziu. Alguém com intimidade. Alguém que se esvai no manicômio do eternizar. A vida é um suceder de suicídios: ir-se apoderando da ignorância do renascer como outro, sem ter a essência do que se foi. É um suceder de "emboras", de "partidas", do tempo que passa, não come, degenera. Não volta.
Vida é neblina. Nasce cultivada noite. Amadurece com a manhã. Morre com o sol. Esfria. Enrijece. Desfaz-se. Aquece.
Pode ser uma imagem de neblina e natureza
 
 
 
Ver insights e anúncios
 
 
 
 

Compartilhar: