O HOMEM QUE NADA VÊ,

O HOMEM QUE NADA VÊ

Por que somos tão pessimistas em relação a esse momento? Será que é porque temos mais tempo para julgá-lo do que para vivê-lo?

Por que não acreditamos no futuro? Será que é porque temos o vício de repetir que todo jovem é mais alienado, ignorante do que fomos, quando éramos jovens? Será uma crise de autocomiseração ou autopunição?

Por que buscamos tantas definições para essa geração, enquadrá-la em algum conceito? Será que é porque somos como nossos pais?

Por que generalizamos tudo definindo “geração”? Será que é porque nunca tivemos o senso de observar individualidades?

Por que será que somos os que não veem, só definem? Será que é porque somos os que demonizam a tecnologia, a busca pelo dinheiro, mas nos esquecemos de que os hippies de outrora se tornaram os yuppies de agora?

Por que não entregamos um mundo “melhor” para os jovens? Será porque queremos nos eximir da culpa do mundo árido, estéril, que, segundo nossa falta de consciência, construímos?

Por que somos os que se entocam atrás de conceitos? Será que é porque apontar o dedo é mais fácil do que enfiá-lo?

 

Generalizo as perguntas, porque são sempre generalizantes as respostas, definitivas, intocáveis, repetidas à exaustão “em estudos e mais estudos e mais estudos” sobre essa geração. Em cada aula, em cada repreensão, em cada post, em cada artigo, em cada livro um estudioso se arvora de “entendedor” do mundo atual, do pensamento e do comportamento dessa geração, mesmo vivendo nele, sem olhar para o próprio umbigo. Não foram os jovens os criadores da “Modernidade líquida”, da “Geração mimi”, da “Geração muda”, da “Geração Z”, da “Geração dos dedos frenéticos”...

O Bolero de Ravel, O poema de Drummond (No meio do caminho tinha uma pedra) foram consideradas excrescências e hoje são consideradas duas das maiores obras de arte da história. Destruíram a reputação desses homens, que hoje são chamados de gênios, imortais. O novo assusta, o passado é melhor, romantizado. Um olhar, na sua maneira, tão vesgo quanto o nosso, afinal o passado é idealizado.

Minha “geração” não entregou um mundo “melhor” para os jovens de hoje, ao contrário, vem destruindo sua autoestima consideravelmente, como a do meu pai fez com a minha e a do meu avô fez com a dele, como a do meu bisavô fez com a do meu avô. Citamos Darwin, mas nos esquecemos de Darwin: “Sobrevivem os que melhor se adaptam ao meio”. Sobrevivemos repetindo comportamentos, como “desancar” os jovens, ao invés de desafiá-los a não cometerem os “erros” que cometemos.

Escrevo isso, porque ontem, dentro da sala de aula, uma jovem me disse que não acredita nos jovens, porque estão matando a torto e a direito. Será que “jovens” estão matando sem motivo? A quem interessa que acreditem nisso?

Não foi essa “geração” que arquitetou uma guerra mundial, muito menos as desgraças de Sabra e Chatila, muito menos Aleppo, muito menos os cartéis de drogas do México e da Colômbia, muito menos o politicamente correto.

Uma dúvida: O que define uma geração? O espaço de mais ou menos 25 anos? Ou o espaço de tempo entre um pai e um filho? Ou um clique? Ah! Bom; “Somos tão jovens! Tão jovens! Tão jovens”...

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Luiz Cláudio Jubilato
Por Luiz Cláudio Jubilato Professor de Língua Portuguesa, Redação e empresário , e-mail: criarvest@uol.com.br
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