Vidas roubadas
O título acima faz alusão ao filme “A Menina que roubava livros”, baseado em um best-seller de Markus Zusak que fez sucesso no mundo inteiro. No Brasil, o livro vendeu mais de dois milhões de exemplares e permaneceu na lista dos mais vendidos por 100 semanas. Não há nada de excepcional na produção que conta a história de uma menina que vai descobrindo o mundo através dos livros. Como a maioria das obras são proibidas e queimadas pela feroz repressão nazista, a menina surrupia livros para ler escondida. Essa é uma história comum, já contada muitas vezes pelo cinema, exceto por um detalhe intrigante, introduzido pelo diretor Brian Percival: a narradora, em um tom doce e suave, que aparece em vários momentos, sobrevoando as nuvens, do começo ao fim, é ninguém mais e ninguém menos do que a macabra morte, apresentada no filme com certa dose de candura.
Esse artifício usado pelo diretor, surpreende o espectador que, logo no início, sente-se instigado a refletir sobre quem seria esse misterioso narrador que possui personalidade, voz e se atreve a ironizar a dramaticidade da vida alheia. De uma maneira sutil, quase divertida, esse demiurgo emissário vai descrevendo a forma como nos espreita até o fatídico encontro final. Do andar de cima, a temível senhora assiste de camarote ao filme de nossas vidas, que nunca foge de um roteiro nada original e previsível: começo, meio e o temido fim. Fica quase impossível não prestar atenção a uma envolvente história narrada pela morte. Com uma calma perturbadora, ela conta que encontra alguns súditos de maneira suave, às vezes, de forma indolor, quando estão dormindo. Já o descambar da aurora de outros ocorre de forma traumática, naquele assustador estilo de ceifadora de almas.
Esse é o ponto mais interessante desse filme que não está entre os indicados ao Óscar: a abordagem final sobre as vidas roubadas. A metáfora do cinema nunca foi tão real. Até a morte deve andar perplexa diante da extensão da barbárie humana. Para fazer essa constatação, basta trocar a tela do cinema pela da TV. Aí você verá jovens integrantes de uma seita violenta protestando com artefatos de guerra. Os inimigos são todos aqueles que estão nas proximidades até mesmo um cinegrafista, de 49 anos, pai de quatro filhos, que esteja apenas trabalhando para tornar pública a manifestação. Lá do alto, pensativa, na antessala que separa o céu do inferno, enquanto os rojões e as balas vão explodindo, a morte deve ter ficado horrorizada com a selvageria gratuita de uma galera para a qual a vida humana não vale nada. São grupos de vândalos armados com uma assustadora vontade de matar e de destruir o que encontram pela frente.
A vida de um jornalista não vale mais do que nenhuma outra. Todas as mortes, criminosas que acontecem corriqueiramente no Brasil, são chocantes e fazem parte de um contexto violento que denuncia a incapacidade do Estado em prover a segurança. Embora isso não seja mais novidade, isso vale para a execução de presos no Complexo de Pedrinhas no Maranhão e os crimes cometidos por traficantes nos morros cariocas. Contudo, o assassinato do cinegrafista Santiago Andrade tem componente a mais de gravidade. Além de ser uma morte absurda, também atenta contra o direito à informação. É como se os grupos violentos estivessem mandando um recado à nação: “quem vier nos filmar, vai morrer”. Estamos diante de uma ditadura do horror e do medo que a legião de Hitler implantou na Alemanha no século XX. Assim, a insanidade humana está bem apresentada tanto no filme da “Menina que roubava livros” como nas diárias imagens dos “Black Blocs que roubam vidas”.