Amuletos da solidão

Amuletos da solidão

O mundo ainda nem sonhava com as redes sociais, os bebês reborn soariam como inimaginável obra de ficção científica e os pets ainda não eram membros natos da família quando o pernambucano Alceu Valença, com raízes no sertão nordestino, escreveu a música “Solidão”. Com a voz pausada e a melodia suave, a letra do cantor faz uma reflexão introspectiva sobre essa sensação devastadora que, em algum momento da vida, acomete os seres humanos, descrevendo essa reclusão como uma entidade viva, amarrada a passagem do tempo e a frieza das horas. No dia a dia dos solitários, a temida senhora se torna a mais indesejável das companheiras. “A solidão é fera, a solidão devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo, e faz nossos relógios caminharem lentos, causando um descompasso no meu coração.”

 

Psicólogos, psiquiatras e especialistas na alma humana esclarecem que não se pode confundir a solidão com o número de pessoas que estão ao redor. Mesmo quem é casado, tem uma família numerosa e uma porção de pessoas conhecidas no entorno, ainda assim, lá no fundo da sua alma inquieta, poderá ser uma pessoa solitária. Na versão mais desesperadora e extrema, esse isolamento brutal pode levar até ao suicídio. Os que acreditam na evolução da nossa espécie classificam os humanos como seres gregários, mas na verdade somos empurrados a tentar escapar da profunda sensação de vazio que a solidão provoca. No fundo, trata-se de um pré-requisito para a sobrevivência, para a prosperidade e para o bem-estar social. Tanto o bando da pré-história ou o grupo da modernidade tem a mesma função de nos proteger do isolamento, da solitude que em algum momento a angústia das horas nos provoca. 

 

De uns tempos para cá, parece que o mundo vivencia uma epidemia solitária e as pessoas apelaram para os mais variados amuletos para alcançar conforto, aumentar a sensação de segurança e afastar os fantasmas que a solidão provoca. Eis que surgiram os bebês reborn, os renascidos que no entendimento distorcido servem como um refúgio para a solidão. O apego exagerado ao boneco que parece hiper-real pode significar um sinal de alerta sobre o possível abalo do equilíbrio emocional, dependendo de como  são incorporados à vida real. Ao mesmo tempo em que podem acalmar o espírito, revelam um certo grau de isolamento ou de dificuldade para enfrentar a realidade.

 

Outro contraponto dos solitários são as redes sociais e os sites de relacionamento pessoal que hoje fazem parte das interações das pessoas que recorrem à internet para fugir do isolamento. Por mais paradoxal que pareça, estudos revelaram que tanto o uso passivo como ativo das redes sociais não são suficientes para atender as demandas de cada pessoa com a mesma qualidade das relações presenciais. Nesse panorama atual, também se observa que os pets estão ocupando um espaço cada vez maior no universo das relações afetivas. Difícil encontrar o equilíbrio entre os extremos das relações sólidas e da reclusão. Da mesma forma que a solidão não pode ser medida pelo número de pessoas que estão em volta, quem fica só consigo mesmo não pode ser considerado um ermitão solitário. Todo ser humano precisa de um tempo sozinho e ninguém vive de maneira plena se não tiver a si mesmo na lista dos melhores amigos. As amizades, as relações amorosas e os familiares complementam a complexidade de cada pessoa, com as incessantes buscas e encontros que fazem parte da essência de cada um.  

 

Alguém pode ser feliz sozinho? Se a solidão for entendida como a ausência de contatos significativos, o solitário certamente terá mais dificuldades para se livrar dessa sensação de isolamento, mas todos as pessoas precisam de um tempo reservado para si mesmo, para esse inevitável encontro com os próprios pensamentos. Até mesmo a mãe que se dedica de corpo e alma ao filho recém-nascido precisa abrir espaço para que a sua essência não seja sufocada. Freud dizia que as decisões bem pensadas, que ensejam descobertas e soluções, só são possíveis na experiência solitária. Nessa ambivalência costumeira, as horas solitárias podem ser as melhores ou as piores da vida, seja um alerta de algum problema de saúde física ou mental ou um período precioso para o autoconhecimento e a descoberta de si mesmo. Ninguém consegue ajudar o outro a ser feliz, se não tiver a satisfação de ser feliz consigo. Aquela matinal olhada no espelho não serve apenas para ver se está tudo ok com a aparência, mas também deve responder a intrigante pergunta se de fato eu consigo ser feliz comigo mesmo, se todos os dias fico contente com o que vejo diante do espelho. 

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