Caetano, Marcuse e o censor

Caetano, Marcuse e o censor

No dia 13 de dezembro de 1968, o Brasil viveu um dos dias mais sombrios da sua história. A ditadura militar que havia tomado o poder em 1964 editou o Ato Institucional número 5. O famoso AI 5 foi um marco de cerceamento da democracia com a cassação de políticos, perseguição de lideranças e a prisão sem ordem judicial. Quatorze dias depois da fatídica data, os militares prenderam o músico e compositor Caetano Veloso, em São Paulo, por volta das 5h. Gilberto Gil também foi preso na mesma data. Na época, Caetano Emanuel Viana Teles Veloso tinha 25 anos e já era um cantor conhecido pela participação nos festivais da TV. Os militares que o prenderam não revelaram o motivo da prisão e desdenhando do preso apenas disseram que seria levado para um “interrogatório”.

Em princípio, o músico achou que tudo se resolveria em poucas horas, mas viu a situação tomar outro rumo quando os militares pegaram a Via Dutra em direção ao Rio de Janeiro. No Rio, Caetano foi levado para algumas instalações militares até ser jogado numa cela solitária que nem cama tinha. Ficou muitos dias nessa condição. Por uma pequena abertura, os carcereiros jogavam as refeições muito ruins. Durante os dois meses em que esteve preso, não foi agredido ou torturado, embora tenha ouvido os gritos de sofrimento de outras pessoas. A tortura a que foi submetido foi psicológica com o longo isolamento, as condições precárias da prisão, o desconhecimento das acusações e a incerteza em relação à própria sobrevivência. Em vários momentos, chegou a pensar que seria executado. Às vezes em que precisava fazer alguma movimentação era vigiado por soldados armados. Certo dia, foi conduzido por uma rua sem movimento dentro do quartel e pensou que levaria um tiro pelas costas. Ficou aliviado ao descobrir que estava indo a um barbeiro e até ficou contente quando perdeu a sua longa cabeleira. Temia por algo pior.

Depois de muito tempo preso, finalmente um major fez o interrogatório e apresentou as razões da prisão. Um apresentador de televisão de São Paulo espalhou uma fake news. Disse no ar que Caetano Veloso e os Mutantes, em show no Rio de Janeiro, tinham cantado uma versão escrachada do hino nacional e desrespeitado a bandeira do país. Indicando o nome de testemunhas que estiveram no show, o músico provou ao oficial que isso não era verdade, mas por ordens superiores mesmo assim continuou preso. Nesse período, começou a ser observado por um militar que havia feito um treinamento antiguerrilha nos Estados Unidos e que conhecia em profundidade a obra de Caetano Veloso. Certo dia esse militar rompeu o silêncio. Ao contrário do que o governo militar pensava, disse que sabia que o problema não eram as canções de protesto e o desrespeito às instituições nacionais. A “subversão da ordem”, promovida pela nova geração de músicos, estava no cerne da Tropicália, o movimento que Caetano liderava inspirado em alguns pensadores como o sociólogo Hebert Marcuse. O movimento que contagiava a juventude do país contestava a repressão e defendia as liberdades individuais. Era a revolução cultural e dos costumes expressa na música de Caetano que o militar considerava perigosa e subversiva, mesmo que o alto escalão das forças armadas não tivesse essa percepção. Em silêncio, sem poder se manifestar para não se comprometer, o músico concordou com análise do oficial censor.

Depois de 54 dias no cárcere, Caetano e Gil foram soltos na Bahia. Essa história está contada no documentário Narciso em Férias lançado no final de 2020. Bem ao estilo intimista do cantor, o documentário dirigido pela sua esposa Paula Lavigne, sem imagens da época ou depoimento de outros personagens, registra a visão emotiva do músico sobre um período dolorido da sua vida. Quando estava na prisão, Caetano recebeu um exemplar da revista Manchete que trazia uma foto da Terra feita do espaço. Anos mais tarde, isso serviu de inspiração para a música Terra:

Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia

Foi que vi pela primeira vez as tais fotografias

Em que apareces inteira, porém lá não estava nua

E sim coberta de nuvens

Terra, Terra,

Por mais distante o errante navegante

Quem jamais te esqueceria?

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