Cancelaram o Cássio

Cancelaram o Cássio

Na era da internet, até as relações ficaram efêmeras e a longevidade vai ficando cada vez mais restrita. Para confirmar essa linha de raciocínio, basta analisar o que aconteceu com o goleiro Cássio, um dos últimos jogadores do futebol brasileiro que ainda tinha uma identificação com o clube e a torcida. Já faz algum tempo que os atletas são mercadorias descartadas com facilidade.  Fica difícil para quem acompanha o esporte, saber quem está jogando em que time. Garotos que ainda estão na base de clubes importantes são vendidos diretamente para o exterior, sem nunca terem vestido a camisa profissional do time que o revelou.
 

Cássio jogou 12 anos pelo Corinthians, fez 712 jogos, defendeu 32 pênaltis e protagonizou incontáveis defesas que garantiram os títulos mais importantes da história do clube: Mundial, Libertadores, Recopa Sul Americana, dois campeonatos nacionais e quatro paulistas. Bastaram algumas semanas de uma fase ruim para que essa história vitoriosa fosse esquecida e o goleiro virasse alvo de ofensas e de xingamentos na internet e fora dela. Reconhecido como um dos melhores da posição no país, Cássio nem era o principal culpado pela má fase da equipe. Faz tempo que o Corinthians não consegue montar um time competitivo para disputar títulos.
 

Mesmo com um contrato em vigor, Cássio foi desprestigiado e rapidamente despachado com endosso daqueles que vibraram com as vitórias que ajudou a conquistar. “Já deu para o Cássio, melhor ir embora”, comentaram alguns torcedores do Corinthians. Resignado, magoado e abatido psicologicamente com o nível das cobranças de parte da torcida, o goleiro, de 36 anos, pediu para sair e vai jogar no Cruzeiro. Em muitas circunstâncias que envolvem o amor e a paixão, o futebol, com a carga de irracionalidade que acompanha a emoção, se torna implacável até com os ídolos. De um dia para o outro, o passado escapa pelas mãos, as bases do presente se mostram frágeis e a mudança se impõe como algo necessário para continuar vivendo. Nem todas as histórias terminam com o final feliz, às vezes, a intolerância e a ingratidão transbordam rapidamente do digital para o real.  

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