Censura e liberdade

Censura e liberdade

Quem já conviveu com a censura imposta pela ditadura aprendeu a dar valor à liberdade. Talvez seja por isso que, justificadamente, qualquer restrição à opinião ou às manifestações artísticas provoquem tanta polêmica, ainda mais numa sociedade dividida e polarizada como a atual. Recentemente foi a proibição de um gibi na bienal do Rio de Janeiro que gerou grande alvoroço. Agora, a censura de um artigo de J.R. Guzzo, da revista Veja, reacendeu o debate sobre a censura. Ex-editor e há 23 anos na revista, o jornalista assinava um texto opinativo na última página. Sites e portais divulgaram que a revista teria censurado o artigo do jornalista sobre o Supremo Tribunal Federal (STF).

No texto que acabou divulgando na sua própria rede social, “A fila anda”, Guzzo afirma que “o STF deu um cavalo de pau nos seus deveres e, com isso, conseguiu promover a si próprio à condição de calamidade pública”. Em outro trecho, o colunista explicita que onze ministros formam a corte suprema, “e não podem ser demitidos nunca de seus cargos, nem que matem, fritem e comam a própria mãe no plenário. Só há uma maneira da população se livrar legalmente deles: esperar que completem 75 anos. Aí, em compensação, não podem ser salvos nem por seus próprios decretos. Têm de ir embora, no ato, e não podem voltar nunca mais.

Glória a Deus.” Mais adiante, assinalou que na base das 24 horas e de 365 dias a cada ano, um dia o tempo levará embora alguns ministros e citou nominalmente Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello. Entre o contraste das avaliações, a liberdade deve prevalecer sobre a censura para que o cidadão tire as próprias conclusões. Quem se exceder, responderá na Justiça. Na internet com frequência circulam notícias de supostos complôs e arranjos entre veículos de comunicação para omitir fraudes que estariam ocorrendo no país. Felizmente, para os brasileiros, embora isso seja possível, essa é uma realidade cada vez mais distante. A diversidade (pluralidade) de veículos e plataformas garante um fluxo de informação sem precedente na história, que não pode ser controlado por nenhum veículo de comunicação isoladamente. Invariavelmente, desde as primeiras horas do dia, as redes sociais escancaram o que ocorre no país. Já na época da ditadura, jornalistas compartilhavam matérias de interesse público que por ventura enfrentavam restrições das empresas para as quais trabalhavam. Felizmente, já passou o tempo em que uma única emissora detinha o “monopólio” da informação do país. A TV, inclusive, está perdendo a primazia de principal fonte de informação. 

O caso do ex-colunista da Veja comprova isso. Independentemente dos seus méritos ou dos deméritos, a revista exerceu o seu direito de não publicar um artigo que não estava de acordo com a sua linha editorial. Guzzo também tem o direito de não concordar com a censura e acabou saindo da publicação. À revelia da restrição da revista, a opinião pública tomou conhecimento do teor do artigo, pois Guzzo publicou o texto no seu twitter.

Recentemente, a Época demitiu os principais editores da revista por considerar inadequada uma reportagem que invadiu a vida particular da nora do presidente Jair Bolsonaro, casada com o seu filho Eduardo. A direção das organizações Globo entendeu que o artifício usado pelo autor da matéria — que se fez passar por cliente, sem comunicar a entrevistada, para obter informações — feriu a ética do jornalismo, uma vez que não havia nenhum interesse público na atividade profissional da nora de Bolsonaro. Tampouco havia alguma irregularidade a ser denunciada.  Assim, a matéria pendia para a fofoca e a intriga.

A liberdade de imprensa sobre a qual se assenta a atividade jornalística invoca questões inerentes à filosofia. A liberdade, o bem precioso de uma democracia, se estabelece entre os marcos de uma sociedade, sejam eles democráticos ou autoritários. Todo o sistema possui seus limites, venha a ser ele um regime capitalista, socialista ou qualquer outra forma de organização política. A liberdade plena não existe ou não passa de uma abstração, pois o postulado da verdade será sempre subjetivo. O que existe são versões dos fatos que o cidadão interpreta e reproduz de acordo com sua ideologia, valores, princípios educativos e até do conteúdo do DNA. Quem pode sair dizendo tudo o que pensa, a verdade sem meias palavras sobre a sogra, o cunhado (a), os parentes próximos, os amigos, o chefe e o dono da empresa em que trabalha? De forma simples, o ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, costumava dizer que o mundo e a política eram regidos pelos “interesses”. De certa forma, essa visão popular de uma questão tão complexa continua valendo para os indivíduos, para as empresas, os governos e os veículos de comunicação. O que nos aproxima dessa verdade subjetiva é a diversidade que apresenta diferentes narrativas para um mesmo fato. O julgamento e o veredito dependem de cada interpretação. Quem tem razão? Guzzo ou a revista? O jornalista exagerou na dose ou escreveu a mais cristalina das verdades? Você decide.  

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