Deu tilt
O mundo anda um tanto quanto turbulento, conturbado demais e desassossegado. Hoje, existem as vantagens de desfrutar das comodidades proporcionadas pela tecnologia, mas as pessoas estão perdendo os requisitos mais elementares da vida como o sono tranquilo, a cabeça fresca e a mente despreocupada. Mesmo nas horas de lazer, a tensão não se desfaz. Os maus fluidos ou os pensamentos ruins ganham de goleada. Nem se concentrando dá para se livrar do pessimismo. Com as exceções de quem tem as rédeas da própria vida sob controle, há uma espécie de neurose coletiva no ar, quase onipresente, que vai atropelando conversas. Muitos falam, poucos escutam. Isso provoca desencontros e angústias intermináveis que varam madrugadas. Um mal que alcança os relacionamentos familiares, amorosos, profissionais e até mesmo entre amigos, um reduto que costumava ficar a salvo dessas tempestades cotidianas. O famoso mantra empresarial moderno “de fazer mais com menos” está cobrando seu preço.
Desse estresse ocupacional, surgem as depressões, os transtornos e as inúmeras síndromes, algumas com nomes complicados que ao final do diagnóstico minam a tranquilidade e a serenidade do viver bem. Na maioria das vezes, os sintomas aparecem aos poucos. No começo são imperceptíveis ao próprio portador, deixam uma expectativa de reversão até se tornarem recorrentes, podendo se manifestar de forma persistente, crônica e até mesmo episódica. Algumas síndromes se tornaram conhecidas como a do pânico, de ansiedade e a nervosa. Outras são novidades que surgem a partir das brechas deixadas pelos desequilíbrios do comportamento humano.
Uma que ganhou destaque é a Síndrome de Burnout, definida pelos especialistas como um esgotamento físico e mental associado ao trabalho, uma pane geral no cérebro que produz um cansaço interminável, mal-estar, perda de concentração e da memória. Também costuma deixar marcas pelo corpo. Quando o excesso de trabalho ultrapassa a tênue linha da vida saudável, o cérebro começa a pifar, o blecaute alarmante significa que o pobre corpo não aguenta mais. Na tradução do nome, criado por um psicanalista alemão, Herbert Freudenberger, Burnout significa, assustadoramente, “queimar-se por completo”. O indivíduo chega à exaustão. Nos antigos jogos de fliperama, a máquina travou, deu tilt.
Hoje, essa doença já atinge três em cada dez trabalhadores. Se a proporção estiver correta, só aí seriam cerca de 30 milhões de pessoas com a doença. Como não existem exames de sangue ou de imagem no diagnóstico, para tentar identificar essa síndrome é preciso aguçar a percepção do profissional e do paciente. Qualquer pessoa pode realizar o autoexame fazendo perguntas simples: tenho trabalhado demais, com longas jornadas e ando frustrado com o resultado do meu desempenho? Devido ao cansaço intrínseco que sinto, ando esquecendo coisas óbvias? Diante da menor contrariedade, fico irritado e perco a paciência?
Uma das vítimas foi a ex-jornalista da Rede Globo, Izabella Camargo, que fazia a previsão do tempo. Em uma reportagem de capa da revista Saúde de Abril, Izabella assumiu que durante cinco anos teve insônia e precisou tomar remédios para dormir. No ápice da crise, a jornalista teve um apagão no ar e não lembrou o nome da capital do Paraná, cidade onde nasceu. Por conta desse esgotamento físico e mental, que tem a queda da qualidade do sono como um dos principais sintomas, perdeu o emprego. Hoje, tornou-se uma ativista para divulgar a doença e promover a saúde mental.
Especialistas afirmam que quem sofre de Burnout tem a sensação de ter passado dos limites, mas não possui recursos para mudar esse panorama. Às vezes, isso implica em mudanças radicais como trocar de emprego, mudar de profissão ou se reinventar profissionalmente em um período de crise. Pessoas que se encontram nesse estado devem procurar a ajuda de profissionais. Se não for possível controlar os sintomas pode se recorrer ao uso de medicamentos, mas essa é a hipótese extrema. A melhor profilaxia é cuidar bem da própria vida e mesmo nos dias mais turbulentos, procurar preservar as horas de lazer e o relaxamento. Ainda existem outros remédios bem simples, como relativizar acontecimentos aparentemente graves, tirar férias todos os anos, cultivar hobbies e não se tornar um escravo do celular. Sempre que possível separe as horas de folga do trabalho e evite levar tarefas para casa. Para quebrar a síndrome no meio, perca alguns minutos do dia para admirar a natureza e redescobrir um antigo prazer esquecido.