Feixe de luz

Feixe de luz

Do dia para a noite, a pacata Serrana entrou para a história. A cidade da região metropolitana de Ribeirão Preto foi escolhida pelo Instituto Butantan para ser a sede de uma experiência científica inédita no país e no mundo. Num dos momentos mais tensos e críticos da história, o pequeno município de 46 mil habitantes, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi escolhido para sediar o Projeto “S”, a letra inicial de secreto. A iniciativa já se tornou pública, mundialmente conhecida, para testar os efeitos da vacinação em massa em uma cidade inteira durante o curso da pandemia. O estudo vai avaliar a eficiência da vacinação em relação à transmissão do vírus, os efeitos da imunização no sistema de saúde, bem como as consequências indiretas na economia.

Os primeiros resultados da vacinação na cidade devem ser conhecidos em um dos momentos mais críticos da pandemia do país com aumento do número de casos e mortes, a superlotação do sistema hospitalar, o risco de colapso no atendimento por falta de insumos e o esgotamento da capacidade econômica devido ao longo período de medidas restritivas. O descontrole da epidemia trouxe um risco adicional, o surgimento de novas variantes que ameaçam a imunidade das vacinas. O aparecimento de novas cepas resultou numa onda de pessimismo ainda maior com muitas notícias não comprovadas que colocam em dúvida a eficácia das vacinas e dão destaque aos efeitos colaterais, mesmo que esses casos sejam irrelevantes em relação ao número total de pessoas vacinas.

Os resultados da experiência de Serrana serão um experimento científico capaz de validar a eficácia das vacinas. Um dia após ter completado 72 anos de emancipação, a jovem cidade concluiu o projeto com um expressivo índice de aceitação. Cerca de 97% da população inscrita no programa tomou as duas doses da vacina, tornando Serrana a primeira cidade do Brasil a ter quase 100% da população maior de 18 anos vacinada. Apenas 46 ocorrências graves ocorreram sem relação direta com a vacina. As 28.380 pessoas imunizadas representam 60% do número de moradores do município, índice que os especialistas estimam como ideal para alcançar a tão almejada imunidade de rebanho. Até junho será possível conhecer os efeitos de uma vacinação em massa, a ciência sendo feita à luz do dia com transparência para o entendimento público. Será um feixe de luz sobre as trevas, originárias do desconhecimento ou da má fé deliberada. Os principais objetivos do estudo serão a redução do número de casos, o controle da epidemia e a redução da transmissão.

Os resultados só serão alcançados depois dos efeitos da segunda dose em toda a população, o que só deve ocorrer em maio. Os moradores vacinados serão monitorados por um ano, inclusive sobre a imunização contra novas variantes como a de Manaus. Em tempos de pandemia, com tantas mortes e notícias ruins, não custa nada ser otimista. Além de fornecer dados científicos valiosos sobre o combate à doença, o experimento de Serrana ainda pode resgatar a importância da pesquisa científica nacional. A partir de um exemplo concreto, a população e os governantes mais refratários e obtusos podem compreender a importância estratégica dos investimentos em ciência para a segurança nacional. Hoje, o país inteiro enfrenta a incômoda e angustiante espera chegada das vacinas ou dos insumos para a fabricação. O Brasil implora por vacinas. Quando se trata de saúde pública, a dependência ou a insuficiência da capacidade de produção das vacinas se traduzem no implacável placar das mortes contadas aos milhares. No decorrer dos anos, sucessivos governos de diferentes linhagens cortaram os investimentos em pesquisa. Agora, o país chegou ao cúmulo de suspender o censo populacional para que se saiba, pelo menos, o número real de habitantes e outros dados econômicos básicos. Nos orçamentos da pesquisa científica, o arrocho dos cortes foi ainda maior.

A experiência de Serrana mostra que questões relacionadas à saúde não podem ser tratadas com desdém, menosprezo, achismo, teorias mirabolantes, ideias anticientíficas e outras anomalias. Com a probabilidade de que outras epidemias ocorram, esse estudo mostra o caminho que deveria ser trilhado para que o país e a população estejam preparados para novas ameaças sanitárias. Do contrário, a população ficará exposta às graves ameaças sanitárias que fazem parte do mundo contemporâneo. O estudo de Serrana evidenciou o caminho a ser adotado para preservar a saúde. O recado foi dado para quem quiser ver. 

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