O dom da escrita
Mais uma Feira do Livro começou com centenas de atrações na música, na arte e na literatura. Neste mundo em que o virtual cada vez mais se sobrepõe ao real, visitar “in loco”, assistir às palestras, às apresentações e manusear os livros nas barracas soa como uma atividade retrô, um hábito do passado, diante da avalanche de compras pela internet, até mesmo dos livros. Quem visita a Feira precisa se esgueirar pelos labirintos da praça que circundam as barracas, no interminável vai e vem daqueles que procuram obras preciosas. Alguns têm a sorte de encontrar aquele livro que procuram, verdadeiros achados no meio de pilhas de obras dos mais variados gêneros.
Embora no mundo da literatura, a fama necessariamente não preceda a qualidade das produções, a Feira deste ano também traz muitos nomes famosos. Entre os homenageados aparece com destaque Djamila Ribeiro, filósofa e escritora, conhecida internacionalmente pela produção de obras ligadas à questão de gênero, raça e direitos humanos. Tem ainda a historiadora Mary Del Piore, frequentadora assídua da Feira de Ribeirão Preto e autora de obras sobre a mal compreendida historiografia brasileira. Desta vez, a escritora analisa a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. Mesmo depois de 136 anos, o espírito republicano ainda não vingou completamente no país. Quem deseja refletir para entender o que está acontecendo no mundo atual deve assistir à conferência do filósofo Leandro Karnal. Nesse encontro com o conhecido pensador, que possui colunas em vários veículos da comunicação, o frequentador da Feira poderá entender melhor as falsas narrativas midiáticas, as consequências da inteligência artificial sobre a forma de pensar ou ainda análises de questões éticas. A busca da felicidade e a solidão também fazem parte da pauta de discussões.
Uma conferência sobre um tema do momento será de André Trigueiro. Na palestra, “Alerta Vermelho no Planeta Azul — Cenários e Perspectivas”, o jornalista, especialista na temática ambiental, fará uma análise sobre a crise climática. Não pode faltar a presença assídua de Ignácio de Loyola Brandão, um escritor consagrado, membro da Academia Brasileira Letras, com 60 anos de produção literária. Na extensa programação, a Feira também recebe talentos que despontam na literatura brasileira. Entre as revelações destaque para o escritor e roteirista Raphael Montes, que já publicou 9 livros que venderam juntos cerca de 500 mil exemplares. Sua criativa produção literária vem chamando a atenção da mídia e do mercado editorial. Recentemente, esteve no programa Roda Viva da TV Cultura onde revelou a predileção pelo suspense, ao melhor estilo Agatha Christie. Alguns títulos de seus livros já revelam essa tendência, tais como “Suicidas”, a Mágica Mortal; Uma Aventura do Esquadrão Zero. Algumas antologias — “Assassinos S/A”, “Beco do Crime” — seguem esta linha. Raphael Montes também trabalhou como roteirista em produções para o cinema e a TV.
Tantos escritores, tantos livros reunidos numa Feira possuem como principal objetivo estimular a reflexão e o pensamento. Há no mundo de hoje uma porção de desafios urgentes que exigem uma visão crítica e construtiva para solucionar problemas globais e de simples convivência. Quando se trata de relações humanas não existem fórmulas mágicas, prontas que possam ser aplicadas de maneira mecânica e generalizada. Há que se pensar como agir antes de responder automaticamente. Para chegar a bons resultados é preciso sair da superficialidade e mergulhar nas profundezas dos temas e das respostas complexas para os dramas humanos. Os bons livros ajudam bastante nesta tarefa de construção coletiva. Eis a singularidade criativa daqueles que possuem o dom para escrever. Os bons escritores são visionários de um mundo novo que a todo momento precisamos descobrir.