O posto da economia
Em qualquer país do mundo, a política e a economia são irmãs siamesas. Uma boa política econômica tem o poder de aumentar o Ibope de um mau governante assim como uma gestão desastrosa das finanças de um país condena o dirigente ao limbo do esquecimento. José Sarney entrou para história como um dos piores ex-presidentes, entre muitos outros motivos, porque a inflação no seu último ano de governo chegou a 1.800%. Uma das bandeiras que potencializou os votos de seu sucessor, Fernando Collor, foi justamente a promessa de acabar com a inflação com um tiro só. Errou feio o disparo. A escalada de preços prosseguiu, cabendo ao vice de Collor, Itamar Franco, bancar a ascensão de Fernando Henrique Cardoso (FHC) no Ministério da Fazenda para criar o Plano Real. O sucesso do novo arranjo econômico foi tão grande que FHC foi eleito e reeleito com folgada maioria à presidência da República. Por duas décadas, o seu partido, o PSDB, auferiu dividendos eleitorais em função dos avanços conquistados pelo Plano Real.
Quando o ex-presidente Lula venceu as eleições de 2002, houve uma gritaria generalizada por receio de que o país mergulhasse no caos econômico. O ex-presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP), Mário Amato, chegou a declarar que mais de 300 empresários deixariam o país se o PT vencesse as eleições. Não foi o que ocorreu. Com a famosa Carta ao Povo Brasileiro, Lula acalmou os ânimos e os seus dois mandatos (2003 a 2006 e 2007 a 2010) são apontados até mesmo por adversários e opositores ferrenhos como dois períodos de prosperidade econômica da história recente do país. Muitas controvérsias cercam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff com opiniões divididas. Contudo, há um consenso entre os economistas no que se refere aos erros da sua política econômica, ocorridos principalmente no segundo mandato, que levaram o país a uma das mais graves crises da sua história. Para quem defende o governo da ex-presidente, o desacerto econômico esteve na base da motivação do impeachment.
O governo de Michel Temer está chegando ao fim, disputando vaga na galeria dos mais impopulares da história. O ex-vice-presidente de Dilma Rousseff possui 90% de rejeição, ou seja, em cada 10 brasileiros conta com a simpatia de apenas um. Se um analista de boa vontade quiser destacar algo de positivo no governo que ora se encerra, certamente encontrará esse acerto na economia. O governo Temer foi arrastado pelo redemoinho da corrupção, mas a área econômica do atual governo manteve uma blindagem que retirou o país da rota da recessão. Se por um lado, a recuperação poderia ter sido mais rápida e o desemprego ser menor, por outro, a atual gestão entrega para o próximo governo um país bem melhor do que encontrou. A inflação está no centro da meta, os juros estão baixos e o câmbio continua flutuante. Pesa contra esse cenário positivo, o enorme déficit fiscal que compromete mais de 90% das receitas. No entanto, esse ônus pode ser debitado na conta de todos os governos do processo de redemocratização. O próximo governo ainda nem assumiu e a espada do déficit da previdência já começa a assombrar a ponto do presidente-eleito, Jair Bolsonaro, declarar que qualquer reforma aprovada no apagar das luzes do governo Temer seria muito bem-vinda.
Embora seja uma figura conhecida nos meios acadêmicos, pouco se sabe sobre o futuro ministro da Fazenda do Governo Bolsonaro, Paulo Guedes, que durante a campanha eleitoral não deu entrevistas e não revelou seus planos com detalhes. Por ora, especula-se sobre fusões de ministérios e privatizações de empresas estatais. Além de ser o principal fiador econômico do novo governo, Paulo Guedes se tornou um guru do presidente-eleito que passou a chamá-lo de “Posto Ipiranga” pela capacidade de responder a todas as questões de natureza econômica.
O desempenho da economia tem o poder de derrubar governos e fabricar mitos. As ideologias, as posições à esquerda e à direita hoje são relativizadas quando os números do balanço são positivos. A história recente dos governos, dos presidentes, dos ministros da Fazenda e de seus respectivos resultados revela que o eleitorado abriu mão de qualquer tipo de fidelidade partidária. Já votou em candidatos de centro, de esquerda e agora resolveu experimentar um governo de direita. No passado, também receberam votações maciças políticos tradicionais, conservadores e os outsiders. O recado das urnas deixou evidente que eleitor não está muito preocupado com a ideologia, mas com os resultados que o político pode entregar no menor espaço de tempo.