O roteiro do centro
Entra governo e sai governo, entra ano e sai ano e uma questão não sai de pauta: a revitalização do centro de Ribeirão Preto, também chamada de requalificação ou até mesmo de reconstrução. Qualquer morador da cidade pode enumerar os problemas da área central que começam pelo estado precário da estação rodoviária, passando pelos problemas do trânsito, a sujeira, a falta de segurança até a necessidade de recuperar os prédios históricos. O complicador mais recente são as obras inacabadas que se juntam a problemas históricos como a degradação “da região da baixada”, onde fica o antigo mercadão. A intervenção mais robusta e controversa aconteceu em 1991 quando foi implantado o calçadão. Embora a obra tenha sido consensual, muita gente reclamou da qualidade do projeto executado. De lá para cá, várias administrações municipais se sucederam, inúmeros projetos foram apresentados, mas nenhum saiu do papel de forma efetiva.
Agora, com a posse da nova administração municipal, criou-se a expectativa de que projetos e novas ideias para tornar o centro atrativo possam enfim avançar. Sem a participação efetiva da Prefeitura Municipal no suporte às iniciativas privadas e das entidades, nenhum projeto caminha e obtém resultados expressivos. A retomada do centro como um espaço comercial, de lazer e turismo vai ao encontro do interesse dos comerciantes que querem atrair os consumidores para a região central. Em cidades desenvolvidas e bem planejadas, principalmente em países da Europa, o centro da cidade é o local de referência para o turismo, para a gastronomia e a visitação de prédios históricos. O centro de Ribeirão Preto tem potencial para atrair visitantes (ver a matéria de capa desta edição). Um exemplo bem-sucedido é a Biblioteca Sinhá Junqueira, restaurada em 2020 e que no ano passado bateu recorde de visitação com 180 mil pessoas. O prédio mais imponente desse conjunto arquitetônico é o Theatro Pedro II, que 30 anos após a sua restauração ainda possui acesso restrito a dias de shows e de espetáculos. O Theatro não tem uma visitação pública organizada, principalmente aos finais de semana, uma demanda que deve ser analisada pela nova administração. O centro ainda tem a Casa da Memória Italiana, o Palacete Camilo de Mattos e Palacete 1922, na Alvares Cabral, reformado recentemente e que hoje abriga um charmoso restaurante e uma cafeteria. São espaços que já foram restaurados e que estão abertos ao público.
Outro atrativo imponente do centro é a Catedral Metropolitana, prédio centenário que apresenta graves problemas de conservação. Uma campanha para arrecadação de recursos está em andamento e em breve será possível conhecer o acervo da Catedral através de uma visita guiada. A igreja abriga obras sacras de grande valor artístico. A restauração da Catedral está estimada em R$ 14 milhões.
Quando se avalia todo esse potencial cultural, histórico e turístico que o centro de Ribeirão Preto possui, surge uma perplexidade ao se constatar que falta uma articulação social e política para tornar a área um espaço atrativo com frequência de público. O centro precisa de divulgação, maior abertura dos espaços públicos e privados e da organização de roteiros para atrair os moradores da cidade e os turistas. Existem iniciativas bem-sucedidas. Há muitos anos, o Cine Clube Cauim mantém um projeto de educação e cultura que traz crianças das escolas para assistirem a filmes. O Sesc promove uma intensa atividade cultural e o Pinguim tem o forte apelo do chope mais famoso do Brasil. Ribeirão Preto precisa de um roteiro para dar mais visibilidade aos seus atrativos, explorar melhor o potencial turístico, maximizando também o retorno comercial. Falta uma articulação entre o poder público, os empresários e as entidades envolvidas com os problemas do centro. Se isso for viabilizado, a cidade, os moradores e todos os segmentos envolvidos teriam muito a ganhar.