A pera e a pirâmide
Economistas, sociólogos, técnicos do governo federal e as reportagens da imprensa tentam esmiuçar o novo perfil da sociedade brasileira e as transformações que estão ocorrendo. Não é nenhum exagero dizer que algumas atividades passam por uma verdadeira revolução. Em outros segmentos, a palavra que define a nova situação é ainda mais forte. O termo para a avalanche é a disrupção, situação em que o mercado tradicional deixa de existir para dar lugar a algo novo, difícil de ser medido. Dois aspectos dessa mudança ganharam força. A primeira tem a ver com a tecnologia, onipresente no mundo de hoje e da qual não escapa nenhum segmento econômico. Outro componente dessa nova fase da vida é o envelhecimento da população brasileira cuja divisão etária não poderá mais ser representada pela clássica pirâmide que por décadas ilustrou os livros de geografia. Tal qual uma pirâmide egípcia, a figura possuía a base larga que vai afinando pelo centro até chegar ao topo numa camada bem estreita. Não por mera coincidência essa tradicional figura geométrica também representava a divisão social brasileira e a concentração econômica, com a elite no topo e a população de baixa renda na base.
Nos próximos anos, a imagem que melhor vai representar a nova divisão etária do país será uma pera rechonchuda com a divisão de três segmentos em proporções praticamente iguais: crianças e adolescentes, adultos e velhos, idosos ou pessoas da terceira idade, de acordo com o eufemismo escolhido. Pela primeira vez na história, essas três faixas etárias vão se aproximar de uma igualdade numérica e vão conviver intensamente no mesmo espaço, o que vai produzir novas formas de relacionamento no ambiente familiar, profissional e social. É família que se depara com os idosos em casa para cuidar, são as diferenças de idade e de gerações no trabalho e as visões de mundo diferentes, separadas por décadas, entrando em conflito.
As reportagens da mídia já anunciaram que o Brasil, para variar, perdeu o período do bônus demográfico, (aquela fase em que as nações prosperam com mais gente entrando no mercado de trabalho do que se aposentando). Adiado por décadas, a questão previdenciária não foi resolvida, mas este é apenas um dos problemas que o país tem para resolver ao lado da baixa produtividade. A onda digital vai puxar uma qualificação da mão de obra que vai precisar de maior experiência e discernimento para gerenciar o negócio com base em informações on-line. Pesquisas revelam que apesar do desemprego brutal de 13 milhões de pessoas, o mercado se ressente da falta de dois milhões de profissionais especializados na área de Tecnologia da Informação. Isso ocorre porque a era da força física no trabalho já passou. Daqui para frente, a habilidade com maior valor será a capacidade de interpretar dados e analisar informações. Em países como o Japão, onde a população já está diminuindo, caiu 4 milhões em oito anos, o governo criou incentivos para atrair de volta ao mercado a população idosa, a mão de obra que tem mais experiência. No Brasil, a população também irá diminuir e hoje os idosos só não são chamados de volta pelas empresas porque há um número muito grande de desempregados. Mesmo assim, segundo dados oficiais, em 2010 havia 7,1% de pessoas com mais de 65 anos no mercado de trabalho. Em 2018, esse número subiu para 9,8%.
De agora em diante com a padronização das funções, em qualquer profissão, haverá uma oferta abundante de informações. As máquinas farão o serviço pesado, mas não conseguirão substituir o ser humano na hora de tomar decisões, de interpretar os dados com base no raciocínio lógico. Essa será uma capacidade essencial para a empregabilidade. A visão interpretativa e as habilidades socioemocionais, entre elas o equilíbrio pessoal e a capacidade de interação e liderança, serão determinantes para os empreendedores de agora e do futuro.
As empresas ainda não se atentaram para essa nova realidade, sobre o papel que a população idosa poderá desempenhar nessas novas circunstâncias de oferta e procura de mão de obra. Hoje, há no mercado de trabalho uma discriminação que privilegia a força jovem e exclui os mais idosos das oportunidades. Selecionar por idade é um preconceito chamado etarismo ou idadismo. Não se trata de reivindicar assistencialismo ou comiseração. A população idosa pode ser protagonista dessa nova fase, pois em qualquer época da vida, o importante não é a idade, mas a vitalidade.