
A pressão popular
A atual legislatura da Câmara de Vereadores caminhava celeremente em direção a uma urdidura sem grandes propósitos. Há tempos anestesiada com os desencantos na solução dos problemas locais mais importantes, a opinião pública parecia alheia aos perrengues do legislativo. Um inconformismo silencioso incensava essa letargia política. O eleitorado estava resignado com os escândalos que se alternavam periodicamente no noticiário; sumiço de equipamentos, funcionários fantasmas e, por último, uma discretíssima filial de empreendimentos imobiliários no meio das egrégias atividades públicas.
Eis que de repente, em um final de semana qualquer, o vereador Oliveira Júnior (PSC) foi flagrado dirigindo alcoolizado pelas ruas da cidade. Levado ao plantão, desentendeu-se aos gritos com policiais civis e militares e agora responderá a uma plêiade de processos criminais por desacato, direção perigosa e desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB).
Dias depois, “apareceu” a denúncia de que o vereador mantinha a sogra como funcionária fantasma no gabinete, embora seja uma imprecisão gramatical afirmar que o fantasma aparece. A jornada de trabalho da sogra estava envolta em um mistério tão grande que só mesmo o Espírito Santo poderia explicar.
Entre alguns alaridos nos corredores, rapidamente, a funcionária foi dissipada, mas o fósforo da indignação popular já havia sido riscado. A imprensa deu destaque às denúncias e, na internet, o movimento “Por uma Ribeirão Melhor”, formado há dois meses, capitaneou a indignação de cidadãos comuns. A cassação do vereador tornou-se a principal bandeira do movimento. Pressionada, a Câmara de Vereadores não teve alternativa e abriu uma comissão processante para investigar a falta de decoro do vereador ao dirigir embriagado.
Em plena sessão em que foi instalada a comissão processante, os vereadores lançaram mão de um astuto ardil que maculou a transparência. Efetuaram na surdina o sorteio dos três integrantes da comissão processante. Daquele dia em diante, instalou-se nos corredores e gabinetes um jogo de xadrez em torno de uma possível cassação de Oliveira Júnior. Por mais surreal que pareça, o próprio vereador defendeu a instalação da comissão.
No meio das manobras, a Subseção de Ribeirão Preto da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) percebeu que havia uma lacuna no processo. Se dirigir embriagado é algo desabonador para o cidadão Oliveira Júnior, empregar a sogra como “ghost” no gabinete afronta a moralidade da instituição inteira. Um novo processo foi instaurado. A questão que envolve o legislativo municipal não se restringe ao nível do bafômetro que mede o teor etílico e nem se resolve com criação de uma brigada caça-fantasma.
Historicamente, os vereadores tentam convencer a opinião pública de uma grande falácia: as ocorrências dentro de cada gabinete seriam da responsabilidade exclusiva de cada vereador. Não são, mas zelar por tudo que acontece dentro do prédio implica em cortar a própria carne, enfrentar o corporativismo e tornar o poder transparente de fato. Os últimos episódios mostram que, pelo menos por ora, não há vontade política para tanto, mas nesses casos a pressão popular costuma e deve falar mais alto.