A real inspiração

A real inspiração

A corrupção institucionalizada que tomou conta do país provocou um enorme estrago que demandará muito tempo e esforço para reconstrução. Não se trata das quantias bilionárias que foram desviadas e que podem ou não serem recuperadas. O rombo maior  ficou na ética, na moralidade, no otimismo, na confiança e na representatividade. Esses valores não se restabelecem tão cedo e deixaram um vazio difícil de preencher. A descrença generalizada fez brotar uma onda de pessimismo que será difícil de reverter.

Neste momento, o estrago político contamina e se alastra, comprometendo o futuro profissional das novas gerações, rebaixando o nível das relações sociais e minando a convivência familiar. Esses ingredientes todos somados produzem um ambiente de tensão, de intolerância, de irresponsabilidade, de individualismo e de falta de respeito. Os xingamentos estão na timeline do Facebook. Parte da juventude vive um período de instabilidade emocional. A crônica dos fatos diários está cada vez mais assustadora. Vai da barbárie cometida pelo policial militar de Goiânia, que deu uma cacetada na cabeça do estudante que participava de um protesto, à irresponsabilidade com a vida de terceiros no racha automobilístico dos abastados de Brasília. Nessa “brincadeira” fatal duas pessoas morreram sem nem saber o porquê.

Além desses casos mais crônicos, ainda têm os subliminares que se manifestam na impaciência para dialogar com o lado contrário. Até mesmo o diplomático e sorridente João Dória, prefeito de São Paulo, perdeu a linha e jogou no chão as flores de uma ciclista que protestava contra a liberação do aumento de velocidade nas avenidas e nas marginais da capital. Como dizia o já saudoso Belchior, “o mundo está mais angustiado que o goleiro na hora do gol.”

Essa tensão alta se origina no tempo de desconstrução atual. Nesse longo e duro processo de gestação, há uma sensação de perplexidade, de isolamento e de perda. A economia, a política, a vida social estão órfãs de pensadores e de líderes, de gente em quem se possa acreditar a ponto de confiar o próprio destino. Sobra intolerância e falta credibilidade. As soluções que aparecem são simplistas, pouco confiáveis e, por isso, muito perigosas. As reformas são para lá de necessárias, como fazer é que são elas.

As possibilidades que se apresentam na política, no mundo virtual ou real não são, suficientemente, convincentes, seguras para sugerir caminhos e atrair seguidores. O mundo está meio imerso na escuridão de onde emergem soluções violentas, xenofobia, estados nacionalistas, ódio racial e religioso. Ditadores enrustidos arrebanham com facilidade milhões de seguidores. Nesse contexto beligerante, uma simples visita do papa ao Egito só ocorre se for garantida por um aparato de guerra. O novo estado das coisas terá que ser extraído a fórceps, com muita dor, choro e sofrimento. Pelas macabras estatísticas oficiais, os desempregados do Brasil já chegam a 14 milhões, mas pelos quatro cantos do país há uma geração que está se perdendo. Para esses, quando a economia voltar a crescer, já será tarde demais.
Diante de tanta perplexidade surgem novas tendências, novos olhares e formas para encarar problemas e, principalmente, buscar soluções. Nesse lusco-fusco do velho e do novo mundo, de perplexidade e de busca por referências, as atenções se voltam para as celebridades, para os gurus, para os consultores, para os profissionais de marketing e de gestão. Na internet, agora ganham espaço os “digital influencers”. Na sociedade midiática, com milhões de likes e de curtidas, jovens youtubers fazem a cabeça do público para promover produtos, serviços, marcas e, claro, novos valores.

Independentemente das mídias utilizadas, digitais ou convencionais, a sociedade atual precisa consolidar as boas histórias com conteúdo consistente para que essas sirvam de referência. Há uma grande responsabilidade embutida nesse papel de influenciar, de servir de exemplo, de propor a mudança de atitude e de comportamento, seja na política, no âmbito dos negócios ou na vida familiar. Isso não pode ser feito de forma rasa e superficial, senão, a esperança pode virar pesadelo. Na atual conjuntura, em vez de influenciar, o ideal talvez seja inspirar, abrir caminhos para disseminar propostas e conteúdos válidos que potencializem as energias que hoje estão sufocadas por uma realidade extremamente adversa. 

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