Sem fé nas bets
De uma hora para outra, o país viu o tsunami das casas de apostas tomar conta da publicidade e do futebol brasileiro. No começo deste ano, mais de 100 empresas estavam aptas a explorar esse mercado, pagando cada uma a outorga inicial de R$ 30 milhões para o governo federal. Quem se dispõe a pagar um valor tão alto, sabe que obterá um retorno bem maior. Hoje, todos os times da Série A do Campeonato Brasileiro recebem patrocínios milionários das casas de apostas. O mais alto é do Flamengo, que ultrapassa os R$ 100 milhões. Justamente no clube do Rio de Janeiro estourou um escândalo envolvendo o atacante Bruno Henrique, indiciado pela Polícia Federal por fraude em competição esportiva. Caso semelhante envolveu o jogador Paquetá do West Ham, que pode ser banido do futebol pela Liga Inglesa ainda este ano.
Estudos de consultorias revelam que o Brasil já ocupa a terceira maior posição no mercado global de apostas esportivas. Máquina publicitária poderosa, pagando altos cachês, as bets possuem como garotos-propaganda a fina flor do esporte e das celebridades nacionais, dos ex-jogadores Cafu a Ronaldo Fenômeno, de Galvão Bueno a Gustavo Lima. A divulgação das bets ainda conta com o apoio digital dos influenciadores, muitos deles envolvidos em fraudes investigadas pela Polícia Federal. Diante de uma máquina publicitária tão poderosa, o número de apostadores cresceu exponencialmente em pouco tempo. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (Unifesp) apurou que pelo menos 11 milhões de brasileiros, cerca de 5% da população do país, fazem uma fezinha rotineira nas bets. O mesmo estudo apontou que os jovens, adolescentes dos 14 a 17 anos, integram o grupo mais vulnerável que apresentou transtornos decorrentes do jogo, com prejuízos pessoais, sociais e financeiros. Uma das sugestões para evitar que os adolescentes fiquem viciados é limitar a propaganda, a exemplo do que ocorreu com o cigarro.
Casas de apostas não são um investimento, mas disseminam a ilusão do enriquecimento fácil e rápido. As bets ultrapassaram em faturamento o histórico jogo de bicho e estão na segunda posição na preferência dos apostadores, atrás apenas das loterias. Para justificarem a presença ostensiva no mercado, as empresas de apostas criaram a narrativa do “jogo responsável”, algo que pesquisadores e cientistas classificam como uma falácia. Um estudo macroeconômico realizado pelo Banco Itaú, conduzido pelos economistas Luiz Cherman e Pedro Duarte, revelou que os brasileiros perderam cerca de R$ 24 bilhões em um ano, equivalente a 0,2% do PIB do país. Especialistas colocam o vício das bets no mesmo rol da cocaína, do cigarro e do álcool.
Todos os jogos de azar seguem uma lógica antiga de que a banca fica com a “sorte” e o apostador perde. Com o agravante que o vício das apostas on-line não depende do traficante ou da compra da bebida. Melhor do que ninguém, a máquina sabe como viciar o jogador iniciante, liberando pequenas doses homeopáticas de vitórias fugazes. A emoção e a expectativa de ganhos fáceis e rápidos liberam a dopamina, a substância que traz as sensações de prazer e alegria. Essa sensação de euforia altera o funcionamento do cérebro, criando um ciclo em que o jogo se torna uma compulsão. A necessidade apostar se torna incontrolável para o jogador. Com o algoritmo da máquina dando as cartas, o suspense aumenta e cresce o desejo de estímulos cada vez maiores, fazendo com a frequência e o valor das apostas aumentem, o que no final das contas endivida o jogador que perde os próprios recursos, da sua família e até de terceiros.
As dívidas alimentam outra ilusão, a de que jogando o apostador poderá recuperar o dinheiro perdido, aprofundando o ciclo vicioso. Antes da proibição, uma parte dos jogadores apostava com cartão de crédito. Os sintomas aparentes do viciado são o tempo excessivo destinado às apostas, as mentiras para esconder as dívidas, a necessidade de pedir dinheiro emprestado, o desinteresse por atividades saudáveis, depressão e problemas emocionais decorrentes das dívidas do jogo. Há quem diga que daqui a algum tempo, se não forem proibidas, as bets sofrerão restrições semelhantes às do cigarro. Até lá, os apostadores precisam levar em conta que todas as máquinas das bets, sem exceção, foram programadas para ganhar do ser humano. Não dá para ganhar da máquina. O gênio russo do xadrez, Garry Kasparov, tentou ganhar do megacomputador Deep Blue e perdeu.