Solavanco no viaduto

Solavanco no viaduto

Um dos maiores problemas das administrações públicas é a falta de zelo com o dinheiro do contribuinte. Prefeituras, governos estaduais e a administração federal realizam processos licitatórios com inúmeras exigências burocráticas, mas cumpridas as formalidades legais, as administrações falham na fiscalização do andamento dos trabalhos. Não agem com rigor e costumam ser lenientes com a execução e a entrega das obras. Via de regra, não há um acompanhamento rigoroso, uma fiscalização criteriosa impedindo que o erário público receba uma obra muito aquém do valor que pagou. Não se tem notícias, por exemplo, da recusa na hora da entrega de uma obra, seja por problemas de qualidade da execução ou por não atendimento das exigências contidas na licitação.

O caso do viaduto dos Profissionais da Saúde é ilustrativo para representar as anomalias que infelizmente se tornaram tão comuns na administração pública brasileira. Num passado recente, Ribeirão Preto tem tristes lembranças do asfalto que esfarela e de obras inacabadas que foram dadas como prontas. A homenagem à dedicação dos profissionais da saúde, que na pandemia deram exemplos de amor ao próximo, não poderia ter sido mais apropriada, mas hoje o desfecho da obra causa espanto e perplexidade. Com toda a pompa e cerimônia, o viaduto foi entregue à cidade no dia 26 de fevereiro para ligar a zona leste ao centro e à zona sul. Como pode uma obra concluída há três meses e que custou aos cofres públicos R$ 15 milhões apresentar tantos problemas em tão pouco tempo e necessitar de uma “manutenção asfáltica”? Se em apenas três meses já houve necessidade de uma intervenção, qual será o estado de conservação quando o viaduto completar cinco ou dez anos? Terá que ser parcialmente refeito? Se agora falta qualidade no acabamento, ficam dúvidas sobre o estado das estruturas que não podem ser vistas a olho nu.

Na época da inauguração, cidadãos que trafegaram pelo viaduto de carro ou de bicicleta já haviam notado o excesso de ondulações. O próprio prefeito Duarte Nogueira passou pelo viaduto em carro aberto na solenidade de inauguração. Informalmente, entre os moradores da cidade era de conhecimento público que algo estava errado com o viaduto novo em folha. Havia um sobressalto, uma ondulação nas juntas que os responsáveis pela obra deveriam ter se atentado. Na primeira justificativa, a Prefeitura de Ribeirão Preto declarou que a intervenção era para uma manutenção asfáltica. Na segunda, mais completa, explicou que se tratava de uma correção de irregularidades nas juntas de dilatação das vigas de concreto e que os reparos eram no pavimento e que não haveria problema algum ou risco com a estrutura da obra. Ainda bem. Dos males o menor, pelo menos o viaduto não corre o risco de cair ou de ter um problema estrutural maior, embora haja relatos de moradores dizendo que operários foram vistos fazendo outros reparos além da cobertura asfáltica.

A Prefeitura também informou que não haverá pagamento de custos adicionais pelos reparos. Outra boa notícia. Pelo menos, o contribuinte não terá que pagar duas vezes pelo mesmo serviço. A obra foi realizada pela empresa Hejos Construções Civis Ltda, de Maringá, que foi procurada pela reportagem da Revide sobre os reparos e possíveis falhas na execução da obra. Por ser uma empresa de fora, de outro estado, não deu retorno à reportagem. Não deve estar preocupada em dar explicações à opinião pública local, uma vez que a esta altura do campeonato já deve ter recebido a parte que lhe cabe pela execução da obra. Com tantos reparos a fazer, a sociedade perde quando as novas obras apresentam os velhos defeitos da administração pública brasileira. O ideal seria que esse tipo de problema já fosse algo do passado, mas infelizmente os reparos no viaduto estão aí para mostrar o contrário.

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