Um pessoal trilegal

Um pessoal trilegal

Os gaúchos agora estão unidos por conta da tragédia das enchentes, mas as divisões fazem parte do processo histórico, cultural e político da formação da identidade da população do Estado. Em séculos passados, o Rio Grande do Sul foi palco das intermináveis disputas entre espanhóis e portugueses pelo controle do território. As diásporas prosseguiram por anos a fio e deixaram marcado no DNA do povo o espírito aguerrido que virou traço da personalidade. A mais longa insurreição do período imperial brasileiro, a Revolução Farroupilha, durou 10 anos, de 1835 a 1845. No final do século XIX, as duas principais correntes políticas do Estado, Maragatos (lenços vermelhos) e Chimangos (lenços brancos) resolviam suas diferenças à bala. A degola era o destino dos perdedores das batalhas. Foi no meio dos escombros dessa sociedade dividida e marcada pelos conflitos que Getúlio Vargas despontou. Considerado o presidente mais influente da história brasileira, Getúlio trilhou o caminho da conciliação entre diversas classes sociais para chegar ao poder. Amado e odiado com a mesma intensidade, o ditador populista deixou seguidores e plantou as sementes da doutrina trabalhista que se esfacelou com a morte de João Goulart e Leonel Brizola.
 

Duzentos anos dessa conflituosa saga estão contados no romance “O Tempo e o Vento”, de Erico Veríssimo, uma trilogia que pela força do regionalismo ganhou projeção internacional ao relatar o processo de miscigenação entre o índio e o homem branco. Na linha do tempo dos gaúchos, não há uma linha harmônica nem mesmo entre pai e filho. O filho de Érico, Luís Fernando, veio como uma personalidade distinta do pai.  Amante do jazz, nunca foi fotografado usando bombacha e abordou a cultura gaúcha de um jeito irreverente e bem-humorado. Com os causos do “Analista de Bagé” escancarou para o Brasil o machismo e a “grossura” dos gaúchos. No folclore psiquiátrico do analista está escrito: “Deus fez o mundo primeiro e o Rio Grande do Sul depois que pegou a prática”. Na literatura ainda se destacam as obras de Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu, a vertente feminina de Lya Luft e a sensibilidade poética do poeta do Alegrete, Mário Quintana. A nova geração está representada pelas crônicas de Martha Medeiros e a poesia de Fabrício Carpinejar. Recentemente, com o “Avesso da Pele”, o professor e escritor Jefferson Tenório ganhou o prêmio Jabuti com a publicação de obra contundente sobre a discriminação racial. 
 

Nem a conhecida propalada tradição é algo consensual entre os nativos da terra. Elis Regina, por exemplo, considerada uma das maiores intérpretes da Música Popular Brasileira, tinha lá suas diferenças com a sociedade gaúcha e a considerava machista demais. Os baianos são consensuais no Axé, mas a música dos gaúchos vai dos acordes refinados de Adriana Calcanhotto ao ilariê da Xuxa. Essa cultura fortemente enraizada nas tradições torna os gaúchos um povo considerado bairrista, que valoriza demais os elementos que fazem parte da sua cultura. Sem rodeios, dizem que as mulheres da terra são as mais bonitas e para isso argumentam que não é em qualquer lugar que nasce uma Gisele Bündchen. Quando a discussão passa para o futebol, a fervura só aumenta. Grêmio e Inter não sossegaram seus egos até que fossem campeões do mundo. Se o Grêmio revelou Ronaldinho, o Internacional foi o berço dos tetracampeões mundiais Dunga e Taffarel.
 

Há controvérsias até na origem de uma das palavras mais usadas pelos gaúchos. De onde vem e como surgiu o trilegal? No dicionário, trilegal é um verbete inexistente. Para alguns, a expressão foi uma adaptação do francês “três chic” e para outros surgiu na época das discotecas. Uma terceira possibilidade relaciona com o tricampeonato da Seleção Brasileira em 1970. Se há divergências quanto à origem, não há dúvida quanto ao significado. Se algo é bom, imagine três vezes: trilegal. Esse gauchismo rompeu as fronteiras do Rio Grande do Sul quando fez parte de uma música da mais famosa dupla gaúcha. O verso de Kleiton & Kledir virou hit nos anos 80. “Quando eu ando assim meio down, vou pra Porto e, bah, tri legal”.  Depois de tanta chuva, tanta enchente e tanta tragédia, os gaúchos não podem se dar ao luxo de se entregar diante da gigantesca tarefa da reconstrução. Assim que as águas baixaram, arregaçaram as mangas para devolver a vistosa paisagem de Porto Alegre e reconstruir as demais regiões do Estado. Com a devida vênia dos colorados, deverão buscar a inspiração no hino do Grêmio, uma criação imortal de Lupicínio Rodrigues que metaforicamente diz que todo mundo precisa estar pronto para o que der e vier. Daqui para frente, não só para os gaúchos, no planeta inteiro, será assim. Por isso, a solidariedade que aflorou na tragédia será fundamental para a sobrevivência do Brasil e do Rio Grande. A natureza deu o seu recado.

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