Precisamos ter educação financeira,

Precisamos ter educação financeira

Os números são alarmantes: 83% dos brasileiros não conseguiram guardar dinheiro no mês de maio, mais da metade dos usuários de cartão de crédito não fazem controle efetivo dos gastos e quase 60 milhões de pessoas estavam inadimplentes até o final do primeiro semestre de 2017. Os dados, levantados em diferentes pesquisas pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), não deixam dúvidas de que o brasileiro ainda tem muito que aprender em relação à educação financeira.

Para o especialista em finanças Fábio Roberto Iorio, parte dessa realidade carrega traços de um tempo incerto. “A dificuldade do brasileiro em se organizar financeiramente, em um primeiro momento, se justifica por dois pontos principais. O primeiro é o histórico, ainda recente, de altas taxas de inflação com as quais as pessoas tinham urgência em consumir, pois o dinheiro perdia valor rapidamente. O segundo, e talvez mais grave, envolve o baixo nível de educação financeira da população, que não possui conhecimentos elementares, como noções sobre orçamento, crédito, taxa de juros e investimentos”, enfatiza.

Claudia Forte, superintendente da Associação Brasileira de Educação Financeira do Brasil (AEF), inclui outro aspecto importante que impacta diretamente no endividamento da população. “O Brasil tem uma cultura colonialista e escravocrata, na qual é vergonhoso assumir que a pessoa não detém bens materiais. Além disso, a atual sociedade se baseia no verbo adquirir e a pergunta básica antes de uma compra (eu preciso realmente disso?) raramente é feita. Atualmente, as pessoas são medidas por aquilo que ostentam materialmente e não pelo conhecimento, atitudes e decisões corretas que mantém”, analisa Claudia.

A falta de educação financeira dos pais, financeiramente falando, acaba gerando filhos mal educados. “Decorrente da nossa questão cultural e social, os pais têm vergonha de assumir para seus filhos que determinados gastos não deveriam ser feitos, uma vez que é mais importante manter as contas em dia do que gastar aquilo que não se tem. Essas questões impedem que o tema seja tratado em casa. Porém, é importante entender que quanto antes o assunto for abordado, maiores são as chances de os filhos se tornarem adultos financeiramente responsáveis”, contextualiza Claudia, ao lembrar que as crianças possuem muito mais facilidade de transformar uma informação em conhecimento.

Não é só em casa que o tema precisa ser debatido e incorporado à vida das crianças e dos jovens. A escola também tem papel fundamental, principalmente quanto atua junto à população carente, com menos acesso à informação e, muitas vezes, totalmente analfabeta financeiramente. É na escola, ressalta Claudia, que pode se iniciar uma transformação importante. “A criança ao chegar com o conhecimento, torna-se uma luz no fim do túnel para essas famílias. Muito jovens, principalmente do ensino médio, acabam assumindo o gerenciamento do orçamento familiar, por terem maior capacidade de controle e, muitas vezes, atitudes empreendedoras, que acabam proporcionando renda extra. Em lares desestruturados, por exemplo, a escola pode ser o grande catalisador dessa reestruturação, proporcionando melhora dentro da família e da comunidade onde está inserida, aumento em índices como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e diminuição das chances de endividamento local”, conclui Claudia.

Fonte: revista Administrador Profissional – nº 373

 

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Murilo Carneiro
Por Murilo Carneiro Consultor e professor universitário, mestre em Administração pela FEA-RP/USP, e-mail: murilo@knd.com.br
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