Por que?,

Por que?

 

  Sentado em banco tosco à beira da praia, debaixo de um caramanchão de rara beleza, pensava...

  Era fim de tarde e na verdade ele divagava...

  Aposentado aos 70 anos olhava o mar! Acompanhava com olhos já trêmulos, as ondas que tremiam mais que os olhos dele e se perdiam no meio da massa líquida que parecia não ter fim...

   O sol, com seus raios inclinados, incendiava o mar e penetrava pelas fendas do caramanchão.

  Estava sozinho de corpo, mas acompanhado de sonhos, pensamentos e visões que lhe  entusiasmavam a alma...

  Um raio de sol, que mudava de lugar, atingiu-lhe os olhos semi-abertos, como costumava mantê-los. Dizia que queria proteger as cirurgias de catarata que havia feito recentemente. Que coincidência! Logo nos olhos?  Mudou de lugar no mesmo banco e passou a observar de lado os raios que penetravam pelo caramanchão e faziam desenhos na areia. Uma brisa fresca começou a penetrar pelo caramanchão, abanar as folhas e a brincar com os desenhos do sol e das folhas, como crianças amigas de longa data.  Encantava-se com os desenhos trêmulos na areia quando, de supetão, um bem te vi pousa num coqueiro à sua frente e começa a cantar: bem te vi, bem te vi! A seguir, uma onda mais atrevida, chega, beija-lhe os pés e volta correndo para o mar, como se tivesse chegado para lhe fazer um cumprimento rápido.  Dentro de poucos segundos outro bem te vi pousa ao lado do primeiro e faz-lhe uma dança de pernas e asas como uma grande declaração de amor. Que declaração de amor maravilhosa!

   Estava embevecido ao olhar o casal de bem te vis quando ouve um terrível estrondo de trombada de automóveis na Avenida Beira-mar. Gritos, xingamentos, um tiro de arma de fogo, outro tiro, sirenes de polícia, de ambulância, de corpo de bombeiro. Que fato tão terrível em um fim de tarde tão sereno!

   Depois de algum tempo, a avenida voltou ao  normal e a praia passou a viver a tranquilidade anterior. O sol continuou a sua caminhada, os bem te vis continuaram seu namoro,  outra onda voltou a beijar dos seus  pés, a brisa continuou a brincadeira com os raios do sol, as folhas do caramanchão e os desenhos trêmulos na areia.

   Um pensamento, entre tantos, aflorou em sua mente!  Por quê  há fins de tardes? Por quê as ondas vêm e vão? Por que os bem te vis namoram com tanta euforia? Por quê o sol mergulha mansamente, sem barulho nos confins das águas do oceano? Por quê a noite chega cobrindo as ondas, a praia, as montanhas?

   Por falar em noite, ela foi chegando sorrateiramente!

   A última pergunta veio-lhe à mente: por quê os homens se matam?

 

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Nelson Jacintho
Por Nelson Jacintho Médico especializado em Ortopedia e escritor, e-mail: dr.njacintho@gmail.com
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