Efeitos da escala 6x1 e da centralidade do trabalho no meio ambiente

Efeitos da escala 6x1 e da centralidade do trabalho no meio ambiente

A escala de trabalho de 6x1, definida por seis dias de trabalho e um de descanso, é comum em muitas sociedades industriais. No entanto, seus impactos ambientais são frequentemente subestimados e não tão discutidos quanto questões sociais e de produtividade (CAVALCANTI, 2024). A transformação do trabalho moderno é fundamental para a sustentabilidade, tendo em vista a sua influência central na insustentabilidade da sociedade atual. Discutir criticamente o dilema entre empregos e meio ambiente, que se expressa como um conflito entre os impactos ecológicos do trabalho e a dependência estrutural da sociedade moderna no trabalho, é crucial para o futuro (HOFFMANN; PAULSEN, 2020).

Um dos efeitos ambientais mais discutidos da redução da jornada de trabalho, em contraste com a escala 6x1, é a potencial queda no consumo de energia elétrica (CAVALCANTI, 2024). Vinícius Oliveira da Silva, líder de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), explica que um modelo com mais dias de folga, como o 4x3, poderia estender o padrão de consumo de energia dos finais de semana para outros dias, diminuindo a carga sobre o sistema elétrico observado nos dias úteis. Ele estima que menos empresas operando significaria menos uso de ar-condicionado, motores elétricos e equipamentos em diversas indústrias, serviços e comércios (CAVALCANTI, 2024). Um teste da Microsoft no Japão, por exemplo, registrou uma queda de 23% no consumo elétrico ao implementar uma semana de quatro dias (CAVALCANTI, 2024).

Além do consumo de energia, a jornada de trabalho 6x1 contribui para o tráfego urbano intenso e, consequentemente, para as emissões de gases de efeito estufa (CAVALCANTI, 2024). A mobilidade exigida pelo trabalho presencial, como o tráfego de passageiros e as viagens de negócios, é um fator que contribui para a insustentabilidade, exigindo velocidade e, portanto, grande consumo de energia (HOFFMANN; PAULSEN, 2020). Um relatório da Nova Zelândia de 2017, "Benefits from Auckland Road Decongestion", demonstrou que a descongestão rodoviária em Auckland poderia gerar benefícios entre $0,9 bilhão e $1,3 bilhão, o que representa entre 1% e 1,4% do PIB de Auckland (NZIER, 2017).

A redução da escala de trabalho poderia ter benefícios ambientais ainda maiores se combinada com o horário de verão, já que isso diminuiria a necessidade de termelétricas, que são mais caras e emitem mais gases de efeito estufa e poluentes (CAVALCANTI, 2024). Gabriela Brasil, diretora da 4 Day Week Global, enfatiza que testes globais com a escala 4x3 mostram ganhos significativos no uso de recursos naturais e na redução da pegada de carbono, promovendo práticas mais alinhadas com a sustentabilidade climática, desde que haja planejamento adequado e adaptações às realidades locais (CAVALCANTI, 2024).

A sociedade industrial moderna está profundamente enraizada na centralidade do trabalho como eixo estruturante e básico das relações sociais, do sustento individual e familiar, da proteção social e da constituição da identidade. Essa dependência estrutural do trabalho leva inevitavelmente ao dilema entre a preservação dos empregos e a preservação ambiental. Como já indicava Karl Marx em O Capital (1867), o modo de produção capitalista subordina a natureza e o trabalho humano à lógica da valorização do capital, gerando uma “ruptura metabólica” entre o ser humano e o meio natural, ou seja, uma degradação das condições ecológicas ao mesmo tempo em que precariza o trabalhador. Nesse contexto, a contradição entre emprego e meio ambiente não é apenas técnica ou econômica, mas expressão de um conflito mais profundo entre capital e vida.

Um argumento frequentemente utilizado para justificar a degradação ambiental é a preservação ou criação de empregos. Na esfera dos debates públicos, essa prioridade se expressa na defesa de projetos com significativo impacto ecológico, como a construção de novas infraestruturas ou a manutenção de setores poluentes. Essas ações são muitas vezes defendidas em nome da geração ou segurança de postos de trabalho. (JEREISSATI; MATIAS, 2022).

Contudo, a escala e a produção contínuas, características da lógica de trabalho 6x1, têm impulsionado uma expansão que ultrapassa significativamente os limites que o meio ambiente pode suportar de forma aceitável e sustentável (HOFFMANN; PAULSEN, 2020).

Em suma, a transformação do trabalho e de alguns modelos a ele ainda vinculados (como a escala 6x1), é indispensável para um avanço significativo em direção à sustentabilidade. Embora ainda esteja presente uma resistência generalizada à redução da jornada de trabalho, impulsionada por visões moralistas de que o valor social deriva do trabalho e pelo temor de um suposto declínio econômico, o sistema socioeconômico atual é literalmente insustentável a longo prazo. É necessário buscar caminhos para recontextualizar e redefinir o trabalho, questionando sua centralidade, e abrir novas perspectivas para resolver problemas de sustentabilidade enraizados, impulsionando a mudança social em direção a uma sociedade mais sustentável e desejável (HOFFMANN; PAULSEN, 2020).
 

Autor: Lucas Garavaso Melges - Graduando em Administração | FEARP.

Revisor: Luciano Henrique Caixeta Viana - Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Administração de Organizações | FEARP.
 

Referências:

CAVALCANTI, Guilherme. Redução de escala 6×1 para 4×3: o pouco discutido impacto no meio ambiente. Instituto Humanitas Unisinos - IHU, São Leopoldo, 10 jan. 2024. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/638979-reducao-de-escala-6x1-para-4x3-o-pouco-discutido-impacto-no-meio-ambiente. Acesso em: 14 jun. 2025.

HOFFMANN, Maja; PAULSEN, Roland. Resolving the ‘jobs-environment-dilemma’?: The case for critiques of work in sustainability research. Environmental Sociology, v. 6, n. 4, p. 343-354, ago. 2020. DOI: 10.1080/23251042.2020.1790718. Disponível em: https://doi.org/10.1080/23251042.2020.1790718. Acesso em: 14 jun. 2025.

JEREISSATI, Lucas Campos; MATIAS, João Luis Nogueira. O direito a cidades sustentáveis na ordem jurídica brasileira e o caminho para a urbanização racional. Revista de Direito da Cidade, [S.L.], v. 14, n. 1, p. 643-672, 26 jan. 2022. Universidade de Estado do Rio de Janeiro. http://dx.doi.org/10.12957/rdc.2022.52277. Disponível em: https://www.epublicacoes.uerj.br/index.php/rdc/article/view/522 77/41146.

MARX, K. O Capital: Crítica da economia política – Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. (Original de 1867). Disponível em: https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/o-capital-livro-1-152742?srsltid=AfmBOoquVPBdiIrkSV80i9T7dE6bM1fTUJRa4dp6NbaP6jdE_tqvzVCl. Acesso em: 31 jul. 2025.

NEW ZEALAND INSTITUTE OF ECONOMIC RESEARCH (NZIER). Benefits from Auckland road decongestion. Wellington, Nova Zelândia: NZIER, 2017. Acesso em: 31 jul. 2025.

 

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