A IMPLACÁVEL COLHEITA- JAIRO DE BRITTO

A IMPLACÁVEL COLHEITA- JAIRO DE BRITTO

A IMPLACÁVEL COLHEITA

(Jairo de Britto)

 

Quando criança, roubaram-lhe

(em nome da cara boa conduta)

... o direito à Alegria. Ele resistiu.

 

Quando jovem, roubaram-lhe

(em nome da ordem e progresso)

o direito à Rebeldia. Ele revidou.

 

Quando adulto, roubaram-lhe

(em nome do mais querido Ter)

o direito de Ser. Ele assentiu.

 

À meia idade, roubaram-lhe

(em nome dos bons costumes)

o sagrado Querer. Ele aceitou.

 

Quando completou seus 80 anos,

(aniversariante obediente ao rito)

viu o quê permitiu! Ele perdeu.

.

Ele, atônito fantasma de si à deriva:

que nada a ninguém pediu e culpa.

Ele, dono do Tempo agora inútil.

Ele, só – diante do horror do não-Ser!

 

 

*Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”

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