TRECHO CRÔNICa DATAS-RENATA CARONE SBORGIA
“…abomino datas. Para que servem??? Lembrar de lembranças já acomodas em mim??? Lembrar que já lembro todos os dias num silêncio tímido e num sentimento atormentador o que chamo de hipoglicemia de afeto. Sofro de hipoglicemia de afeto...
Não há medicação nas prateleiras das Farmácias dos Sentimentos.
Preciso de uma dose alta de colo e doses homeopáticas de aconchego. Datas, datas...
São perversas...são vilãs porque agudizam minha dor crônica chamada saudade.
Preciso de datas para declarar meu amor a quem amo tanto???
Ah...datas, datas...não aprisionem o meu amor por quem já se foi...por quem não faz parte do meu cotidiano previsível...por quem está no meu dia a dia também e minha paixão enamorando e construindo um amor sem demolição...
Quando ofertarão um calendário sem as algemas das datas???
De alguma forma, na espreita do tempo, remexem um algo sem explicação neste coração com muitas quilometragens de batidas sofridas e vividas.
Datas, datas... para quê??? Amar a saudade de despedidas e amar a presença dos meus amores escancarados e clandestinos que rasgam minha pele branca e desprotegida??? Não há de se ter datas para me lembrar de sentimentos e queridos inesquecíveis.
Datas, datas...que trazem à tona sentimentos antagônicos como alegria/tristeza, presença/ausência, amor/desamor, um bem querer mais do que o avesso deste sentimento...por que ligar o liquidificador de tantas emoções em uma única data???
Datas me fazem crer no que diz a regra geral de finais felizes...acreditei um dia... até deparar-me com a apresentação do desfecho e nada foi para sempre como diziam...como dizem...
Datas, datas que pertencem a mim para depois aprender que ninguém escapa do encontro da data fatídica do ponto final...
Datas de homenagens com a felicidade no contentamento que transborda em portas-retratos...congelam sentimentos, momentos, lembranças...aprisonam o que está no meu baú de sentimentos e exibem datas sorridentes que também pude comemorar.
Remexo as fotos...
Preciso de uma mesa farta de doces, bolos recheados de carinho, tortas cremosas de autoestima alta, quitutes de amor para petiscar o dia inteiro ou todos os dias.
À mesa, as cadeiras, a música, os adornos chamados lembranças...cenário simples e denso para se comemorar em datas estipuladas forçosamente pelo calendário humano. (humano???)
Sou “anti-data”. Quem legitimou o calendário com amplos poderes para me lembrar do que nunca foi esquecido????
Saiu à francesa deste senso comum humano que homenageia datas impostas.
Dentro da minha lógica sou ilógica quando se diz em aprisionar em datas o que tenho liberto: sentir com volúpia meus sentimentos que alçam voo para todos que me tocaram e tocam no ponto nevráugico do meu coração.
Não preciso de datas... muitas vezes precisei de curativos sentimentais em madrugadas longas, para cicatrizar minhas insônias sentidas pela ausência...ausência...ausência mesmo com presença.
Ressacas e porres de ilusões e desilusões já marcaram estas tais datas previsíveis em calendários, assim como a catarse da alegria em datas datadas aleotariamente, sem um motivo que as justificassem...
Quantas vezes fui ao Pronto Socorro pedir clemência e urgência para uma conversa acalentadora???Quantas vezes queimava de febre chamada de desafeto???
Injetavam na artéria coquitéis estimulantes de amores para adormecerem os sonhos inquietantes naufragados nesta realidade.
Rendo-me???
Sento à mesa e esboço então as minhas datas...alguém encosta a mão quente de amor em mim...sinto um fogaréu para continuar ...e cada dia de um calendário marco datas chamadas desejos que os quero todos os dias com a vida em efervecência de viver.
Coloco no cabeçalho do meu calendário: Não há de se ter datas para me lembrar de sentimentos e queridos inesquecíveis.
trecho crônica: DATAS--SAPERE EDITORA--DIREITOS RESERVADOS A RENATA CARONE SBORGIA