Cidade colaborativa

Cidade colaborativa

Muitas vezes esquecida, a relação das pessoas consigo mesmas, com a rua, o bairro, a cidade, enfim, onde vivem, é o ponto de partida para a construção de um “lugar comum” mais acolhedor

O poeta inglês John Donne escreveu, no século XVI: “nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. O trecho, reproduzido em 1940 pelo norte-americano Ernest Hemingway em seu romance “Por quem os sinos dobram”, sugere que os homens estão todos interligados e, por isso, a perda de um ser humano é a de todos.

Nada mais pontual para definir a necessidade premente de estímulo a um conceito do século XXI que começa a pipocar associado à economia e às cidades: a colaboratividade. Isso porque, cada vez mais distantes de si mesmas e dos outros, iludindo-se serem seres sociais em relações virtuais de amizade ou amorosas, grande parte das pessoas, na atualidade, afastam-se do convívio umas das outras, da sua essência humana social, promovendo o comodismo, a indiferença e o individualismo.

Na contramão dessa tendência, porém, muita gente também tem buscado alternativas para promover o resgate da interligação entre as pessoas para estimular o convívio e o desenvolvimento de cidades colaborativas (ou compartilhadas), um conceito novo, que, aos poucos, vai ganhando corpo e consiste em incentivar os habitantes a se organizar e dividir espaços, serviços ou bens.

Cidadão cocriador

Na capital, iniciativas do CoCidade — Festival de Iniciativas Colaborativas e do Instituto Cidade em Movimento (IVM), buscam fugir da representação da cidade como um amontoado de pessoas solitárias, ilhas, cada uma metida no seu próprio mundo e preocupada exclusivamente com seus próprios problemas e sonhos. “A cidade só é — ou só deveria ser — um lugar-comum na medida em que se baseia na COMUnidade, em espaços COMpartilhados, em sonhos COLetivos”, propõe o Instituto.

De forma semelhante, em Ribeirão Preto, a Rede de Cooperação Cidade Criativa, do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC) se lançou sobre o estudo do centro da cidade, emergindo com propostas inovadoras de reorganização do bairro, pautadas pelo conceito de cidade colaborativa. O exemplo de colaboração, neste caso, começou na união de três instituições de ensino superior no apoio ao IPCCIC, mantendo professores no grupo de pesquisa. A Unaerp e os Centros Universitários Barão de Mauá e Moura Lacerda assinaram acordo de cooperação com o instituto por acreditarem no trabalho de pesquisa como base para o planejamento de qualquer localidade.

O diagnóstico inicial do grupo apontou a necessidade de se criar meios que proporcionem uma transformação no comportamento do morador da cidade. Segundo avaliação dos pesquisadores, o cidadão tende a se comportar simplesmente como usuário e não como cocriador do lugar onde vive. “O morador do centro, a exemplo do morador de outros bairros da cidade, não é criador, não é partícipe, é usuário. Ele usa o centro, o bairro, a rua, o banco, a praça, mas não se sente parte disso tudo porque não tem relação de pertencimento. Então, nossa pergunta inicial para a proposta foi: como transformar o usuário em cocriador da cidade? Porque este é o único caminho”, argumenta a doutora em História, professora da Unaerp e conselheira do IPCCIC, Sandra Rita Molina.


Para a professora, o centro deixou de ser acolhedor e passou a ser um problema, pois vai morrendo depois das seis da tarde. “A iluminação é só no circuito do Pinguim e do Theatro Pedro II. O restante fica abandonado. Perdemos o espaço da praça, a possibilidade do lazer ao ar livre. Nosso centro não nos convida a ficar. É quente, árido, faltam árvores”, afirma, ressaltando que as propostas do IPCCIC não colocam o patrimônio como algo para a elite, mas de todos, pois, ao não se sentirem partícipes do centro, as pessoas não o mantém. “A mudança só é viável se há a inserção de uma parcela da sociedade que está apartada em Ribeirão Preto”, reitera Sandra.

Sem uma parceria entre população, grupos gestores e empresários, segundo o IPCCIC, nenhum projeto deve frutificar no centro ou em qualquer outro bairro da cidade. Se a população não sente proximidade, não tem relação de pertencimento com o local, pode-se restaurar, pintar e deixar bonito que em três semanas estará tudo mal cuidado, pichado, sujo. “Isso não acontece por falta de segurança, mas de Educação. Aquilo não representa nada para quem picha porque essa pessoa não foi ensinada a dar valor àquilo. É uma questão de pertencimento. Se não significa nada para ela, ela não vê razão para preservar”, afirma a pesquisadora. Por isso, segundo ela, qualquer ação que envolva o centro tem que ser uma ação social, não que reabilite o lugar, mas que o torne habitável, vivo, e, para ser vivo tem que ser cocriado.

A arte, neste processo, é reunir e manter as pessoas em torno de um mesmo objetivo. Mauricio Robattini conhece bem as possibilidades e dificuldades de se criar redes de cooperação desse tipo. Há alguns anos, uniu-se a cerca de 20 empresários do segmento de restaurantes em um grupo setorial, na tentativa de promover melhorias para todos, mas a iniciativa durou cerca de dois anos apenas. “Chegamos até a montar uma empresa de processamento de legumes juntos, era uma espécie de cooperativa. A ideia toda era ótima, mas o grupo começou a perder o foco, a ter muito interesse individualizado, aí não deu certo. Reconheço que é difícil reunir pessoas com visões diferentes. Uns acham que têm que investir, outros que é obrigação da prefeitura e, no fim, não se faz nada. Enquanto não houver união, enquanto os próprios empresários não valorizarem o centro, ele continuará ficando para trás”, lamenta o empresário.

Autoconhecimento


Frequentador da região central, onde ministra aulas de Tai Chi Pai Lin e Atitude Mental Positiva (AMP), Felício Bombonato
garante ser possível alcançar este ideal de uma cidade mais colaborativa por meio da reeducação da mente. “É interessante entender que dentro de toda semente já estão os recursos para ela se desenvolver, crescer e dar frutos. Se você coloca essa semente em um vaso de bonsai, ela tem sua produção de frutos limitada, mas se tira do vaso e coloca em terra fértil, ela continua crescendo, porque os recursos ainda estão dentro dela. Em nosso atual modelo de Educação, muito ligado ao medo, à depressão, à discriminação e à culpa, a criança acaba crescendo modelada por limitações e se tornando um ‘adulto bonsai’, com sua produção de frutos limitada. Para que possamos evoluir, temos que ter consciência de que fomos programados por limitações e expandir nossa mente de modo a promover mudanças, melhorar nossa autoestima e permitir crer-nos capazes de ir além, sonhar e agir de modo proativo e não reativo”, afirma o professor.

Felicio diz que as árvores frutíferas estão presas a um propósito: dar frutos e que não
dão menos frutas porque no ano anterior sobraram ou porque lhe jogaram pedras. Igualmente deveria agir o ser humano. “O homem tem um gigante adormecido em si, capaz de produzir muitos frutos em prol da sociedade, só que o medo semeado diariamente em milhões de lares congela a ação, faz com que as pessoas pensem mais no seu próprio mundinho do que em mudar algo lá fora. Uma mudança deve acontecer quando, assim como as árvores, cada pessoa encontrar seu propósito superior”, ensina Felicio.

Camila Figueiredo Bonome Masson, coordenadora pedagógica no Colégio Auxiliadora, deposita grande esperança nesse sentido sobre a disciplina Cultura da Paz, que aborda a educação emocional e social, auxiliando os alunos a se compreenderem melhor. O programa de Inteligência Relacional está presente há cinco anos no currículo de alunos de seis a nove anos e, segundo ela, já começa a ter resultados estendidos para as famílias. É comum os pais comentarem que estão usando o PRA (parar – refletir - agir) em casa porque os filhos os ensinaram. “Nossa cultura prioriza o plano intelectual, as questões cognitivas e se esquece das socioemocionais, que precisam ser mais bem compreendidas porque influenciam diretamente o pensamento. Em geral, as pessoas não percebem o quanto as emoções as influenciam. Acredito que esteja faltando no mundo dar um pouco mais de atenção a isso. Estamos carentes desta autorreflexão em nosso dia a dia agitado”, explica Camila.

Tomando esses relatos como base, pode-se perceber que o caminho da cocriação do centro, da transformação de Ribeirão Preto em uma cidade mais colaborativa, passa necessariamente pela autoavaliação de cada cidadão sobre suas atitudes com a sua rua, o seu bairro, a sua comunidade, a sua cidade, enfim.
Mais conteúdo: entrevista com Felício Bombonato


Texto: Yara Racy

 
 

Compartilhar: